Poética e identidade em Augusto Matraga Imprimir E-mail
Sergio Granja   
Qui, 05 de junho de 2008 14:48

Guimarães Rosa"tudo é mistério"

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA é a última novela de SAGARANA (1946), livro de estréia de João Guimarães Rosa (1908─1967). (ROSA, s/d, 339-386) Interpelado sobre o livro, o autor redargüiu: "Graças a Deus, tudo é mistério".(ROSA, s/d, 7) Não obstante, algo de sua poética pôde esclarecer.

Guimarães Rosa avisa, em carta a João Condé, que procurou embarcar a sua "concepção-do-mundo" no livro. (ROSA, s/d, 7) Temos aí uma primeira pista para compreender a linguagem (ideologia prática) e o mimena rosianos; principalmente, a razão pela qual a literatura rosiana é regional sem ser regionalista. Com efeito, ela é universal. E seus traços universalizantes são tanto estéticos quanto temáticos. (OLIVEIRA, 1999, 475-526)

Do ponto de vista estético, a prosa rosiana contesta o tempo, combinando arcaísmos e neologismos; e contesta o espaço, misturando regionalismos com estrangeirismos; mas também contesta a linguagem, inventando uma sintaxe que se afasta da gramática normativa, atraída pelo registro oral e pela sonoridade, em busca de uma expressividade que transcende o socioleto dos sertões mineiros. A linguagem do sertão rosiano é rebelde e propõe o resgate da intimidade do homem. Quer dizer, Guimarães Rosa encena a linguagem no lugar de simplesmente reproduzi-la.

Do ponto de vista temático, a prosa rosiana repropõe temas universais: a transcendência, num espírito de religiosidade sem religião; a morte, como apartação e sofrimento dos que ficam; o mito do Fausto, como tentação de pactuar com o Diabo; a questão da identidade, como interpelação do indivíduo em sujeito pela ideologia. Desse modo, Guimarães Rosa encena o sertão e o sertanejo, em vez de retratá-los. O sertão rosiano é o palco e o cenário onde os personagens, na pele de sertanejos, encenam as grandes questões humanas, as quais cabem em qualquer dimensão espaciotemporal, inclusive parafraseando clássicos da literatura ocidental.

A universalidade rosiana advém do fato de o escritor haver tratado de fazer o mundo caber no sertão mineiro. E que mundo era esse? Ora, era o mundo de um poliglota, de um autor que dominava 18 idiomas.

“Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá.” (ROSA, s/d, 8)

O sertanejo de Guimarães Rosa é o homem confrontado com suas criações simbólicas (Deus e o Diabo), com a consciência de sua finitude (a morte), com seu processo de socialização (a construção de sua identidade) – questões universais.

Uma segunda pista está na revelação de que ele escreveu consciente de que fazia arte "como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno".(ROSA, s/d, 7) Por conseguinte, não como um produtor de literatura fácil, de consumo imediato, descartável, mas como um artesão da palavra, o qual compõe a tessitura do texto com vistas a uma escritura que aspira à permanência.

A terceira pista é a que faz tábula rasa da tradição.

“Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições – no tempo e no espaço.”

Pois, diz ele, "na panela do pobre, tudo é tempero". Parafraseando André Maurois, proclama que "um rio sem margens é o ideal do peixe".(ROSA, s/d, 8) Está aí o ensaio de uma atitude de ruptura de todas as amarras, de quem arrisca um salto no abismo da criatividade.

A quarta pista é a vontade de transgredir. "De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira." (ROSA, s/d, 8) O que equivale ao desejo pela aventura da experimentação formal.

A quinta pista é o ideal de precisão "micromilimétrica", que ele interpreta na citação de Paul Eluard: "o peixe avança nágua, como um dedo numa luva". (ROSA, s/d, 8) Exigência de acabamento caprichado do artesão minucioso.

A sexta pista é "o horror ao lugar-comum". "As chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma." (ROSA, s/d, 8) É o compromisso com a originalidade.

Há ainda uma última pista, que resume e é corolário das anteriores: "além dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!" (ROSA, s/d, 8)

O trabalho de linguagem de Guimarães Rosa autoriza falar dele como artista-demiurgo: aquele que reorganiza a matéria caótica pré-existente, no caso, a fabulação oral dos sertões mineiros. Mas também como alquimista (BOSI, 2003, 429): aquele que funde o popular com o erudito, inventa neologismos, reaviva arcaísmos, mistura regionalismos com estrangeirismos, recria a sintaxe, pontua de ouvido, funda uma gramática que é só sua; em síntese, como diria Barthes, imagina e busca "elaborar uma linguagem limite, que seria o seu grau zero", porque "encena a linguagem, em vez de, simplesmente, utilizá-la". (BARTHES, 2002, 21) E é assim que "a escritura faz do saber uma festa" que está "em toda parte onde as palavras têm sabor". (BARTHES, 2002, 22)

Como se pode aferir, não faltavam motivos para Nelson Rodrigues ver em Guimarães Rosa “o sujeito que funda uma língua, inventa um Brasil e tira um sertão inédito da própria cabeça como de uma cartola”. (RODRIGUES, 2007, 39)

A primeira versão de SAGARANA foi escrita em 1937, no decurso de sete meses "de exaltação, de deslumbramento", resultando em doze novelas. A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA era a décima-segunda. Sete anos depois, em 1945, o livro foi reescrito ao longo de cinco meses "de reflexão e de lucidez", sendo expurgadas três das novelas iniciais. A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA tornou-se a nona. Esta foi a versão entregue à Livraria José Olympio, que seria publicada em 1946.

