| Enrique Pineda Barnet: ainda espero a surpresa |
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| Arte e Cultura |
| Pedro Quiroga Jiménez |
| Dom, 06 de janeiro de 2008 08:36 |
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O destacado cineasta cubano Enrique Pineda Barnet, Prêmio Nacional de Cinema 2006, centra no tema da separação familiar seu mais recente filme Te Espero en la Eternidad, em processo de edição. A fita, rodada entre dezembro de 2006 e janeiro deste ano conta com as atuações de Verónica Lynn (Prêmio Nacional de Teatro 2003), Broselianda Hernández, Héctor Eduardo; Ismael Diego, neto do falecido poeta Eliseo Diego, e do menino Roberto Díaz. Roteirista de cinema e vídeo, professor titular universitário, jornalista, crítico, publicista e locutor, Pineda Barnet teve una participação ativa, desde muito cedo, em quase todas as disciplinas artísticas. Em 1953, obteve o Prêmio Nacional de Literatura Hernández Catá e o prêmio do Festival da Canção Cubana. Motivações à margem, o realizador de La bella del Alhambra ─ Prêmio Goya 1990 e indicação ao Oscar em 1991 ─ é um homem extrovertido, dono de uma comicidade invejável que imprime a seu mordaz e eloqüente verbo. - Que ensinamentos e que rastros o cinema lhe deixou? ─ Mil ensinamentos e rastros também. Há uma etapa muito marcada da minha vida, quando exerci o magistério na Sierra Maestra, na montanha. Havia-o exercido desde antes, mas o desenvolvi ali.. Um documentário do meu conterrâneo José Massip, intitulado El Maestro del Cilantro, recolhe cenas de minha vida na Sierra, com os meninos que foram meus alunos, desde os que tinham quatro anos até os adultos. Desses meninos de então há uns quantos que, por determinadas voltas do destino, vivem agora na cidade. Há, por exemplo, uma professora de profissão, cujo filho é atualmente o advogado que trabalha comigo. Esse é um presente da vida. Esses meninos de ontem são meus padrinhos na atualidade. É um tesouro incalculável. A vida te presenteia e te premia constantemente. Não senti seu castigo, vai ver que é porque me portei bem. Nunca experimentei nem ódios nem rancores. Ainda espero a surpresa. - Você é um criador multifacetado e se destacou também na atuação teatral. ─ O teatro foi a origem e a inspiração. Sempre pensei que ia ser um artista: um cantor, um bailarino, um ator, e terminei sendo diretor de cinema. Fiz-me escritor e sonhei toda a vida que o seria, ganhei um Prêmio Nacional de Literatura mas a vida me levou ao cinema, foi a casualidade e não a causalidade. Quando tomei a decisão romântica de marchar como professor de camponeses à Sierra Maestra, não me havia dado conta de que existia em mim essa vocação tão forte, e a vida me jogou numa treta difícil. Designaram-me como administrador-interventor de engenhos, algo que não tinha nada que ver comigo, não me agradava. Por esse motivo, me transferiram para o corpo diplomático, que tampouco me agradava, nem escolhi. Para escapar de tudo isso, fui-me aonde primeiro encontrei lugar: pedi asilo no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas. Alfredo Guevara, Julio García Espinosa y Héctor García Mesa me acolheram e me converti em cineasta por casualidade. - Como interpretou o Prêmio Nacional de Cinema? ─ Primeiro, como um paradoxo, pois me parecia muito estranho que eu recebesse um prêmio dessa categoria após 18 anos sem poder fazer um longa-metragem em meu país. Significou e significa, não obstante, uma idéia de ressurreição. É muito curioso: ressurreição foi a do meu primeiro filme, Giselle (1963), transformado agora em clássico. Ressurreição também é a de outro de meus títulos, Soy Cuba (1963), cujo roteiro me provocou dores de cabeça por tudo o que