Este é o final do neoliberalismo? PDF Imprimir E-mail
Economia e Infra-Estrutura
Santiago Brugal   
Sáb, 11 de outubro de 2008 21:44

CriseQuando estalam as borbulhas desta espuma especulativa sem precedentes, no maior auge na história, desde a Grande Depressão de 1929, do novo liberalismo ou “laissez faire” (deixar fazer), o Estado começa a intervir na economia, pelo que cabe perguntar se este é o prelúdio de seu final.

A primeira confissão, de um dos arquitetos do neoliberalismo financeiro, Benjamin Barber, ex-assessor de William Clinton e atual professor nas universidades de Princeton e Harvard, foi feita em entrevista à British Broadcasting Corporation (BBC), de Londres, em 19 de setembro, chamando as coisas pelo seu nome:

"Vivemos 30 anos de neoliberalismo no mercado, o que significa deixem-nos ganhar e ajudem-nos quando formos mal…  Meus impostos serão usados para salvar banqueiros…".

E agregou: "A desregulamentação que se fez nos últimos 15 anos, incluindo o governo de William Clinton, do qual fui parte, criou uma atmosfera de cassino na qual qualquer banco podia fazer dinheiro sem importar com seus níveis de endividamento e sem sequer saber que tipo de papéis comprava".

Mas o ministro da Economia da Itália Giulio Tremonti foi mais expressivo ainda numa entrevista à televisão estatal: "Não é um banco que fracassou, é um sistema inteiro. Devemos ter novos regulamentos e é opção dos governos fazê-los".

A primeira intervenção do Estado na economia se produziu nos anos 30 do século passado, depois do crack financeiro de 29 de outubro de 1929, o qual está sendo deslocado como o maior da história pelo esvaziamento da borbulha imobiliária, as quebras em curso e a crise creditícia, que intentaram conter a duras penas com medidas de todo tipo desde agosto do ano passado, mas acaba de entrar em fase de derrubada total precisamente num mês de outubro, precedido do último forte sismo num dia 29, mas de setembro.

No decurso dos anos 30 e 40 se produziu a participação estatal, se puzeram em vigor uma trintena de leis reguladoras e se criou o atual sistema financeiro, que iniciou seu declínio com o surgimento da política neoliberal, que estabeleceu como principio fundamental a desregulamentação em todos os âmbitos e em especial no setor financeiro, anulando normativas, deixando de aplicar as existentes e não atuando deliberadamente ante violações e delitos financeiros de toda índole.

Entre as legislações mais importantes que se derrogaram figurou a Lei Glass-Steagall, de 1934, que ficou sem efeito em 1999.  Esta era chave no funcionamento da banca regulada, proibindo aos bancos comerciais de assumir funções de banco de investimento.  A partir dessa desregulamentação, permitiram-lhes entrar nos negócios de valores e especular, criando-se gigantescas corporações com operações diversificadas que estenderam seus tentáculos pelo mundo, o que denominaram "modelo de banco universal".

Está última etapa do imperialismo se iniciou nos anos 70, quando se tornou evidente a decadência do sistema financeiro internacional com o desenvolvimento sem precedentes da política de guerra e intervenção, e do Complexo Militar Industrial, o abandono do respaldo em ouro para o dólar, devido ao fracasso na guerra contra o Vietnam, ao auge da Guerra Fria com a URSS e a outros fatores sócio-económico-financeiros, como o surgimento dos mercados emergentes e a evolução do comércio mundial.

Funcionários, legisladores e os candidatos presidenciais dos Estados Unidos fazem propostas de solução, mas o próximo presidente não poderá repetir Herbert C. Hoovert nem Theodore Roosevelt ─ que substituiu Hoovert em março de 1933 ─, tampouco contará com John Maynard Keynes (criador da teoria da intervenção do Estado) ou Milton Freeman (principal ideólogo do neoliberalismo), quando ressurgem no orbe as idéias socialistas e de mudança, que ameaçaram então a existência do sistema.

Hoje o capitalismo não conta com ideólogos salvadores, nem mecanismos econômico-financeiros para sair da crise, porque o sistema esgotou suas possibilidades, só vêem e aspiram a regressar ao passado, a repetir o ciclo bonança e recessão (que nesta ocasião, como nos anos 70, se trata de estagflação ou estancamento econômico com inflação), voltar à estatização (limitada ao controle e à supervisão) e falam de "nacionalização", que não tem nada que ver com o que está ocorrendo na América Latina.

