Cem anos de Solano Trindade PDF Imprimir E-mail
Arte e Cultura
Camila Trindade   
Sex, 29 de agosto de 2008 17:58
(...) “Eita negro!
- Quem foi que disse que a gente não é gente?
Quem foi esse demente, se tem olhos não vê.”
“Conversa”, Cantares do Meu Povo, 1961.
Solano Trindade
Solano Trindade

O poeta carregava na pele negra as motivações de sua luta.  Mas a epiderme do artista não era o único motivo. A causa era maior, era da maioria. Era a fome amontoada na maria fumaça da Leopoldina. Estava nas caras tristes e cansadas que lotavam os vagões da locomotiva logo de manhã, os rostos que, no mesmo trem, seguiam tristes e exaustos ao entardecer. Francisco Solano Trindade, que completaria 100 anos em 24 de julho de 2008, cantava em seus versos a realidade dos morros, as mazelas de um país adepto do racismo cordial. As situações acima, presentes no cotidiano de milhares de brasileiros até hoje, tornam os textos do “Poeta do Povo” incontestavelmente atuais e fazem do centenário deste artista mais que uma data comemorativa.

Solano nasceu no bairro de Bom Jesus, em Recife, Pernambuco. Filho da quituteira Emerenciana e do sapateiro Manoel Abílio, viveu em um lar católico, apesar de seu pai incorporar entidades às escondidas. “Meu avô se fazia de católico na frente dos outros, mas eu o via dentro do quarto virar no santo e falar ioruba”, afirma a folclorista, artista plástica e escritora Raquel Trindade, filha de Solano.

O poeta não tinha religião nenhuma até conhecer sua primeira esposa, Margarida, que freqüentava a Igreja Presbiteriana. A paixão pela mulher com nome de flor levou o artista ao caminho religioso. “Uma negra me levou a Deus”, cantou em uma de suas poesias. Solano chegou ao cargo de diácono na Presbiteriana, mas abdicou da vida cristã ao perceber que a instituição religiosa não se preocupava com as dificuldades enfrentadas pelos negros, nem com os problemas sociais. “Baseado em um versículo da bíblia que diz ‘Se tu não amas a seu irmão a quem vês como podes amar a Deus a quem não vês? ’ ele saiu da igreja”, explica a filha do artista.

De cristão presbiteriano o poeta passa a militante comunista assim que chega ao Rio de Janeiro, em meados da década de 40. Após filiar-se ao partido de Luiz Carlos Prestes, Solano Trindade fez em Caxias a célula Tiradentes na qual se reuniam operários e camponeses. “Papai tinha um caixote de cebola que ele fazia de estante. Lá estavam juntos a Bíblia e O Capital, de Karl Marx”, relembra Raquel.

Por sua poesia carregada de significado e em virtude de seu engajamento político, Solano foi preso duas vezes pela ditadura militar do Estado Novo. Na primeira oportunidade, estava em um comício e foi solto logo. Entretanto, na segunda vez, levaram-no à cadeia os versos da poesia Tem Gente Com Fome, publicada no livro Poema de Uma Vida Simples, de 1944. O poeta ficou desaparecido por alguns dias. “Os policiais chegaram revirando tudo, dizendo que ele guardava armas em casa. A polícia o levou e o manteve incomunicável, minha mãe de prisão em prisão procurando por ele, até que o encontramos em um presídio na Rua da Relação (RJ)”.

O Partido Comunista também não supriu as necessidades igualitárias de Solano Trindade. Segundo Raquel, para os correligionários do poeta o problema do negro era só econômico, não racial. Descontente, o artista se desliga das atividades políticas, mas já no fim da vida. “Apesar de tudo, papai morreu socialista.”

O Poeta do Povo

A preocupação de Solano era o povo. Grande parte de suas obras são voltadas à valorização da cultura negra e à luta contra a desigualdade social e racial no Brasil. Mas as mulheres também tiveram espaço entre os versos do poeta, como pode ser observado no texto Linda Negra, do livro Cantares do Meu Povo, de 1961. “Naquela Noite/ ficou o teu olhar branco/ vagando no escuro/ entre ternura e medo/ teus olhos grandes/ dançavam como loucos/ na música do silêncio”. “As grandes musas dele eram o povo e as mulheres”, afirma Raquel. Solano casou-se três vezes e teve seis filhos, todos com sua primeira mulher.

