| Chico Alencar: Eu preferia pagar mais IPTU e ter mais tranqüilidade |
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| Eleições |
| O Globo |
| Qua, 10 de setembro de 2008 23:17 |
Candidato do PSOL diz que o imposto pode subir para uns e descer para outros e defende debate antes de decisão sobre favelas e camelôsDe padre Antônio Vieira a Fernando Pessoa e Norberto Bobbio, passando pelo filósofo Antanas Mockus, ex-prefeito de Bogotá, a entrevista do candidato a prefeito pelo PSOL, o professor e deputado federal Chico Alencar, foi inundada por referências literárias e políticas. Chico chegou ao GLOBO bem-humorado: “Por favor, não fotografem os meus pés de galinha”, disse ele, abrindo um sorriso que permaneceu durante quase duas horas de entrevista, mesmo quando era instado a sair do plano das idéias para o das propostas de governo. O candidato disse que, se eleito, vai rever a tabela de IPTU, para cima ou para baixo, e alertou para a perigosa aproximação de políticos com a criminalidade, especialmente os ligados às milícias e ao tráfico. O GLOBO: Qual a sua proposta para resolver o problema da desordem urbana no Rio? CHICO ALENCAR: A maior desordem urbana do Rio é a desigualdade social e de oferta de serviços públicos. Cerca de 85% dos equipamentos culturais estão na região que vai da Tijuca, passando pelo Centro, até a Zona Sul e a Barra, onde vivem apenas 25% da população. Mas como o senhor pretende resolver, por exemplo, o problema dos camelôs? CHICO: A política para camelôs está na lei de minha autoria. Uma lei que regulamenta, disciplina, define áreas, estimula inclusive as áreas de comércio popular, aliás, a única parte da lei que foi cumprida. Primeiro é ver quem é quem, e depois combater. E a ação não é só nossa, mas também da Polícia Federal. Porque envolve as máfias coreanas e chinesas e a estocagem de produtos contrabandeados. É preciso também organizar o espaço de pedestres. Com fiscalização e com disciplina, vai se resolvendo. O que fazer então para que a lei seja cumprida? CHICO: É evidente que muito trabalhador está ali por necessidade. O problema não é o comércio ambulante, mas a desorganização geral e a falta de autoridade pública democrática. Autoridade não é autoritarismo. O senhor vai mexer no IPTU? CHICO: Vamos rever a planta de valores do IPTU, porque desde 1997 ela não é atualizada. Então o IPTU vai aumentar? CHICO: Pode diminuir em certas áreas e pode aumentar em outras. É preciso ver as condições do mercado hoje, dar habitabilidade, condições de segurança. Isso já vale para áreas pobres. Eu pago IPTU bem baratinho (em Santa Teresa, bairro cercado por favelas). Eu preferia pagar mais e ter mais tranqüilidade. Como o senhor enfrentaria a questão das favelas, da expansão e do domínio dessas áreas pelo tráfico? CHICO: O problema das favelas é secular. Deriva de um problema social que não vai ser resolvido de imediato. Tem que dialogar, verificar a autenticidade da ocupação. Tem de ser enfrentado pelo município, pelo governo do estado e pelo Ministério das Cidades. Também está ligado a um plano diretor. Sem isso não se avança. É uma questão de planejamento, de estudo dos fluxos migratórios, e não numérica, de quantas casas foram construídas. O senhor controlaria a verticalização das favelas? CHICO: Combaterei todas as verticalizações inadequadas que não obedecerem a um planejamento urbanístico. O prefeito aboliu o plano diretor decenal. Isso é patético. Vamos controlar com os planos de estruturação urbana de cada bairro, com atenção às áreas de especial proteção de interesse social. A prefeitura tem que ter presença social e urbanizar. O senhor não acha que o debate nacional, mais teórico, cansa o eleitor carioca, que vive numa cidade suja e desorganizada? O que o senhor vai fazer para resolver o problema dos transportes, com vans e ônibus piratas? CHICO: Acho que precisamos fazer a ligação permanente