| Lisandro Otero: sempre confiei nas utopias |
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| Arte e Cultura |
| Anubis Galardy (Prensa Latina) |
| Sex, 04 de janeiro de 2008 12:26 |
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La Habana - Prensa latina transmite, a continuação, uma das últimas entrevistas dadas pelo escritor e jornalista cubano Lisandro Otero, recém falecido, aos 75 anos, nesta capital. É um dos narradores mais importantes da segunda metade do século XX cubano, cujas pulsações e viradas ficaram registradas, com mão de mestre, em sua literatura. Uma literatura à qual o exercício paralelo do jornalismo ─ ao contrário do que opinam alguns escritores sobre esse ofício ─ não fez senão trazer-lhe ganhos, num jogo de mútuas influências, de seivas nutrientes., do qual ambas vertentes saíram favorecidas. Testemunha e ator de seu tempo, polêmico, desenfadado, acessível, com uma curiosidade em permanente acesso e uma louçainha intelectual intacta a seus mais de 70 anos, Lisandro Otero consolidou uma obra vasta, coral, significativa; uma novelística esplêndida, que segue crescendo, na qual explora a fundo a história ─ não só a do seu país ─ e nos interstícios mais íntimos da natureza humana, os azares do homem frente a si mesmo e a seu destino. Lê-lo é uma aventura enriquecedora, apaixonante, Incitá-lo ao diálogo, um prazer e esse desafio que supõe submeter um jornalista experimentado nessa metafórica arena a esse duelo de perguntas e respostas, no qual ele é um artífice consumado. - A estas alturas de uma vida intensamente vivida, como a sua, e uma obra sólida, de alto vôo, que o respalda, impõe-se uma espécie de retrospectiva. Já deu essa olhada para trás, qual é o saldo? ─ Ainda não realizei essa retrospectiva, porque quando se tira da raia e some quer dizer que não há nada mais a acrescentar. Mas há no haver algumas realizações, algumas frustrações, perdas e ganhos, desacertos e conquistas... como todo o mundo. - O Prêmio Nacional de Literatura chegou-lhe num momento em que tem acumulado um número considerável de honras e distinções. Como o recebeu? ─ Com surpresa, com assombro e desconcerto. Não fazia a menor idéia de que o receberia. Pensava que jamais me seria outorgado. Recebi quase uma centena de mensagens da Internet e dezenas de chamadas telefônicas de todo o mundo. Vi numerosos telegramas de agências de imprensa, os jornais da América Latina difundiram a notícia. É um louro prestigioso que convocou a atenção da esfera da cultura. Depois, a surpresa deu lugar ao júbilo. Sobre tudo quando percebi que eram muitos ─ mais do que imaginava ─ aqueles que se regozijavam comigo, que era um contentamento compartilhado e autêntico. Isso me outorga uma sensação de confiada segurança no consenso alcançado. - Quanto permanece em você daquele jovem vinte e tantos anos que escreveu um romance, hoje considerado um clássico da literatura cubana, A Situação? ─ Creio que quase tudo, sobretudo o impulso apaixonado de confiar sempre nas utopias e sua auréola futura. Foi com essa confiança que escrevi La Situacion. - Em seu romance Temporada de Ángeles há uma dedicatória que expressa mais ou menos: à presença, cada vez mais crescente, de Alejo Carpentier. Quais são suas dívidas com Carpentier, quais suas afinidades ou proximidades? ─ Sempre professei um deslumbramento estremecido ante a presença monumental de Alejo Carpentier, por sua destreza como escritor, sua vida ubérrima, sua incessante curiosidade pelas tecnologias e pelos movimentos da criatividade e do pensamento. Seu ouvido perceptivo lhe permitiu alcançar umas sonoridades da língua que muitos poucos lograram. A eufonia de sua prosa e a visão do mundo que nela reflete deveriam ser aspirações de todo romancista que aspire à eternidade. Afortunado poderia considerar-se todo aquele que se lhe acercasse a um centímetro do salto do seu sapato. - Você seguidamente se refere, com satisfação implícita, a muitos de seus livros, mas não lembro que mencione com freqüência um deles, Pasión de Urbino, inclusive seguidamente relegado pelos críticos. Se arrepende dele ou o reivindica como fez Cortazar com 62 Modelos para armar ao que chamava “seu filhinho feio, mas secretamente preferido”? ─ Não tenho nenhum reproche que fazer a Pasión de Urbino. É um romance sem muitas pretensões, perfeitamente lograda dentro das dimensões que intentei. Creio que deve reeditar-se. Constantemente recebo referências de jovens que o leram em bibliotecas, porque suas tiragens estão esgotadas, e que o preferem a meus outros romances de corte histórico e realista. Parte das novas promoções se inclina por este tipo de literatura de maior vôo imaginativo e arrevesados contatos com a materialidade objetiva. Esse livro foi selecionado em 1967, pelo conjunto dos críticos cubanos, entre os melhores publicados esse ano. - Você, numa conversa na Biblioteca Nacional de Cuba, afirmou: Vivi a vida e me queimei sob o sol. A frase equivale a um epitáfio. ─ Não houve nenhuma intenção mortuária. Simplesmente quis dizer que ao cabo de meio século de brega posso mostrar as cicatrizes das batalhas que livrei no caminho. - Você nasceu em berço de ouro, era filho do presidente da poderosa Associação de Repórteres, tinha casa em Varadero, Guanabo, e residência em Miramar. Desde o início esteve vinculado à Revolução surgida no país. Como se produziu em você o que poderíamos chamar desclassamento, como foi esse processo de aprender a prescindir? ─ Meu pai também foi Decano do Colégio Nacional de Jornalistas e era uma figura influente no panorama cubano, apesar disso o sistema não me absorveu. Creio que minha educação revolucionária se devo-a em grande medida à Universidade de Havana que era uma grande academia de rebeldia. Na década de cinqüenta, comecei a ler marxismo e me vinculei ao Comitê 30 de Setembro, ao qual também pertencia Fidel Castro, Lionel Soto, Bilito Castellanos e Alfredo Guevara, entre outros. Depois estudei na França e aquele meio foi outra grande escola de insurreição. Ali me vinculei aos movimentos estudantis de esquerda. Finalmente, no meu regresso a Cuba, adverti com maior nitidez as desigualdades, os atropelos e a irracional organização social. Uni-me às atividades do Movimento 26 de Julho, e os sacrifícios daqueles rapazes, os martírios a que foram submetidos pela ditadura, a abnegação e o desinteresse que os impulsionava terminaram de persuadir-me da razão daquela causa. Em 1959, não era um revolucionário maduro, mas estava pronto para aprender a sê-lo. - Você é considerado um homem polêmico, e você mesmo se autodefine assim. Considera isso uma virtude? Quando se lho dizem, toma como uma crítica ou como um elogio? ─ Até certo ponto, tomo-o como um cumprido, porque quer dizer que não fui um conformista submisso, um resignado sem critério. Às vezes, classificaram-me como “conflitivo” e não creio que haja nada de pertubador nisso, porque mantive certas pautas de pensamento e de conduta divergentes, mas sustentei minhas discrepâncias com cordura e sem ceder jamais nos princípios. Meus dissentimentos nunca foram de fundo. Considero-me revolucionário por ser intransigente. - Quanto há, nos seus livros, de trabalho duro, a mão limpa, com a palavra? ─ Muito. Mas devo dizer que sou autor de uma obra vasta e, portanto, irregular. Aprendi trabalhosamente o ofício e meu vaivém incessante com as palavras é uma aquisição dos últimos tempos. Em minhas primeiras obras não existe o mesmo cuidado formal e em alguns casos as salva o ímpeto com que foram escritas mais do que os primores da feitura. - Que lhe inquieta como pessoa e como escritor, que lhe preocupa a ponto de não deixá-lo, às vezes, dormir? ─ Haver realizado tanto esforço em vão. Deixar de existir e converter-me numa partícula cósmica, esquecida e mínima. Que o trânsito humano não seja mais do que uma ilusão dos sentidos. Formar parte de um magma difuso, impalpável, intranscendente. - Que autores ainda são seus “companheiros de viagem”? ─ Alejo Carpentier, Nicolas Guillén, Joyce, Stendhal, Flaubert, Sartre, Malraux, Hemingway, Quevedo, Thomas Mann, Malcom Lowry, Nabokov, Dos Passos, Pablos de la Torriente, Graham Greene. - Para alguns críticos, você é um romancista fundamentalmente urbano ou citadino. Está de acordo com essa definição? ─ Não estou de acordo. Minha experiência vital foi citadina, não há dúvidas; não sou um homem do campo, mas meus romances históricos se desenvolveram em toda a vasta extensão da ilha cubana. - Sua vida como jornalista ou como diplomata o situou no centro mesmo de uma voragem de acontecimentos, em meio de uma história cambiante e palpitante. À margem do que converteu em matéria nutriente de sua literatura, que lhe deixaram essas experiências humanamente? ─ Testemunhei, certamente, algumas das maiores comoções do século vinte. Estive presente na guerra no Vietnã, na revolução cultural chinesa, na Unidade Popular de Salvador Allende, na ereção do Muro de Berlin e também na sua derrubada, no início da “perestroika” na Rússia, no despertar da África ao iniciar-se a descolonização e, desde logo, na revolução Cubana, da qual participei ativamente. Não seria quem sou se não tovesse vivido essas experiências que formaram ou modificaram minha visão do mundo. Creio que aprendi a entender a caducidade das instituições humanas, a volatilidade da ordem construída, as possibilidades infinitas que todo intento de mudar a vida encerra. - Ao cabo de mais de 70 anos, como se vê a si mesmo, que espera do Lisandro que é? ─ Pelo tempo que me resta, já não posso esperar muitas novidades, nem alimentar maiores expectativas, mas sim espero muito da nova geração, dos jovens que se formaram muito melhor do que os da minha turma, que têm umbrais de tolerância mais significativos e níveis de educação muito mais vastos. |