significa escrever para pessoas de outra cultura e uma visão diferente da vida. Foi um fracasso no momento de sua estréia, tanto aqui como na outrora União Soviética. Ao cabo de quase 50 anos se converteu em um boom; é outro paradoxo, outra ressurreição. Uma ressurreição é igualmente a do filme Mella, que havia passado sem pena nem gloria em 1975 e que em 2006 se difundiu como se fora una obra nova. O mesmo sucedeu com David, em 1967. Este ano me chamaram do Museu de Arte Moderna Rainha Sofía, de Madri, para dizer-me que meu curta Cosmorama (1964) estava qualificado como precursor do que atualmente se chama videoarte. Há muitas ressurreições, maiores e menores, mas me digo: já tenho idade para morrer, será que o Prêmio Nacional de Cinema é o colofão de minha vida? Arturo Infante, jovem e talentoso realizador, fez um curta e me chamou para que encarnara uma pequena personagem. Disse-lhe: faço sempre e quando me permitas acrescentar-lhe algo ao ancião que interpreto, que tem o peito cheio de medalhas e condecorações. Quero quitar-me as medalhas em frente à câmara e jogá-las em um gorro. Aprendi muitas analogias, gosto de jogar com a semiótica e as múltiplas interpretações, e tratei agora de impregnar minha vida, assim como minha obra, de analogias e paradoxos. - A vida também o levou a ser jurado no recém concluído Festival do Novo Cinema Latino-americano. ─ É paradoxal que ao cabo de 18 anos estivesse no jurado de ficção, quando não recebi o Coral por La Bella del Alhambra, em seu momento. O que me diverte é o paradoxo e a ressurreição. Tive uma enorme preocupação em ser justo, exato, preciso. Ser justo é muito difícil; não é justo que eu diga que fui justo, porque não sei se o fui. Não gosto de tomar decisões às cegas, não gosto da fé cega, nem da justiça cega. Creio que há que fazê-lo de maneira consciente e com todos os elementos possíveis. É uma tarefa difícil, nada cômoda. - Como bem disse, você é considerado precursor da videoarte. - Três obras minhas: Cosmorama, Juventud, Rebeldía y Revolución, y El Ñame seguem dormindo o sono dos justos nos arquivos do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos (ICAIC). Com a primeira tratei de fazer um jogo estético e poético, sem grandes pretensões. Começou sendo uma prova de cor de um novo celulóide que mostraram ao ICAIC, para una possível compra. Deram-me mil pés de película, foi um presente para que eu fizesse o que me desse ganas. Fui-me à casa do pintor Sandú Darié e comecei a fotografar com Jorge Haydú (húngaro residente na ilha). Assim surgiu Cosmorama. - Sua presença foi notável no Festival de Havana. Entre outras coisas, se exibiu o documentário Una Canción para Rachel. ─ É um documentário de Carlos Barba, um jovem valor, muito interessante. Trata-se de uma homenagem a La bella del Alhambra com um making off do filme, um precioso trabalho em que logrou entrevistar a várias pessoas. Começou comigo, com Verónica Lynn e o diretor de fotografia Raúl Rodríguez. Mas foi buscar Beatriz Valdés, a Caracas; Isabel Moreno y Jorge (Tuti) Abello, a Miami; Gonzalo Romeo, a México; buscou momentos da filmagem, usou ol trailler do filme, fragmentos das canções, cenas, enfim… Parece-me um documentário muito emocionante, belo e inteligente. - Pensou no que fará nos próximos cinco anos? Tenho pensadas vários filmes, nesta ordem: Verde, Verde; Nora@Dirección Equivocada; El Beso que no te Di; y Bolero Rosa. Também penso terminar meu romance, que venho armando faz anos, é meio autobiográfico e se chama Se Anda Buscando a un Hombre Llamado Máximo. Si lo Ve, Pídale, por Favor, no Desaparecer. Esse é o títulozinho. Quem o ler terá que ter muita paciência e tenacidade, porque será muito longo. |