do universal com o local. O Cesar Maia foi eleito com o discurso de síndico, de xerife, de homem da ordem urbana. Fez um governo, nesse tempo todo, como herdeiro do brizolismo, e nos deixou nessa situação de anomia, de debilidade do poder público. A gente tem que combinar essa dimensão política maior com efetiva ação concreta. E sobre transporte? CHICO: Um dos problemas sérios é que o poder regulador da prefeitura optou pela privatização absoluta. Não podemos deixar como está, sem licitar as linhas de ônibus. A prefeitura perdeu sua capacidade de planejar. Como vereador, elaborei, depois de muita discussão, o Plano Diretor Decenal, que caducou em 2002. Acompanhando o plano diretor urbanístico, tem o plano diretor de transportes. É um estudo dos fluxos urbanos. Hoje tem excesso de ônibus na Zona Sul e filas em outros locais. Vamos fazer corredores exclusivos. O senhor conhece alguma cidade do mundo com bom transporte que tenha a presença das vans? CHICO: Não conheço muitas grandes cidades do mundo. Não tive esse privilégio, nem faço aquelas grandes viagens que alguns deputados fazem com constância. Mas com transporte alternativo eu não conheço. Vejo grandes cidades do mundo com transporte sobre trilhos, ônibus e metrô. Se só existe onde o transporte público falhou, a van não seria uma anomalia do sistema? CHICO: A van, a Kombi e o cabritinho têm a vocação para o transporte mais local, de bairros, circulares e não de longa distância. Prosperaram por estratégias de sobrevivência, a partir dos famosos planos de demissão voluntária da Era Collor. De outro lado, pela omissão do poder público para regulamentar um plano de transportes para a nossa cidade. E o que o senhor vai fazer efetivamente em relação às vans? CHICO: Em São Paulo se avançou depois que o caos estava quase instalado. Ainda dá tempo, se houver poder público. Fiscalização e regulamentação das vans, como transporte complementar, de âmbito local. Isso é possível. É claro que vai ter que enfrentar algumas máfias que estão se instalando ali, muito poderosas. Conseguem até levar para debates candidatos que não aparecem em debate algum. Mas eu não quero ser injusto, não posso dizer que todo dono de van, toda cooperativa, é ligada às milícias. O senhor adotaria o bilhete único? Com ou sem subsídio? CHICO: Não vou atecipar. Temos que discutir o plano diretor de transportes com representantes dos usuários e entidades intermediárias da sociedade, Câmara dos Vereadores e com os empresários. A democracia dá trabalho e exige o envolvimento de muita gente. Mas, evidentemente, somos radicalmente contra um processo continuado de transferência de recursos públicos para o setor privado. Meu projeto inclui as vans porque não podemos proibir todas e botá-las no paredão. Mas com fiscalização, regulamentação rigorosa e exame de certas cooperativas que podem estar ligadas a grupos mafiosos. Qual é a sua política para a saúde? Hoje em dia há candidatos que falam em UPA e em policlínicas 24 horas. Quais os seus planos? CHICO: As unidades de prontoatendimento, como estão sendo tratadas, são um acinte à dor da nossa gente e um elemento puramente eleitoreiro. É claro que é preciso atendimento de emergência, mas centrar campanhas, inclusive publicitárias do governo do estado, em UPA para lá e UPA para cá é uma vergonha. O que a gente precisa é de políticas de promoção da saúde, que é a educação para uma vida de qualidade. A gente quer inclusive que a prefeitura assuma, como é seu dever, a gestão plena do SUS, com um espírito de diálogo. Chamar a Fiocruz e as universidades para, juntamente com os nossos técnicos, organizar o controle de epidemias, onde houve uma brutal omissão dos governos federal, estadual e municipal. Hoje há uma certa olimpíada para ver quem faz mais UPAs, em vez de se promover o atendimento básico. Quais são suas propostas para a educação? CHICO: Nós, do PSOL, entramos com uma