A grande crise dos anos 30 PDF Imprimir E-mail
Economia e Infra-Estrutura
Fidel Castro   
Seg, 01 de dezembro de 2008 14:58
Fidel CastroReflexões do companheiro Fidel:  A grande crise dos anos 30

É um tema difícil de explicar, ainda que pareça muito simples. O sistema da Reserva Federal dos Estados Unidos, como fruto do capitalismo em pleno desenvolvimento, se cria no ano de 1913. Já Salvador Allende, a quem todos recordamos como homem de nossa época, havia cumprido ao redor  de 15 anos.

A primeira guerra mundial estalou em 1914, quando o príncipe herdeiro do império austro-húngaro, no coração do centro-sul da Europa, foi assassinado em Sarajevo. Canadá era ainda colônia da Grã Bretanha. A libra esterlina inglesa ostentava o privilégio de ser a moeda de pagamento internacional. Sua base metálica era o ouro, como o fora há mais de mil anos na capital do império romano do Oriente, Constantinopla.

Os que iniciaram as lutas sangrentas contra os crentes muçulmanos no Oriente Próximo, esgrimindo pretextos religiosos, eram cavaleiros feudais dos reinos cristãos da Europa cujo verdadeiro propósito era controlar as rotas comerciais e outros fins mundanos mais grosseiros que em outra ocasião poderiam abordar-se.

Ao final da primeira guerra mundial, Estados Unidos participa da mesma desde 1917, dois anos depois do afundamento do navio Lusitânia, carregado de passageiros norte-americanos que partiram de Nova Iorque, por torpedos disparados desde um submarino alemão com absurdas instruções de atacar uma nave que portava as bandeiras de um país distante, rico e potencialmente poderoso, cujo governo desde posiciones de suposta neutralidade buscava pretextos para participar na contenda junto com a Grã Bretanha, França e seus aliados. O ataque se produziu em 7 de maio de 1915, ao atravessar o estreito de mar que media entre Irlanda e Inglaterra. Nos 20 minutos que demorou para soçobrar, muito poucos passageiros puderam abandonar a nave; 1.198 pessoas que estavam ainda a bordo perderam a vida.

O crescimento da economia norte-americana depois daquela guerra se manteve sustentadamente, salvo crises cíclicas que eram resolvidas pelo sistema da Reserva Federal (FED) sem maiores conseqüências.

Em 24 de outubro de 1929, recordado na história dos Estados Unidos como a “quinta-feira negra”, se desata a crise econômica. O Banco da Reserva de Nova Iorque, que tem sua sede em Wall Street, ao igual que outros grandes bancos e corporações, segundo o critério do teórico da direita e reputado economista norte-americano Milton Friedman, Premio Nobel de Economia (1976), reage “por instinto” adotando as medidas que considerou mais corretas: “injetar dinheiro em circulação”. O Banco da Reserva de Washington, acostumado à preeminência de seus critérios, logra impor finalmente o critério oposto. O Secretário do Tesouro do presidente Hoover apóia o Banco da Reserva de Washington. O de Nova Iorque termina cedendo. “Mas o pior ainda estava por chegar”, declara Friedman, quem explica com mais clareza que ninguém entre eminentes economistas, vários deles de tendência oposta, a seqüência dos fatos, quando escreve: “Até o outono de 1930 a recessão da atividade econômica, apesar de ser grave, não se viu afetada por dificuldades financeiras ou pelas petições dos depositantes intentando retirar os depósitos. O caráter da recessão mudou drasticamente quando uma série de bancarrotas no Meio-oeste e no Sul dos Estados Unidos minaram a confiança nos bancos e trouxeram consigo numerosos intentos de converter os depósitos bancários em dinheiro efetivo”.

“O 11 de dezembro de 1930 fechou o Banco dos Estados Unidos. Corresponde à data crítica. Era o maior banco comercial que até a data havia afundado na história norte-americana”.