O título original era SEZÃO (ROSA, s/d, 9), o que significa "febre intermitente", "malária"; mas também pode querer dizer "momento oportuno"; ou, ainda, "vitalidade". O definitivo ficou sendo SAGARANA, neologismo provavelmente derivado de "saga" mais “rana”. Em "saga" há duas palavras homógrafas: numa temos um galicismo com o sentido de "narrativa recheada de incidentes"; noutra, derivada do latim, temos a idéia de "bruxa" ou "feiticeira". Em complemento temos o pospositivo do tupi “rana” com o sentido de “semelhante, parecido a, da feição de”, usado também como adjetivo; de início, seu emprego se fez agregado a palavras tupis, documentadas desde o século XVI, alargando-se para palavras de quaisquer origens.

E, assim, pelos títulos sugestivos que ia escolhendo para batizar seu primeiro livro, Guimarães Rosa já explorava a polissemia em sua escritura.

Sobre A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA, o autor se explicou nestes termos: “História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, não falarei sobre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir”.

Vejamos, então, A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA, síntese e chave na qual Guimarães Rosa se descobre estilisticamente.

"Matraga não é Matraga, não é nada"

O autor abre a novela fornecendo a chave para a sua leitura: "Matraga não é Matraga, não é nada". E este é o cerne do enredo: a questão da identidade. Nisso reside a sua universalidade. Mas a personagem é concreta, histórica e socialmente marcada. Porque a sua verossimilhança está enraizada no coronelismo do sertão mineiro. Não se trata, entretanto, de um "tipo social". Augusto Matraga é de carne e osso, psicologicamente complexo, existencialmente dilacerado: um indivíduo confrontado com as vicissitudes da sua socialização.

"Matraga não é Matraga, não é nada"; porque, filho do Coronel Afonso Esteves, fora Augusto Esteves, o Nhô Augusto que era tudo.

Esse jogo de identidades remete ao que Althusser conceitua como sendo o ato originário da ideologia: "a interpelação do indivíduo em sujeito” (ALTHUSSER, 1976, p. 115)1.

O batismo, ato fundador da identidade, é um rito de passagem que começa antes do nascimento da criança (o sujeito precede ao indivíduo) e se formaliza com a atribuição social do nome. Assim, o menino Augusto Esteves se tornou o arbitrário e atrabiliário Nhô Augusto, marcado pelo peculiar processo de sua socialização: "fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio". (ROSA, s/d, 346)

É o que se infere do diálogo de Dona Dionóra com seu tio:

“– Fosse eu, fosse eu... Uma filha custa sangue, filha é o que tem de mais valia...

“– Sorte minha, meu tio...

“– Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos... Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia...

“– Culpa eu tive, meu tio...

“– Quem não tem, quem não teve? Culpa muita, minha filha... Mãe do Nhô Augusto morreu, com ele ainda pequeno... Teu sogro era um leso, não era pra chefe de família... Pai era como se Nhô Augusto não tivesse... Um tio era criminoso, de mais de uma morte, que vivia escondido, lá no Saco-da-Embira... Quem criou Nhô Augusto foi a avó... Queria o menino pr'a padre... Rezar, rezar, o tempo todo, santimônia e ladainha..." (ROSA, s/d, 347)

Mas esse poderoso Nhô Augusto, dissipador de bens materiais e afetivos, perde as propriedades, a mulher, a filha, os jagunços e a própria identidade. Consuma-se a tragédia: o seu mundo desaba. Como observa Staiger, “há no trágico a explosão do mundo de um homem, de um povo, ou de uma classe.” (STAIGER, 1975, 147) E aqui há a morte do sujeito Nhô Augusto. Só resta o indivíduo sem nome, machucado, fraco, desapossado, miserável, abandonado, desprezado, ignorado.

Agora, o rito de passagem é o da apartação social. O Major Consilva puxa a ladainha:

“– Não tem mais nenhum Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas, minha gente?!...

