A batalha da mídia, de Dênis de Moraes PDF Imprimir E-mail
Comunicação Social
Fundação Lauro Campos   
Qua, 10 de Junho de 2009 11:31

A Batalha da MídiaA BATALHA DA MÍDIA reúne ensaios que discutem o papel da comunicação na luta pela hegemonia política e cultural na sociedade contemporânea. Além de analisar a influência da mídia na propagação dos valores do mercado e o consumismo, Dênis de Moraes analisa experiências que se propõem a democratizar os processos comunicacionais, seja através de políticas públicas inovadoras ou de formas colaborativas e participativas de difusão na Internet.

 

O livro é composto por quatro ensaios: "Imaginário social, hegemonia cultural e comunicação"; "Cultura tecnológica, inovação e mercantilização"; "Governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina"; "Ativismo em rede: comunicação virtual e contra-hegemonia".

 

No principal ensaio, Dênis de Moraes revela como a ação do Estado, em vários países da América Latina, tem sido reorientada para tentar reverter uma das piores heranças do neoliberalismo: a concentração dos setores de informação e entretenimento nas mãos de um reduzido número de corporações nacionais e transnacionais. Conforme aponta o autor, as novas políticas de comunicação de governos progressistas da região buscam viabilizar legislações antimonopólicas, apoiar meios alternativos e comunitários e estimular a produção audiovisual independente. Este amplo painel também avalia resistências e desafios postos aos governos que se dispõem a promover a diversidade e o pluralismo. Entre os países analisados estão Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Paraguai, Uruguai, Argentina e Chile.

 

Como ressalta Virginia Fontes no prefácio, A batalha da mídia tem uma importância singular nestes tempos de crise global, na medida em que aponta o quanto ainda precisamos avançar, em termos de alternativas contra-hegemônicas, "para um mundo no qual a informação, a comunicação e a cultura estejam plenamente socializados", ao mesmo tempo em que evidencia conquistas acumuladas nos últimos anos pelos setores populares no campo da comunicação, sobretudo na América Latina.

 

Dênis de Moraes
Dênis de Moraes
DÊNIS DE MORAES nasceu no Rio de Janeiro em 1954. É doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO), sediado em Buenos Aires, Argentina. É professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Autor e organizador de diversos livros, entre os quais Cultura mediática y poder mundial (Norma, 2006), Sociedade midiatizada (Mauad, 2006), Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise (Record, 2004), Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder (Record, 2003), O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia (DP&A, 2001), O planeta mídia: tendências da comunicação na era global (Letra Livre, 1998), Vianinha, cúmplice da paixão (Record, 2000), O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (José Olympio, 1992) e O rebelde do traço: a vida de Henfil (José Olympio, 1996).

 


Carlos Nelson Coutinho
Carlos
Nelson
Coutinho
Quarta capa do livro

Carlos Nelson Coutinho

 

Além de excelente biógrafo (O velho Graça, Vianinha, cúmplice da paixão e O rebelde do traço: a vida de Henfil), Dênis de Moraes é um  dos mais lúcidos analistas brasileiros dos fenômenos da comunicação de massa. Com base nos conceitos de Antonio Gramsci, o brilhante pensador marxista italiano, Dênis nos mostra que devemos analisar a comunicação como um campo de luta entre diferentes propostas hegemônicas, relacionando-as com os combates que têm origem na totalidade social. Neste seu novo livro, além de instigantes reflexões sobre os problemas da mídia no mundo contemporâneo, Dênis nos fala sobre as batalhas hegemônicas que, na arena da comunicação, têm tido lugar em nossa América Latina. Um tema que diz respeito a todos os que se interessam não só pelos problemas da mídia, mas pelas questões centrais de nosso tempo.

 


Vorgínia Fontes
Vorgínia Fontes
Prefácio:

Da importância das lutas e batalhas

Virginia Fontes

 

Em primeiro lugar, quero dizer da minha enorme satisfação por estar com o grande amigo Dênis de Moraes em mais uma de suas publicações. Uma profunda convicção democrática transparece em cada frase de seu livro, e demonstra como somente uma reflexão crítica permite pensar a participação política como luta de classes, exigindo avanços plenos para a grande massa de trabalhadores num mundo crescentemente dominado por grandes conglomerados.

 

Escrevo este prefácio em janeiro de 2009, quando estamos mundialmente imersos em enorme crise econômica e social iniciada nos Estados Unidos e imediatamente generalizada. Crise econômica que revolve as entranhas da lógica predominante em praticamente todo o planeta, promovendo um movimento paradoxal apenas na aparência: brutais desvalorizações de capital e destruição de empresas ocorrem ao lado de novas concentrações monopólicas - pois os mais fortes se aproveitam da situação dos mais frágeis para devorá-los; uma inusitada e gigantesca intervenção dos Estados nos países centrais e periféricos doa generosos recursos para imensos monopólios, e justifica tais doações como tentativas para reduzir ou frear a velocidade da crise.