As medidas que se estão adotando e outras, não surtirão efeito, pois as ferramentas de política financeira já não funcionam, e ainda que as causas da crise atual se pareçam às cíclicas anteriores (especialmente a dos anos 30), os fundamentos estruturais macroeconômicos mudaram tanto nos Estados Unidos como no planeta que provavelmente não seja possível outro "New Deal" (era de "prosperidade"), mas exclusiva para os ricos, os especuladores e exploradores, para a oligarquia financeira.

Igual ao que ocorreu na América Latina, região na qual se levou à prática como em nenhuma outra o neoliberalismo no comércio, as conseqüências estão mostrando suas verdadeiras entranhas, e os cidadãos, especialmente os norte-americanos, começam a ganhar consciência de que é preciso mudar o sistema; tarde ou cedo o líder e o movimento de massas surgirão por necessidade das próprias contradições, é uma lei demonstrada pela história.

A crise ameaça paralisar e desmantelar o que resta do atual sistema neoliberal financeiro global, mas não se deve confiar nos novos truques que pretendem transformá-lo e disfarçá-lo para prolongar-lhe a existência, é preciso descobrir as manobras, denunciá-las e combatê-las.

O neoliberalismo não morreu, é preciso justiçá-lo.

Fonte: Prensa Latina


A grande crise ocidental e suas conseqüências globais

Washington, 6 de outubro (PL) ─ As causas da crise que hoje garroteiam os mercados de todo o mundo são conhecidas diariamente, mas as conseqüências, em compensação, são um mistério, ainda que algumas arestas já se revelam.

A verdade é uma só e esmagadora: os mesmos que provocaram esta debacle são os que decidem, ou intentam decidir, sua solução.

Num artigo intitulado "Demasiado tarde para dar marcha à ré na crise", publicado pelo sítio digital Rebelião, o investigador Mike Whitney adverte que Washington é o único lugar onde um fracasso maciço é recompensado com mais poder e autoridade.

No desenvolvimento desta bolha financeira que arrebentou em agosto de 2007, o autor reconhece a parte de culpa das classificadoras de riscos, dos solicitantes de hipotecas tergiversadores e dos taxadores.

Sem embargo, coloca que o maior crime se cometeu em Wall Street.

Tramaram a desregulamentação do sistema a fim de que os bancos de investimentos pudessem fusionar-se com os bancos comerciais, e permitir que os maiores tomadores de risco tivessem acesso irrestrito ao capital mais barato possível, assinalou Whitney.

Segundo o estudioso, urdiram inclusive a espúria ideologia do "fundamentalismo de mercado", destinada em essência a enriquecer mais os endinheirados e esquecer-se das classes baixas.

O prêmio Nobel de Economia estadunidense Joseph Stiglitz desbaratou recentemente o modelo de mercados e finanças livres. O problema é sério, os alicerces não são bons, advertiu, ao asseverar que esse modo de organização econômica é insustentável.

Mas, apesar de todo intento dos políticos estadunidenses e das principais economias da Europa para evitar o que os especialistas catalogam como a ruína do sistema capitalista e do modelo neoliberal, as conseqüências reais saltam à vista em dimensões planetárias.

O desemprego e as filas por seguro desemprego crescem ao mesmo ritmo.

Em setembro, os Estados Unidos registraram um índice de desocupação de 6,1%, o maior em cinco anos, enquanto várias nações européias se batem também com o fenômeno em grandes magnitudes.

Manuel Freytas em seu artigo "Qual vai ser o efeito global encadeado da derrubada financeira imperial", também difundido por Rebelião, reconhece que o coquetel crise do crédito-caída da produção-desemprego maciço se projeta como efeito direto da crise financeira e a derrubada das bolsas em escala mundial.

Os Estados Unidos, considerados uma economia de alto risco sob respiração artificial, do mesmo modo que importantes mercados do velho continente, registram indicadores cada vez mais alarmantes.

O alerta sobre 2009 dos especialistas é que será um ano frio e sombrio, pois ninguém vê claro o futuro. O chefe da maioria democrata do Senado Harry Reid disse que estão em território desconhecido, num jogo diferente, no qual ninguém sabe que fazer.

As autoridades primordiais do sistema desestabilizado, Banco Mundial e Bancos Centrais, Fundo Monetário Internacional, o Grupo dos oito países mais industrializados e outras, consideram que a recessão já está instalada ou a ponto de ocorrer.

Um forte processo inflacionário acentua esse fato, junto com a redução do consumo, advertem as estatísticas, em tanto que o cenário vai piorar com os problemas creditícios que aceleram a elevação do custo de vida.

Hoje, as dúvidas sobre uma paralisação do sistema no caos são cada vez menores, enquanto os países da periferia se asseguram dentro do possível para poder fazer frente a uma crise que estende suas asas por todo o planeta e os diversos setores da economia e da sociedade.

Fonte: Prensa Latina