Campanha ignóbil PDF Imprimir E-mail
Comunicação Social
Fundação Lauro Campos   
Dom, 13 de abril de 2008 12:23
Pau-de-araraHá muito de podre nessa campanha movida por órgãos da imprensa contra as decisões da Comissão de Anistia, especialmente as referentes aos cartunistas Ziraldo e Jaguar. Transformar justas indenizações por danos morais, materiais e até psicológicos em pejorativa “Bolsa-Ditadura” é algo inaceitável. Principalmente, quando sugerido por jornais e emissoras de televisão que, estes sim, se beneficiaram de imensos privilégios, ganhos pecuniários e lucrativos negócios, durante a vigência do regime autoritário. Que gozaram de imensas vantagens ao tempo em que estes jornalistas, assim como muitos outros democratas e revolucionários, se empenhavam, com riscos sérios para eles e suas famílias, na denúncia das violências e arbitrariedades produzidas sobre os que se opunham ao regime ditatorial. Se houve exagero, ou equívoco, em decisões tomadas pela Comissão de Anistia, isto nem de perto se aplica a estes dois ilustres brasileiros, a quem manifestamos solidariedade. Sobre o tema, leia artigo de Sérgio Granja.

A ética da “bolsa-ditadura”

Sergio Granja

Quando escutamos a palavra ética pensamos imediatamente no conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade. Falamos em ética profissional e a correlacionamos a uma série de princípios que os profissionais daquele ramo de atividade deveriam observar na relação com os seus colegas de trabalho e com a sociedade de um modo geral. A ética médica, por exemplo. Do mesmo modo, falamos em ética empresarial, em ética do mercado, etc. E aí o caráter valorativo do termo já fica muito complicado. Por exemplo: não é ético que as empresas soneguem impostos, burlem a legislação trabalhista e lancem mão de outros artifícios escusos para reduzir custos e aumentar seus lucros. Embora estas sejam práticas usuais no mundo empresarial, dificilmente seriam eticamente defensáveis, até porque constituem atos ilegais. Mas é ético que o empresário através da inovação tecnológica reduza postos de trabalho e leve seus concorrentes à falência, provocando mais desgraças e desemprego? Para uns, essa é a regra e ela tem que ser aceita. Para outros, essa regra do mercado capitalista se baseia em valores prejudiciais ao bem-estar social e deveria ser repudiada. Por razões análogas, pode não ser legal, e constituir afronta ao Poder Judiciário, a ocupação da reitoria da UnB pelos estudantes, mas é inquestionável que se trata de uma luta em defesa da ética universitária.

Faço essas digressões para pensar no quão problemática é a questão da ética. Porque uma coisa é determinar se um ato é legal ou ilegal; outra bem mais subjetiva é dizer que uma coisa, embora legal, não seja ética. Isso, em grande medida, vai depender dos valores de cada um. É claro que os valores são sociais, mas cada um os interpreta à sua maneira, de uma perspectiva própria. Creio, no entanto, que se pode e se deve exigir coerência daqueles que vêm a público proclamar a falta de ética de atos legais, vale dizer, vêm a público denunciar a ruptura de regras de convivência social que, embora não escritas, seriam ou deveriam ser consensuais,

É o caso do que a grande imprensa resolveu chamar de “bolsa-ditadura”. Acho que, nesse ponto, a grande imprensa está cheia de razão e ao mesmo tempo não tem razão nenhuma. Eu me explico. O critério que adoto é o da coerência. A ditadura neste país sempre foi creditada na conta dos militares. E há aí várias injustiças históricas.

A primeira delas é com os próprios militares. Silencia-se que muitos oficiais e suboficiais das nossas Forças Armadas se opuseram ao golpe e pagaram um preço elevado pela fidelidade à legalidade democrática. Alguns deles, como o capitão Lamarca e o sargento Onofre, se incorporaram à resistência armada e morreram na luta: Lamarca, friamente executado; Onofre, torturado até o fim. Houve também militares que, não obstante suas posições políticas conservadores, não compactuaram com a indignidade da tortura. Nesse sentido, é edificante o testemunho do jornalista Flavio Tavares que, depois de barbaramente torturado nas dependências da Polícia do Exército, passou a receber um tratamento digno quando o coronel que assumiu o comando da unidade militar acabou com a tortura e com as condições aviltantes do cárcere. Aliás, por causa disso, esse coronel teve preterida a sua promoção ao generalato.

