TV Digital ainda é só um sonho PDF Imprimir E-mail
Ciência e Tecnologia
Carlos Newton   
Seg, 21 de janeiro de 2008 15:42

Devido a seu alto custo, inacessível à grande massa dos consumidores, a TV Digital ainda não passa de um sonho para os telespectadores brasileiros. Os conversores que permitem a captação das imagens digitalizadas chegaram às lojas tão caros que o próprio ministro das Comunicações, Hélio Costa, teve de vir a público sugerir que os consumidores não comprem esses equipamentos, na tentativa de forçar a redução dos preços.

Sabe-se que no Japão e na China o conversor simples custa o equivalente a apenas R$ 122, e o ministro Hélio Costa anunciou reiteradas vezes que no Brasil o preço do equipamento, conhecido internacionalmente como "set top box", não passaria de R$ 100. Mas não foi isso que aconteceu.

Já foram lançados dois tipos de conversores no Brasil. Os modelos mais baratos, sem saída de alta definição, custam cerca de R$ 500, enquanto os especiais para telas de plasma ou cristal líquido, que têm alta definição, variam entre R$ 699 e R$ 1.100 - ou seja, mais caros do que televisores convencionais de 29 polegadas.

Explicações

Quando os conversores começaram a ser vendidos a preços inacessíveis ao telespectador da classe média, no final do ano passado, os deputados da Comissão de Defesa do Consumidor convocaram Hélio Costa a dar explicações. Mas o ministro não tinha o que dizer. Limitou-se a informar que o governo ainda está discutindo com o Fórum da TV Digital as alternativas para popularizar a nova tecnologia no País.

Costa surpreendeu os parlamentares ao classificar como "um caso de polícia" as notícias veiculadas pela imprensa sobre os conversores de TV Digital, vendidos a R$ 700. Dizendo-se revoltado, o ministro até sugeriu que a Câmara abrisse uma CPI para saber por que alguns empresários querem cobrar tanto pelo equipamento.

Ao comentar que as grandes empresas de eletroeletrônicos não estão interessadas na produção do conversor, uma vez que venderão seus televisores com o equipamento embutido, a preços bem mais altos, ele desafiou: "Onde estão os empresários brasileiros de visão?", acrescentando que a importação dos produtos pelo porto de Manaus poderia diminuir em até 85% o valor do impostos e baratear o custo dos conversores importados.

Responsabilidade

"Até parece que Hélio Costa não tem nada a ver com a questão. Foi como se o problema dos conversores estivesse na alçada de outro ministério", comenta o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), que participou dos debates na Comissão de Defesa do Consumidor e foi responsável pela convocação do ministro.

Valente relata que o ministro das Comunicações, ao se esquivar da responsabilidade, alegou simplesmente ter negociado com bancos estatais a criação de uma linha de crédito para empresas que queiram fabricar os conversores no Brasil, assim como a abertura de financiamento para que os consumidores possam comprar os equipamentos e ter acesso às imagens da TV Digital.

Segundo o parlamentar do PSOL, os deputados revelaram a Hélio Costa o temor de que os conversores comecem a ser pirateados e contrabandeados do Paraguai, caso o preço não seja acessível a todos os consumidores, mas o ministro não quis comentar essa hipótese.

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Finep recusou verba para USP criar conversor

Os conversores para a TV Digital já estão sendo produzidos na Zona Franca de Manaus. O principal fabricante é a Positivo, maior empresa nacional de equipamentos de informática. As indústrias alegam que ainda é muito cedo para saber como estão as vendas desses aparelhos, mas na verdade estão encalhando nas lojas, devido aos altos preços.

O ministro Hélio Costa divulga que os recursos disponíveis para projetos brasileiros destinados à produção industrial dos conversores a preços mais baixos podem ser obtidos por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública ligada ao Ministério da Ciência e da Tecnologia, e recomenda que os departamentos tecnológicos das universidades se habilitem às verbas.

Acontece que as deliberações a respeito desses recursos passaram ao âmbito do chamado Fórum da TV Digital, uma entidade na qual as indústrias e as emissoras de televisão têm maior peso de votos. Por isso, cada universidade tem de agir isoladamente para tentar aprovar projetos na Finep, como fez a Universidade de São Paulo (USP).

O professor Marcelo Zuffo, do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da USP, que havia coordenado o consórcio de debates sobre a questão, apresentou à Finep em janeiro de 2006 um projeto para desenvolvimento do aparelho conversor. A USP esperou uma resposta da Finep até outubro, quando enfim foi comunicada sobre a recusa do pedido.

Fonte: Tribuna da Imprensa, 21/01/2008