Crise fará 20 milhões de novos desempregados PDF Imprimir E-mail
Emprego e Salário
Tribuna da Imprensa   
Ter, 21 de outubro de 2008 12:04
Genebra ― A atual crise econômica irá gerar 20 milhões de novos desempregados no mundo até o final de 2009, revertendo anos de avanços na área social e agravando a pobreza e desigualdade. O alerta é da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que prevê demissões em massa diante da desaceleração das principais economias do mundo e um incremento de mais de 140 milhões de novos miseráveis.

O diretor-geral da OIT, Juan Somavia, deixou claro que o Brasil "não estará imune ao problema". Um documento interno da OIT alerta para a queda da produção industrial e das exportações do País e adverte que o governo precisará rever seus gastos e focar suas atenções na luta contra o desemprego urbano.

Recorde


Pelos cálculos feitos pela entidade, o impacto social da crise será profundo. O número de desempregados passará pela primeira vez a marca dos 200 milhões de pessoas no mundo e apela para que as medidas tomadas pelos governos não salvem apenas os bancos, mas pessoas e trabalho.

"Passaremos de 190 milhões de pessoas sem trabalho no início de 2008 para cerca de 210 milhões. Essa é a primeira vez na história que a humanidade atinge esse marca", afirmou Somavia. Os 20 milhões de novos desempregados seriam gerados, portanto, em apenas dois anos. Nos anos 1990, o mundo levou dez anos para ver um aumento de 34 milhões de desempregados.

"Essa não é mais apenas uma crise em Wall Street, mas sim uma que toca a todos. Precisamos de um plano de resgate econômico para famílias trabalhadoras e para a economia real, com regras que gerem empregos decentes", afirmou Somavia. Por enquanto, a OIT afirma que não pode dizer exatamente em fquais países esse desemprego ocorrerá com maior intensidade. Mas destaca que a falta de crescimento nos países ricos terá conseqüências para os trabalhadores nessas economias. Os países emergentes não sairão ilesos.

"A idéia de que as economias emergentes estariam descoladas do processo simplesmente não tem qualquer relação com a realidade. Só se fosse por mágica", atacou Somavia. "Os governos precisam unir forças para evitar que haja uma crise social longa, severa e global", disse.

Brasil


Para a OIT, o Brasil "dificilmente" conseguirá repetir a marca de 2008 no próximo ano, criando cerca de 2 milhões de empregos. Um documento interno da OIT ainda aponta que a crise já "afetou o mercado de crédito e de câmbio" no Brasil. "Os efeitos indiretos da crise, gerados pela desaceleração dos Estados Unidos e outros países ricos, vão afetar as exportações e produção industrial do Brasil", afirma a avaliação.

" Os investimentos também podem ser atingidos", diz. "O Brasil provavelmente terá de rever seus padrões de gastos e focar no desemprego e inflação", afirma a OIT. Para a entidade, o desemprego urbano no País ainda é importante. Para lidar com a crise, a OIT pede que o País reduza a informalidade no trabalho, que chega a 70%. Outra medida é ampliar a cobertura de seguro desemprego.

Somavia ainda alerta que os números de novos desempregados no mundo podem ainda ser maior. "Esses dados podem estar inclusive subestimados", disse o chileno que dirige a entidade ligada à ONU. Os cálculos do desemprego foram feitos a partir dos dados de crescimento econômico divulgados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Para 2009 teremos um crescimento de 0,1% nos Estados Unidos, 0,2% na Europa e 0,5% no Japão", disse. "Isso, na realidade, significa um crescimento zero nas maiores economias do mundo", afirmou. Pelas novas projeções do FMI, o mundo crescerá a uma taxa de 3,2% em 2009. A taxa apenas será mantida acima de 3% graças ao desempenho dos países emergentes.

"Esses números podem ser ainda piores, o que significa que o desemprego também poderá ser maior dependendo de quanto tempo será a recessão e qual será sua profundidade. A realidade é que a crise financeira está tendo implicações bem mais amplas", disse Somavia.