Além de poeta, Solano Trindade era artista plástico, teatrólogo, ator e com a primeira de suas três esposas, Margarida da Trindade, aprendeu o ofício de folclorista. Foi na companhia de Margarida, e do etnólogo Edson Carneiro que, em 1950, ele funda o Teatro Popular Brasileiro – TPB. O casal Trindade ainda ajudou Aroldo Costa a montar o Teatro Folclórico, rebatizado posteriormente como Brasiliana.

Contrariando o que dizem muitos sítios na internet, o poeta não participou da fundação do Teatro Experimental do Negro. Segundo Raquel Trindade, o TEN foi criado por Abdias do Nascimento. “O Abdias tinha os parceiros dele, mas nenhum era papai”, pontua.       

Na mídia pouco se houve falar de Solano Trindade. Não era, e ainda não é, conveniente tocar nas feridas não cicatrizadas da história. “Para a mídia é muito complicado, amedronta falar sobre Solano Trindade”, explica a filha do poeta.

Tem gente que continua com fome. O trem sujo segue carregando as caras tristes sem destino que esperam a próxima parada. E os versos do Poeta do Povo permanecem atuais, fazendo eco nos becos.

Solano das Artes em Embu


Em 1961, recém-chegados da Europa, Solano e um grupo com mais de trinta bailarinos estavam em São Paulo para a apresentação de um espetáculo, quando receberam do escultor Claudionor Assis Dias, o Assis do Embu, um convite para visitar a cidade paulistana. Assis já havia falado sobre Solano Trindade a outro escultor, Tadakio Sakai, ao qual propôs mais contato com o poeta para que Sakai levasse às suas obras a temática negra. A “caravana” na qual também estava a família de Solano, aceitou a proposta de Assis, que fez as vezes de anfitrião hospedando o grupo em sua casa. “Todo mundo dormia amontoado na sala”, conta Raquel.

Além de Sakai e Assis, já estavam em Embu artistas como a pintora Azteca e o também escultor Cássio M’Boy. Com a chegada de Solano, montou-se um movimento artístico coletivo no “Barraco do Assis”. “Eles começaram a fazer festas que duravam três dias, faziam espetáculos na rua, exposições na rua, tudo isso em 1961”, relembra a folclorista. Essas manifestações ajudaram a dar origem ao nome Embu das Artes, que fez do município paulistano um lugar conhecido internacionalmente.

Em Embu, Solano virou nome de uma rua no centro expandido da cidade. Neste mesmo município, sua filha Raquel criou o Teatro Popular Solano Trindade e, juntamente com ela, netos e bisnetos do artista cuidam para que a memória do Poeta do Povo permaneça viva. No Recife, cidade natal do escritor, uma estátua de Solano em tamanho natural, feita pelo escultor Demétrio, encontra-se no Pátio de São Pedro.  No Rio de Janeiro uma biblioteca leva seu nome e no Museu Afro Brasil, dentro do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, uma foto (“feia”, na opinião de Raquel) e um quadro relembram o artista. Seus poemas transpuseram fronteiras, fazendo com que ele conquistasse admiradores em países como Tchecoslováquia e Polônia.

Solano faleceu em 1974, aos 66 anos, no Rio de Janeiro, para onde voltou já doente. Foi sepultado no Cemitério da Pechincha, em Jacarepaguá, ao contrário do que dizem relatos recorrentes de que o poeta teria sido enterrado como indigente. “Minha mãe e minha irmã fizeram para ele um enterro decente”, afirma Raquel Trindade.

Tem Gente com Fome

Solano Trindade

Trem sujo da Leopoldina
Correndo, correndo, parece dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Estação de Caxias
De novo a correr
De novo a dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Tantas caras tristes
Querendo chegar em algum destino
Em algum lugar
Sai das estações
Quando vai parando começa a dizer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Mas o trem irá todo autoritário
Manda o trem parar
- Shhhhiiiii!


Fonte: Círculo Palmarino  (http://www.circulopalmarino.org.br)

 

Solano Trindade nasceu no bairro de São José (Recife-PE), em 24 de julho de 1908. Filho do sapateiro Manuel Abílio e da quituteira Emerenciana, mais conhecida como Merença. Ele foi pintor, teatrólogo, folclorista, ator e, sobretudo, poeta da resistência negra. Em 1936, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro.

