Heróis contra o Terror PDF Imprimir E-mail
Arte e Cultura
Flávio Braga   
Seg, 01 de fevereiro de 2010 12:17

 

Flávio Braga
Flávio Braga
Em comentário aqui, com o título de A década que bombou, tentei analisar o cinema político da década que se encerra e observei que não se conseguiu dar conta do fenômeno "terrorismo islâmico". Um filme lançado apenas em DVD, mas que agora desponta como brilhante, concorrendo a todos os prêmios, surgiu logo depois. Trata-se de Guerra ao Terror, em versão brasileira. Assisti e quero deixar algumas impressões.

O ambiente, a direção de arte, digamos assim, é perfeita. Somos colocados ao lado de um esquadrão que desarma bombas em Bagdá após a invasão norte-americana. As ruas sujas, os rostos tristes e as ruínas são exatamente o que assistimos nos telejornais. A tensão diante dos artefatos explosivos e a morte rondando os bravos soldados americanos também são reais. Além disso, como li numa crítica, não é um filme com trocas de tiro coreográficas como nos filmes de Rambo. Apesar de todos esses cuidados, da interpretação refinada e da câmera "nervosa" que imita os documentários, trata-se de um filme conservador, que não consegue renovar as posições éticas e estéticas que a maioria das pessoas possui sobre o conflito.

Um dos lugares comuns clássicos sobre a representação é a famosa catarse, que Aristóteles teorizou como o sentimento de troca estabelecido entre ator e público. Grosso modo, poderíamos resumir a idéia dizendo que o espectador se refaz de seu drama particular assistindo ao conflito representado. Em Hollywood essa teoria foi redefinida a partir do trabalho do mitólogo Joseph Campbell, que redimensionou o papel do herói. É uma longa história, mas para resumir podemos observar o seguinte: o herói de cinema segue uma lógica dramática pré-determinada que o faz superior as condições em torno. Tarzan, Superman ou o cara que desarma bombas no Iraque durante o filme Guerra ao Terror possuem uma superioridade abstrata sem comunicação com a realidade. Ou melhor, com enorme comunicação com a realidade que lhes interessa mostrar.

Owen, o protagonista de Guerra ao Terror, abre mão do robô que pode examinar destroços em busca de bombas. Ele mesmo faz isso caminhando nas ruas sujas de Bagdá como se estivesse em Oklahoma. Toma-se de amor por garoto vendedor de cópias piratas em DVD e o menino se chama Beckham, como o jogador, e também deseja ficar muito rico. Uma confusão faz com Owen imagine que ele foi morto por terroristas e aí... Bem, não vou contar o filme. Assistam como quem vai ver o último Batman.

Flávio Braga é escritor

 

 
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