Setores


Construção, automóveis, turismo, serviços financeiros e serviços em geral irão liderar os setores afetados pelo desemprego. Nas últimas semanas, uma série de setores vem já tendo suas vendas afetadas pela crise. Um dos principais é o setor automotivo. Em setembro, o registro de carros novos na Europa já caiu em 8%.

Empresas como a Opel e BMW fecharam momentaneamente suas fábricas em toda a Europa, enquanto outras reduziram os salários dos empregados. Em vários países europeus, a construção de novas casas caiu em mais de 30% em apenas um mês. Só na Espanha foram 3 mil novos desempregados por dia em setembro, contra 140 mil nos últimos três meses no Reino Unido. Na França, a taxa assustou o governo e chegou a 40 mil de novas pessoas sem trabalho em agosto.

Mais pobres


Mas um dos principais impactos ainda será na classe mais pobre. A camada da população mundial que ganha menos de US$ 1 por dia vai aumentar de 480 milhões de pessoas para 520 milhões entre o início de 2008 e o fim de 2009. Entre os que ganham até US$ 2, o aumento de pessoas afetadas será de 100 milhões. No total, 1,4 bilhão de pessoas estarão abaixo dessa linha de renda.

Para Somavia, o aumento da camada pobre é alarmante e poderá ter conseqüências graves para os objetivos da ONU de reduzir pela metade a fome e a pobreza no mundo até 2015. "Estamos vendo uma maior desigualdade no mundo, apesar de todos os esforços. Praticamente não conseguimos diminuir a pobreza desde a década de 1980, salvo na China", afirmou.

Mas ele também destaca para a deterioração da situação da classe média, inclusive nos países ricos. "Muitos na classe média percebem que estão vivendo agora em dificuldades e serão certamente afetados", disse. "Coisas que pareciam que haviam desaparecido nos países ricos agora voltam a assombrar", disse.

"Precisamos salvar pessoas e a produção. Isso agora é sobre a economia real", disse. Outro grupo que será afetado será o dos jovens. A OIT já destacou que o desemprego entre os jovens pode gerar o aumento da criminalidade em alguns países e até fortalecer movimentos terroristas em outros.

Modelo


Para a OIT, a realidade é que o mundo não consegue gerar empregos no atual modelo de crescimento que vem implementando. "O modelo de globalização que temos hoje não é aceitável moralmente e nem sustentável economicamente", disse. A OIT quer que a cúpula mundial que europeus e americanos começam a desenhar inclua a questão do emprego e de temas sociais. No último fim de semana, os presidentes George W. Bush, dos Estados Unidos, e o francês Nicolas Sarkozy, iniciaram debates para convocar uma cúpula que iria refundar o sistema financeiro internacional.

"Não podemos salvar apenas os bancos. Temos de fazer algo pelos postos de trabalho e isso significa garantir empréstimos às pequenas empresas", afirmou Somavia. Para ele, a questão do emprego precisa estar "no coração" da cúpula.

A OIT ainda tem sua cartilha de como sair da crise. Entre as medidas está o fim da paralisia do crédito, proteger as pequenas empresas, reformar o sistema financeiro e aumentar a proteção social. "Nesse momento, ninguém mais vai acreditar que um governante afirmar que, depois de tudo o que foi dado aos bancos, que não tem mais dinheiro aos trabalhadores", afirmou.

"Com a crise, as empresas terão dificuldade para conseguir créditos, para vender e a solução será demitir funcionários. Precisamos impedir que isso ocorra. As soluções para a crise não podem ser apenas para o setor financeiro", completou Somavia.



Redução do superávit reflete crise

Brasília ― O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirmou que a redução do superávit da balança comercial em outubro já é reflexo da crise financeira internacional. O governo divulgou ontem que o superávit da balança comercial até a terceira semana de outubro registrou uma queda de 56,9%, pela média diária (US$ 67,2 milhões), na comparação com o mesmo mês do ano passado.