 
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18 Comments

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  1. gostei muito de Solano Trindade e gostaria muito dele
  2. Adorei esse cem anos dele, mas quero saber de mais coisa!!! Abraços...
  3. Olá, a todos. Gostaria de pedir encarecidamente a todos aqueles que forem apaixonados por Solano Trindade para me ajudarem na elaboração de um trabalho de pesquisa. Todo material que vocês tiverem, mandem para o meu e-mail ,será de grande valia. Assim como referido no texto acima, não existe interesse por parte da midia em esmiuçar a história desse grande poeta contemporâneo. Grato.
  4. estou na disputa para ganhar o prêmio de melhor redação de Solano Trindade. vale à pena passar por essa experiência... com tudo isso,mesmo não sendo a minha não a escolhida... vou receber o premio de poder participar dessa oportunidade unica... valew!!! camila eduarda antunes escola''eliseo marson''
  5. bem...o premio já foi pra mim.... em são paulo adorei a visita de leo maia vi até leopoldo pacheco....ahhh filho de solano trindade... arte eh tudo mesmo.... bem, a redação.... infelizmente não foi a minha a escolhida.... a da ana paula ...que ganhou em segundo lugar....da minha escola....
  6. Fiquei quase completa quando uma amiga, Taiz, falou que a S.E.de São Paulo abriu um concurso, para as escolas de nível médio, falando sobre Solano Trindade, de quem conheci familia e hoje ainda falo com Raquel, filhos, netos e bisnetos. Parabéns, Nòs merecemos.
  7. Estou muito satisfeita em ver meu texto sobre Solano reproduzido em tantos sites. O "Poeta do Povo" foi um revolucionário que demonstrou por meio de seus versos as mazelas das quais somos, enquanto povo brasileiro, vítimas até hoje. Com certeza, Solano é uma personalidade que merece, sempre, ser lembrada. Abraços, Camila Trindade Jornalista
  8. Eu realmente gostei de ler. Pois, sempre que eu puder, eu entro de novo nesse saite para poder ler de novo várias outras histórias como esta. Eu estou realmente encantada. É muito magnifico. (bjs). É só uma brincadeira. Leia todo ele até o final que você vai entender... *nunca mais quero te ver *nunca mais vou dizer que *te amo *eu realmente *não gosto de você *nunca pense que eu *serei legal com você OBS: OUVE UM GRANDE ERRO. POR FAVOR, LEIA DE BAIXO PARA CIMA.
  9. Também estou fazendo essa redação... E esse conteúdo, é realmente excelente! Mto bom...
  10. Aqui em Salvador existem livrarias com obras do autor. Estou muito interessada em adquirir algumas.
  11. Oi, estou na disputa pra ganhar o prêmio de melhor redação de Solano Trindade. O conteúdo desse site tá ótimo!!! Bjos. Pereira das Neves.
  12. Como posso falar desse homem chamado Solano? Ele foi um poeta que falou muito sobre preconceito racial, foi um grande poeta para mim. vlw
  13. Solano Trindade, um homem com atitude, que incentivou os negros a pensarem no potencial que temos diante da vida.
  14. COR DA PELE NÃO IMPORTA. SOLANO TRINDADE JÁ DIZIA TANTA GENTE COM FOME I ESSA REGALIA.AS COBRAS DE FERRO AS FEIÇÕES CANSADAS A GARGANTA ENGASGADA COM TANTA COISA PRA FALAR. VAMOS MEO POVO SIGA ESSE GRANDE EXEMPLO SOLANO TRINDADE JOGA TUDO PRA FORA COM SEUS POEMAS E SEUS PENSAMENTOS. SE TODOS SE PREOCUPASSEM COM A COR DO CORAÇÃO DA MESMA FORMA QUE SE PREOCUPAM COM A DA PELE O MUNDO NÃO SERIA INJUSTO.
  15. Eu estou fazendo uma redação sobre Solano Trindade e estou achando um máximo.
  16. SOLANO TRINDADE FOI UM POETA QUE CARREGAVA EM SUA PELE NEGRA AS MOTIVAÇÕES DE SUA LUTA. VAI TER UM PROJETO NO GP 175 SOBRE "OS 100 ANOS DE SOLANO TRINDADE" E EU GOSTARIA MUITO DE REPRESENTÁ-LO COMO UM DOS MAIS FAMOSOS POETAS DO MUNDO. E É COM GRANDE SATISFAÇÃO QUE DEIXO ESTE COMENTÁRIO
  17. Nós, negros, precisamos de uma pessoa como esse homem. Já não existem mais pessoas para dizer que cor não tem distinção para DEUS. AS PESSOAS IGNORAM A EXISTÊNCIA DESTE SER SUPREMO.
  18. A obra de Solano Trindade é maravilhosa. Gostaria muito de entrar em contato com a filha dele, Raquel Trindade, pois estou pesquisando sobre dança e poesia afro. Quem puder me ajudar, eu agradeço.

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