Só no mês de dezembro de 1930 fecharam suas portas 352 bancos. “O FED poderia ter chegado a uma solução melhor comprando em grande escala no mercado aberto títulos da dívida pública”.

“Em setembro de 1931, data em que a Grã Bretanha abandonou o padrão ouro, aquele seguiu uma política inclusive mais negativa”.

“O sistema reagiu após dois anos de dura depressão, aumentando os juros a um nível nunca alcançado em sua história”.

Tenha-se em conta que Friedman reflete um critério que ainda prevalece nas esferas oficiais dos Estados Unidos quase 80 anos depois.

“Em 1932 o FED, pressionado pelo Congresso, concluiu seu período de sessões e cancelou em seguida seu programa de compras”.

“O episódio final foi o pânico bancário de 1933”.

“O medo se intensificou durante o interregno entre Herbert Hoover e Franklin D. Roosevelt, eleito em 8 de novembro de 1932, mas cuja tomada de posse não se efetuou até o 4 de março de 1933. O primeiro não desejava tomar medidas drásticas sem a cooperação do novo presidente, enquanto Roosevelt por sua parte não queria assumir nenhuma responsabilidade até o juramento do cargo”.

O episódio nos recorda o que ocorre hoje com o presidente eleito em 4 de novembro, nas  recentes eleições de há menos de um mês, Barack Obama, que sucederá Bush em 20 de janeiro de 2009. Só mudou o período de interregno, que na época de 1930 durava não mais de 117 dias e na atualidade não mais de 77.

No momento de maior auge econômico, assinala Friedman, existiam nos Estados Unidos até 25 mil bancos. No inicio do ano de 1933 a cifra havia reduzido a 18 mil.

“Quando o presidente Roosevelt decidiu terminar com o fechamento bancário, 10 dias depois de que começara – disse Friedman –, algo menos de 12 mil bancos foram autorizados a abrir suas portas, aos que se uniram mais tarde unicamente 3 mil. Portanto, em conjunto, uns 10 mil dos 25 mil bancos existentes em 1929 desapareceram durante esses quatro anos, mediante processos de quebra, fusão ou liquidação”.

“O fechamento das empresas, a redução da produção, o desemprego crescente, tudo alimentava o nervosismo e o medo”.

“Uma vez a depressão em marcha, se transmitiu a outros países e se produziu, por suposto, una influência reflexa; outro exemplo da realimentação tão onipresente numa economia complexa”, conclui Friedman.

O mundo de 1933 do qual ele falou em seu livro não se parece em nada ao que existe hoje, absolutamente globalizado, constituído por mais de 190 Estados representados na ONU, cujos habitantes estão todos ameaçados por riscos que os cientistas, mesmo os mais otimistas, não podem ignorar e que um crescente número de pessoas conhecem e compartem, inclusive proeminentes políticos norte-americanos.

O eco da repercussão da atual crise se aprecia nos esforços desesperados de importantes líderes mundiais.

A agência Xinhua informa que o presidente Hu Jintao da República Popular China, un país de crescimento sustentado nos últimos anos por encima de dois dígitos, advertiu ontem que “a China se encontra sob uma crescente pressão por sua enorme população, recursos limitados e problemas ambientais”. Trata-se do único país que sabemos que conta com reservas em divisas ascendentes a quase dois trilhões de dólares. O dirigente chinês enumera “uma série de passos imprescindíveis para proteger os interesses fundamentais da população e preservar o meio ambiente na estratégia de industrialização e modernização da China”. Assinalou, por último, que “com a propagação da crise financeira a demanda mundial de produtos se reduziu consideravelmente”.

Com essas palavras do líder do país mais povoado do planeta, não é necessário acrescentar mais argumentos sobre a profundidade da atual crise.

Havana, 30 de novembro de 2008

Fidel Castro Ruz

Fonte: Prensa Latina
 
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  1. Isso foi ruim para todos que sofreram com a crise.

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