| Elida Escaciota: mãos de anjo em tempo de temporal |
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| Gustavo Dumas |
| Qua, 27 de fevereiro de 2008 16:54 |
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“Fora da Moldura” (Editora da Palavra, 2007), que marca a estréia poética de Elida Escaciota, trata-se de um raro episódio de escrita com projeto e voz autoral, consistência de propósitos estéticos e consciência de geração de uma obra que apenas começa e não se esgota nas 62 páginas que compõem o livro. É, enfim, uma matéria sólida, que flui entre as “tempestades” e “ondas” da cena literária contemporânea, afirmando uma sujeita lírica inscrita porém inconforme à tela que a quer aprisionar, numa fruição com o simples que se mantém protegida dos apelos do arrebatamento. O livro se divide em quatro partes cujas divisórias se estabelecem por epígrafes, pelas quais são dados os recados mais diretos sobre a obra (“Mutilo as palavras/com a lâmina/do meu verso”). A fórmula que conduzirá a poesia de Elida Escaciota para fora do molde político-estético de sua época se explicita já no primeiro poema (pós-primeira epígrafe), de nome “A casa dos meus oito anos”: “tinha mais cá fora/que lá dentro”. O trajeto fundado logo vai expandindo território pela mata inóspita dos dias, com graça:
MEIOS
Tem um caminho no meio da pedra
Quando passo pela pedra atravesso o caminho do tem um meio
Neste trânsito, cuida a poeta-autora de reconstituir os vínculos afetivos, a memória das relações, o tempo perdido para a produtividade.
JÓIAS DE ALGIBEIRA
Quantas horas no seu bolso? brincava eu com meu pai e o tiquetaque vaidoso do bolso da calça pulava.
Era seu único bem, além de mim, sua jóia mais cara.
Mas o relógio cansou. Parou sem dizer adeus e o tempo de ter meu pai nunca mais amanheceu.
Assumida assim como as demais dores que o percurso poético não foge de encarar, a morte não se esconde, porém dela se faz gracejo: “A primeira vez que morri/pensei que fosse/para o resto da vida”. Um movimento lúdico vai ganhando corpo, quer sob a forma de visitas de anjo quer sob o aspecto de árvores que gemem ao som-referência de Piazzolla. Os sonhos acham-se, no entanto sob advertência de só alçarem vôos com asas quebradiças, em céu baixo, sabido está que adiante existe um horizonte em desordem que transforma as cores em farelos. Poemas sobre a cidade e sua massa de gente surrada (“A cidade descalça submerge em dormitórios/mais fundos que a noite”) revelam um senso de pertencimento não conformado, suficiente para basilar a posição crítica de Elida Escaciota por sobre o “frágil fio de humanidade” com que tece o seu caminho. Flanando livre, com formas suas mesmas, ainda quando apropriadas, de compor e dizer, a poesia de Elida Escaciota sustém-se em permanente estado de busca, ou de “onda” ou de “sonho”, como elucida sua própria voz. E é este eu autêntico quem anuncia: “Meu destino largou-se de mim/sem pára-quedas (...)/Mais vale um passo na mão/e duas pernas no ar”. Cabe menção, ainda, o modo peculiar como “Fora de Moldura” encampa tema tão vilipendiado ou subestimado pela poesia contemporânea: o amor recebe de Elida Escaciota um tratamento sutil, terno e próximo, como atestam poemas de encontro como “Lesbos, 2004” (“Teu olhar de lua inteira/espuma a última onda/aonde me atiro nua”) ou de desencontro como “Oito e meio” (“o silêncio atravessa as paredes/sem nenhuma ficção”). Transferido à língua e ao fazer literário, o amor também se demonstra: sem arroubos ou apegos demasiados e portador de um humor fino, estratégico para a transmissão da mensagem (“Não quero loas/Quero poucas/e broas”). Nem Deus escapa de um brincar bonito: “O melhor poema de Deus/nasceu menino”. Há sempre um algo de outras vozes e visões estéticas, num jorro contido, espécie de “vagarosa romaria sob sapatos alheios”, agora tomados para si, porque o percurso desenhou-se próprio. Em uma edição bem cuidada, com um capricho nem sempre observado em editoras maiores, que publicam em massa, “Fora da Moldura” vem nos apresentar uma poeta pronta, no alvorecer de sua trajetória literária, a desfilar sem falsas auras pelas ruas que tem seu texto, por fora e de dentro. Trata-se, pois, de um pacto pelo qual o tempo é seduzido e reconquistado, com seus sentidos vários em algum momento abandonados.
Gustavo Dumas é escritor e revisor de texto; em 2005 publicou, com o heterônimo de Zeh Gustavo, o livro de poemas Idade do Zero , pela Escrituras Editora. |


Boa parte da literatura e mesmo da produção intelectual dos dias atuais constitui-se de trabalho alienado. A ânsia de criação, fornecimento e decodificação de informações implicou a emergência de um sistema complexo em que os fatos viraram dados, os seres viraram números e os atos, personagens de um mundo de relações líquidas, estéreis e objetivadas ao extremo. Com isso, preenche-se a literatura por visões em geral estreitas acerca da realidade-objeto, o que vai dar num sedimento frágil para a construção de um universo-texto empobrecido por vozes cujas emissões, no fim, vão se manifestar em unissonância com as vozes do sistema, por vezes até negado na superfície-aparência de uma obra.