“E os cacundeiros, em coro:

“– Não tem não! Tem mais não!...” (ROSA, s/d, 352)
Primeiro, período de luto pela morte do próprio "eu".
"Esfriou o tempo, antes de anoitecer. As dores melhoraram. E, aí, Nhô Augusto se lembrou da mulher e da filha. Sem raiva, sem sofrimento, mesmo, só com uma falta de ar enorme, sufocando. Respirava aos arrancos, e teve até medo, porque não podia ter tento nessa desordem toda, e era como se o corpo não fosse mais seu. Até que pôde chorar, e chorou muito, um choro solto, sem vergonha nenhuma, de menino ao abandono. E, sem saber e sem poder, chamou alto, soluçando:

“– Mãe... Mãe...” (ROSA, s/d, 354-355)

Depois, elaboração de um outro "eu". Novo rito de passagem: o da reintegração social. Renascido das cinzas, o penitente Augusto Matraga. Não mais o filho do Coronel Afonso Esteves, mas agora o filho de um casal de negros. Não mais o órfão, mas Matraga, o filho de mãe Quitéria. Há uma nova identidade: um indivíduo interpelado pelas culpas, um "eu" que expia os seus pecados, à espera de sua hora e sua vez: "– Pra o céu eu vou, nem que seja a porrete!..." (ROSA, s/d, 361)

Nessa espera, foi se consumindo o tempo do sofrimento e o homem foi se recuperando física e psicologicamente.

“Até que, pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela: com o calor dos dias aumentando, e os dias cada vez maiores, e o joão-de-barro construindo casa nova, e as sementinhas, que hibernavam na poeira, esperando na poeira, em misteriosas incubações.” (ROSA, s/d, 363)

"Tudo é mistério". O que se passa no íntimo de um homem é mistério. Nenhuma identidade é tão bem constituída que não vacile e não se vergue às tentações de outras possibilidades existenciais. Uma nova transição está em curso na identidade desse homem de dupla personalidade: uma identidade de penitente em luta contra uma vocação de cangaceiro. O encontro com o bando de seu Joãozinho Bem-Bem tensiona o dilaceramento interior deste Augusto Matraga que já começa a ser também Nhô Augusto de novo.

“E, à noite, tomou um trago sem ser por regra, o que foi bem bom, porque ele já viajou, do acordado para o sono, montado num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões, assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá em-cima, sem descuido, garantindo tudo.” (ROSA, s/d, 372)

É então que esse novo Nhô Augusto se despede de seus pais negros e, montado num jegue, ruma ao acaso, ao encontro de sua vez e sua hora.

O reencontro com seu Joãozinho Bem-Bem lhe propiciará o último rito de passagem. É na morte à bala e à ponta de punhal, em nome de Deus e em defesa da família de seu aparentado João Lomba, que Nhô Augusto se redime dos seus pecados e reassume plenamente a sua identidade originária.

“– Perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas!

“– Virgem Santa! Eu logo vi que só podia ser você, meu primo Nhô Augusto...” (ROSA, s/d, 386)

Augusto Matraga moribundo está novamente investido da identidade de Nhô Augusto; mas, chegada a sua hora e a sua vez, com a aura de um santo guerreiro.

“– Põe a benção na minha filha... seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!

“Depois, morreu." (ROSA, s/d, 386)

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA é o revés de uma tragédia. Emil Staiger sinaliza que o trágico nasce da destruição da “razão de uma existência humana”. (STAIGER, 1975, 147) Todavia a morte de Matraga é justamente o contrário disso. Simbolicamente, é uma redenção e não uma desgraça. É a via através da qual Matraga se reconcilia com o seu mundo, recupera a sua identidade e se transforma num herói positivo. É por isso que essa morte adquire significação. Trata-se, portanto, de uma morte bendita e, por conseguinte, almejada.


Nota:

1 "Qu’un individu soit toujours-dejá sujet, avant même de naître, c’est pourtant la simple realité, accessible à chacun et nullement un paradoxe. Que les individus soient toujours 'abstraits' par rapport aux sujets qu'ils sont toujours-dejá, Freud l'a montré, en remarquant simplement de quel rituel idéologique était entourée l'attente d'une 'naissance', cet 'heureux événement'. Chacun sait combien, et comment un enfant à naître est attendu. Ce qui revient à dire très prosaïquement, si nous convenons de laisser de coté les 'sentiments', c'est-à-dire les formes de l'idéologie familiale, paternalle/maternelle/conjugale/fraternelle, dans lesquelles l'enfant à naitre est attendu: il est acquis d'avance qu'íl portera le Nom de son Père, aura donc une identité, et sera irremplaçable." (ALTHUSSER, 1976, p. 115)


Bibliografia

ALTHUSSER, Louis. Ideologie et appareils idéologiques d'Etat: notes pour une recherche. In ______. Positions. Paris: Editions Sociales, 1976, p. 67 – 125

BARTHES, Roland. Aula. 10. e. São Paulo: Cultrix, 2002

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 41. e. São Paulo: Cultrix, 2003

OLIVEIRA, Franklin de. Guimarães Rosa. In COUTINHO, Afrânio; COUTINHO, Eduardo de Faria (org.). A literatura no Brasil: era modernista. V. 5. e. São Paulo: Global, 1999, p. 475 – 526

RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante: as primeiras confissões. Rio de Janeiro: Agir, 2007.

ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Record, s/d (Mestres da Literatura Contemporânea)

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.


Sergio Granja é autor do romance Louco d’Aldeia em dois tempos (Record, 1996).