 

Não se trata apenas de uma crise econômica, da queima de recursos monetários ou financeiros por empresas ou governos, mas de enorme crise social que se abre, impondo profundos sofrimentos. Expande-se o desemprego no plano mundial, ao lado de novas pressões para rebaixar ainda mais as garantias ligadas aos contratos de trabalho, reduzir salários e desregulamentar as jornadas e os direitos, desqualificando a vida dos trabalhadores. A imensidão de recursos públicos injetados em bancos e empresas - recursos totalmente sonegados à extensão de direitos universais nas últimas décadas - é atordoante, e leva a temer que se trate de uma tentativa desesperada de garantir que a mesma lógica continue a predominar. Tais somas, expressas em trilhões de dólares, tornam difícil até mesmo imaginar o que essa tentativa pode vir a significar.

 

Todo esse processo demonstra que os Estados estão comprometendo recursos públicos futuros com a manutenção da lógica capitalista atualmente dominante. Crise econômica e social, mas também cultural, pois nos defrontamos com situações dramáticas, como se estivesse totalmente fora do alcance da humanidade reverter as condições que produzem tais crises.

 

Comunicações, informações e produção de sensibilidades sociais seguem açambarcadas por enormes concentrações monopólicas, enredando oligarquias e grandes burguesias locais em diferentes países às pontas empresariais multinacionalizadas mais concentradas.

 

A grande mídia usa a crise para, ao mesmo tempo, atemorizar e apassivar a população. Assusta-nos, convertendo em tema para peritos uma crise da qual pouco se entende, apresentada na maioria das vezes de forma descontextualizada, desligada de suas determinações mais profundas. Apassiva ao diluir a crise em milhares de horas de programações destinadas a entreter, a distrair, apresentando o mesmo mundo como se nada estivesse ocorrendo ou, pior ainda, como se, impotentes frente à crise, assim como os passageiros do Titanic às vésperas do naufrágio, devêssemos bailar ainda mais aceleradamente. De um lado da moeda, a crise amedrontadora emerge nos noticiários, diante dos quais todos parecem incapazes, como se estivéssemos diante de uma hecatombe natural imprevisível. Do outro, a vida cotidiana, também mercantilizada e naturalizada, é apresentada de maneira descolada das enormes contradições econômicas, sociais e culturais, apartada de toda efetividade e de toda capacidade - velando até mesmo a necessidade - de intervenção na crise que, entretanto, a devora.

 

Num mundo onde predominam grandes monopólios, onde pensamentos únicos se tornam corriqueiros - ainda que saltem de um extremo a outro, travestindo-se neoliberalismo de intervencionismo estatal -, também as contradições tendem a se expandir, a se tornar mais evidentes, apesar de todos os floreios da mídia proprietária e concentrada. As lutas sociais, as reivindicações populares, convertem-se em luta de classes e passam, na atualidade, a atravessar todas as formas de atuação humana, desde os locais de trabalho, passando por moradia, saúde, transporte, cultura, arte, alimentação etc. Proteger a vida humana, assegurar uma existência social emancipada da imposição de uma mercantilização voraz que a tudo abate sob o peso do lucro, tende a se tornar uma necessidade permanente, em todas as áreas de atividade humana e social.

 

A mídia é um desses espaços - espaço crucial, pois a (in)comunicação e a (des)informação têm papel central nesse processo - de luta social, e é exatamente o fulcro no qual se situa a obra que tenho a satisfação de prefaciar. Compreende-se a importância deste livro de Dênis de Moraes, pois, nele, a ênfase é sobre a luta que é preciso - e possível - travar nesse terreno. Lutas no interior do que a grande mídia divulga como o que deveria ser o "senso comum" (ou imaginário), lutas populares nos diversos países da América Latina, com resultados mais ou menos progressistas, e lutas através de um dos mais poderosos meios de difusão na atualidade, que é a Internet.

 

A hegemonia e as formas de dominação do capital não começam e não se esgotam na mídia. Atravessam o conjunto das relações sociais, com expropriações primárias (a da terra) e secundárias (de direitos, de bens sociais, como das águas, do conhecimento, das sementes e da própria vida, atualmente objeto de patentes proprietárias) e formas de exploração do processo de trabalho e do mais-valor intensificadas e diversificadas, ao mesmo tempo pulverizadas pelo planeta e centralizadas nas mãos de poucos proprietários.

 

É fundamental, pois, sermos capazes de articular - e de compreender - as profundas conexões entre a imensa variedade de meios para a produção, difusão e circulação de informação e de cultura e o predomínio unilateral de formas econômicas e sociais impostas pelo grande capital - em dimensão sempre mundial e imperialista. É nesse âmbito de uma totalidade social cada dia mais intrincada que as formas de luta política precisam ser cotidianamente reinventadas.