A segunda injustiça histórica é com o empresariado brasileiro. Quem se lembra do Ibade, instituição financiada pelo grande empresariado com vistas a preparar o golpe de Estado? O fato é que os empresários participaram ativamente da deposição do presidente constitucional e, posteriormente, do financiamento dos aparelhos repressivos e da tortura. De modo que o golpe e a instauração da ditadura se deve também e principalmente às intenções antidemocráticas e às ações subversivas do empresariado.

A terceira injustiça é com o Departamento de Estado norte-americano. Este não só apoiou o regime militar como ajudou a preparar o golpe, inclusive dispondo-se a intervir militarmente para sufocar qualquer resistência constitucionalista, fato amplamente documentado.

Mas a maior injustiça que se faz é com a grande imprensa brasileira, a qual teve um papel de destaque na criação do clima de histeria golpista, na preparação da opinião pública para a quebra da legalidade democrática. Não vou me estender em citações. Para ilustrar o que digo, basta reproduzir os editoriais do JB e de O Globo, repercutindo o golpe militar. No caso, os textos falam pelo contexto.

O editorial do JB, que rigorosamente não diz nada além de baboseiras, deixa tudo bem claro:

“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade ... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem. (...) A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas.(...)“Golpe? ─ crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada.” [JB, 01/04/1964]

O editorial de O Globo não fica para trás em seu empenho na derrocada da ordem democrática:

“Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas (...) para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas (...) o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. (...) Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente (...) Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. (...) Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.(...) A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo.(...) Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos(...).” [O Globo, 02/04/1964]

Textos golpistas, que proclamam em alto e bom som o compromisso antidemocrática da grande imprensa brasileira. Pois é essa mesma imprensa que não soube respeitar a legalidade democrática e a liberdade dos brasileiros que hoje se arvora em defensora da liberdade de imprensa. É de se perguntar: afinal, que liberdade é essa? A liberdade de fazer uso do monopólio da informação com o objetivo de manipular a opinião pública para promover golpes de Estado?

É por isso que reconheço a coerência dessa grande imprensa para envenenar a opinião pública contra as indenizações reparatórias que o Estado brasileiro deve às vítimas da ditadura militar. E pergunto: por acaso são ilegítimas as indenizações pagas pelo Estado alemão às vítimas do nazismo? Por que motivo aqueles que foram esbulhados pelo fascismo-militar brasileiro não deveriam ser indenizados por aquilo a que faziam juz e do qual foram privados irregularmente?.

Reconheço, sim, a coerência da grande imprensa no espírito do golpismo que sempre foi a seiva da qual se nutriu o jornalismo empresarial neste país. Fica, no entanto, uma perplexidade: mas, então, não havia censura à imprensa durante a ditadura militar? Quem responde é o jornalista Mino Carta: “Em cima da destruição da memória, alguns jornais inventam que sofreram censura. O Jornal do Brasil nunca foi censurado. A Folha de São Paulo nunca foi censurada“.

E Mino Carta diz mais: “A Folha de São Paulo não só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]. Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era sócio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha relações muito íntimas com os militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha - o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] - esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal. Digo que foi a "mínima pressão" porque o sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas possíveis, na sucessão do general Geisel. A Folha estava envolvida com o pior, apoiava o Frota [general Sílvio Frota, ministro do Exército no governo Geisel]. O Claudio Abramo foi afastado por isso . O jornal O Globo também não foi censurado. Isso é uma piada”. [Entrevista com Mino Carta. por Adriana Souza Silva, da Redação AOL, abril de 2004]

Está aí a razão pela qual a grande imprensa, apesar de coerente, não tem autoridade moral para criticar o que ela chama de “bolsa-ditadura”. A razão é óbvia: ela fazia parte do sistema ditatorial, era porta-voz do regime militar, era o seu aparelho ideológico de manipulação da opinião pública, estava empenhada nas operações de guerra psicológica adversa que tinham por alvo a desestruturação da resistência democrática. Então, ela é coerente com a sua história quando se opõe às indenizações às vítimas do regime que era o dela. Mas, no caso, ela está advogando em causa própria, porque cada vez que a ditadura é enxovalhada, cada vez que a barbárie fascista sofre um revés jurídico, a grande imprensa está sendo condenada também. Por isso, ela não tem isenção para julgar eticamente quem a ela se opôs. A menos que só reconheçamos a ética do mais forte, do mais rico, do mais poderoso.. Desde o golpe de 64, está claro que essa é a ética da grande imprensa.