Segundo ele, houve uma desaceleração do ritmo de crescimento das exportações em função da redução dos preços internacionais das commodities. De acordo com Castro, esse reflexo começou discretamente no final do mês de setembro e ficou nítido em outubro. "E será ainda mais nítido nas exportações de novembro", disse.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a média diária das vendas externas, até o dia 19 de outubro, cresceu 17,4% em relação a outubro de 2007 (US$ 716,7 milhões). Em setembro, as exportações subiram 22,1% na comparação com setembro de 2007 e, no acumulado do ano, registram alta de 28%.

Importações


A média diária das importações, até a terceira semana do mês, de US$ 774,4 milhões, ficou 38,1% acima da média de outubro de 2007 (US$ 560,7 milhões), muito próximo à expansão de 39,5% de setembro. No acumulado do ano, as importações registram um crescimento de 51,2% em relação ao mesmo período de 2007.

O vice-presidente da AEB previu que a média diária mensal das exportações, que está na casa dos US$ 800 milhões, deve cair para a faixa dos US$ 700 milhões. Ele lembrou que 65% das exportações sofrem impacto do preço das commodities. Segundo ele, alguns produtos no mês de setembro já registraram queda nos preços quando comparados com agosto como, por exemplo, soja, alumínio, laminados planos, óleo combustível, petróleo em bruto e gasolina.

Castro disse que, embora o preço das commodities também tenha impacto nas importações, o reflexo é menor. Ele lembrou que cerca de 30% das importações são commodities, portanto, uma participação bem menor do que no caso das exportações. Além disso, os contratos de importação de manufaturados, que são a maior parte da pauta brasileira, são de longo prazo. Por isso, o impacto da crise, como a valorização do dólar, só deve ser sentido em 2009.

Natal


Ele disse, por exemplo, que as empresas que tinham que fazer compras para o Natal já as fizeram. Castro destacou que, excluindo os meses do primeiro trimestre de 2008, a média diária do superávit comercial de outubro é a menor do ano. Ele ressaltou que, neste momento, o impacto da crise da balança comercial nas exportações é apenas em preço.

Mas, a partir de dezembro, avaliou, já poderá refletir a retração dos mercados mundiais com uma queda das vendas externas em volume. Segundo ele, a queda na quantidade exportada, por enquanto, não será sentida por causa da vigência de contratos já fechados.

Para 2009, disse o vice-presidente da AEB, as incertezas do mercado dificultam uma previsão mais precisa. No entanto, ele avalia que, mantido o cenário de hoje, haverá uma queda de pelo menos US$ 20 bilhões nas exportações em relação ao resultado deste ano, que deve ser em torno de US$ 202 bilhões.

Exportações

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, o aumento das exportações em outubro tem sido sustentado pelos embarques de produtos semimanufaturados e básicos. As vendas de semimanufaturados cresceram 38,3%, com destaque para ferro fundido, produtos semimanufaturados de ferro ou aço, óleo de soja em bruto, ferro-ligas, açúcar em bruto e celulose. As exportações de básicos cresceram 25,5%, por conta de minério de ferro, fumo em folhas, carne de frango, carne bovina, café em grão e petróleo em bruto.

As vendas de manufaturados subiram apenas 1,7%, em razão da exportação de etanol, aparelhos transmissores ou receptores, açúcar refinado, laminados planos de ferro ou aço e veículos de carga. Do lado das importações, aumentaram os gastos em outubro, principalmente, com aeronaves e peças (119,6%), siderúrgicos (86,4%), adubos e fertilizantes (63,4%), combustíveis e lubrificantes (58,6%), automóveis e partes (38,0%), plásticos e obras (34,5%), equipamentos elétricos e eletrônicos (32,1%) e equipamentos mecânicos (27,4%).

No acumulado de outubro, as exportações acumulam US$ 10,941 bilhões e as importações, US$ 10,067 bilhões, com superávit de US$ 874 milhões. No ano, as exportações somam US$ 161,809 bilhões, as importações, U$S 141,279 bilhões, com saldo positivo de US$ 20,530 bilhões.


Fonte: Tribuna da Imprensa, 21/10/2008
 
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