 

Esse é o objetivo do livro que o leitor tem nas mãos. Ele não se limita a denunciar as condições da concentração midiática ou as formas associativas internacionais que reafirmam o controle empresarial ao coligar diferentes burguesias em torno do mundo - como a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), enorme e tentacular aparelho privado de hegemonia sustentado pelas grandes empresas, ou como a entidade Repórteres Sem Fronteiras, cujo papel principal é a defesa da grande propriedade e da concentração do capital em todo o mundo. Também não se resume a reiterar as variadas modalidades de manipulação que uma tal concentração de propriedade, de capitais e de meios tecnológicos favorece, através de verdadeiros latifúndios midiáticos e infoeletrônicos.

 

Este livro expõe formas de luta que vêm se delineando, sobretudo na América Latina, e que demonstram possibilidades efetivas - mesmo se limitadas e, talvez, ainda mais estreitas do que precisaríamos - de avançar, infletindo os espaços públicos para, também a partir deles, contrapor uma outra forma de produzir e de difundir conhecimento, informação e cultura.

 

Sabemos que a sociedade civil, como forma organizativa da vida sob os marcos do capitalismo, é um espaço de lutas sociais e de lutas de classes. Na sociedade civil se organizam vontades e consciências e se travam embates entre frações diversas do capital (intraclasses), nas quais um grupo procura convencer e capturar a sensibilidade das maiorias para formas específicas de direção e domínio capitalista. Mas também se travam batalhas cotidianas entre as classes sociais, através de organizações contra-hegemônicas. De um lado, grandes empresas apoiam e financiam organizações diversas (voltadas para temas os mais variados, dentre eles a "responsabilidade social" e o agenciamento empresarial de  "voluntariados", através de fundações e associações aparentemente voltadas para "auxiliar" a população); de outro, movimentos sociais, sindicatos e entidades populares se organizam - com escassos recursos - para frear a cupidez do grande capital, resistindo a seu avanço e procurando seguir em direção a uma vida humana emancipada.

 

Gramsci compreendeu com clareza que a sociedade civil faz parte do Estado, o qual se amplia e se expande exatamente através dessa crescente malha associativa, tanto de cunho empresarial (que procura apassivar a população) quanto de cunho rebelde e resistente, que se organiza para transformar as condições econômicas, políticas, sociais e culturais dadas. Daí a importância não apenas de prosseguir a luta no âmbito da sociedade civil - nas entidades associativas contra-hegemônicas - mas de impor limites, no seio da sociedade política (ou do Estado em sentido restrito), à verdadeira devastação permanentemente recolocada pelo grande capital.

 

O leitor não encontrará aqui uma visão simplista, seja a de que o acesso ao governo resolva o problema social ou, ao contrário, de que apenas o convencimento na sociedade civil permitiria superar as mazelas do capitalismo. Tal simplismo, em sua primeira versão, oculta governismos tendencialmente desmobilizadores da organização popular; na segunda versão, esquece - em alguns casos, convenientemente - que o poder de classe se estriba tanto no convencimento quanto na coerção. Dênis de Moraes fala da luta política que atravessa ao mesmo tempo a sociedade civil e o Estado, posto não serem separáveis.

 

Este livro permite ainda conhecer avanços e conquistas das lutas populares na América Latina, o que nos ajuda a ter maior clareza quanto à diversidade e variedade de desafios com os quais estamos confrontados. A cuidadosa comparação entre as legislações de diversos países da América Latina, com avanços, recuos e hesitações, permite desmontar falácias fartamente divulgadas pela grande imprensa - como, por exemplo, a da estatização da mídia na Venezuela, que jamais ocorreu - e identificar o quanto ainda precisamos avançar para um mundo no qual a informação, a comunicação e a cultura estejam plenamente socializados.

 


A BATALHA DA MÍDIA: GOVERNOS PROGRESSISTAS E POLÍTICAS DE COMUNICAÇÃO NA AMÉRICA LATINA E OUTROS ENSAIOS

DÊNIS DE MORAES

Formato: 14 x 21cm

272 páginas

Preço: R$ 42,00

ISBN: 978-85-62501-00-5

Contato:

Tel.: (21) 3717-2127

Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Lançamento:

18 de junho, quinta-feira,

a partir das 19h,

na Blooks Livraria

(Unibanco Arteplex)

Praia de Botafogo, 316 - Botafogo

Tel.: (21) 2559-8776

www.paoerosas.com.br

 

 
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  1. Que bom de termos trabalhos como esse que falam como a mídia atual, privada e empresarial, influencia a sociedade e os comportamentos humanos, ajuda na alimentação do sistema e manipula milhôes de pessoas no Brasil e em grande parte do mundo. Infelizmente!!! em prol do império americano. No Brasil, temos cinco canais importantes desse tipo.
  2. Parabéns a Virgínia Fontes: seu prefácio muito me instigou a ler o livro do Dênis de Moraes. Os limites e potencialidades da disputa da mídia me parece um tema importante no estímulo à consciência transformadora nos dias de hoje.

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