ação no Supremo (Tribunal Federal) contra o prefeito Cesar Maia, por não aplicar 25% da receita de impostos e transferências na educação municipal. Isso é algo grave. Eu sou um esquerdista que quer cumprir a lei, aí você vê como sou moderado. Cada escola tem que ter um projeto político pedagógico: pensar na comunidade, dialogando com todo mundo. Você tem 746 mil crianças indo de segunda a sexta, às vezes por poucas horas, às vezes voltando cedo por falta de professores, numa unidade da prefeitura. Instituições estão sendo capturadas pelo crime Candidato alerta que Rio vive um processo perigoso, em que bandidos se candidatam com conivência de grandes partido O GLOBO: A um mês das eleições, a campanha ainda está fria. Quem o senhor acha que está mais desiludido: os eleitores mais velhos ou os mais jovens? O que está havendo? CHICO ALENCAR: Os partidos políticos estão perdendo o seu viço doutrinário e organizativo, eles são mais organizações burocráticas que abrigam interesses difusos, e muitas vezes inescrupulosos, sem um viés ideológico, sem um projeto de sociedade. Não adianta ter pluripartidarismo se você não constrói partidos que tenham esse escopo de programas, de propostas, de atuação militante. O senhor acha que a trajetória do PT contribuiu para isso CHICO: Sem dúvida. Com a democratização, mesmo com muitas limitações no Brasil, você readquiriu a importantíssima liberdade de imprensa e a liberdade de organização partidária, mas parece que a política foi-se desconstituindo pelo próprio estatismo em que ela acabou entrando. Parece que a vocação de um partido é simplesmente alcançar nichos de poder Quando, afinal, num processo longo, o PT, que foi uma novidade do ponto de vista da história políticopartidária do Brasil, um partido de militantes, de núcleos, de atuação não só eleitoral, com idéias e causas, quando ele chega ao poder, começa a perder esse viço, essa alma. Então houve uma debacle éticopolítica do PT, que, num primeiro momento, não afetou as novas gerações, mas gerou uma certa dúvida, uma certa interrogação. Agora, no ambiente universitário, já tem a geração do mensalão. Essa debacle do PT, que fez com que se dissesse que todos os partidos são iguais, todos os políticos são iguais, contribuiu para esse desinteresse, esse desencanto. Qual é o cenário hoje? CHICO: Olho o cenário com extrema apreensão. O Rio vive um processo extremamente perigoso, que vai além do nosso drama cotidiano, do banditismo, do medo de perder um filho, de ter uma bala perdida sendo achada no nosso corpo. Vai além das mazelas desse cotidiano trágico. É a captura das instituições republicanas diretamente pelo crime organizado . Não são mais os lobbies, a especulação imobiliária, as máfias do ônibus .Agora eles estão se candidatando e por partidos de grandes máquinas. Há uma política de conivência, não sei se voluntária ou interesseira, dos grandes partidos com esse banditismo, que não é enfrentado ali na origem, que é negar a legenda para uma série de candidatos que expressam isso. Eu espero pelo chamado da Justiça Eleitoral. Que as forças federais que vierem aqui consigam detectar onde há candidatos que compraram os poderes despóticos locais para só ter a candidatura deles. As milícias são muito mais ousadas do que o próprio tráfico. O tráfico faz intermediação de interesses, tem candidatos de grandes partidos. Quem são? Olhe nas comunidades quem tem propaganda lá. As milícias não, as milícias têm seus próprios candidatos diretamente. Eles compram a legenda ou estão nas cúpulas dos partidos? CHICO: Ou porque têm, dentro do oportunismo eleitoreiro de partidos que não são partidos de conteúdo, e eu lamento que o PT esteja nesse processo de peemedebização, um grande ônibus que carrega todo mundo com excesso de lotação, você nem sabe para onde o motorista está conduzindo, a não ser para as garagens do poder. Mas os partidos estão ficando lenientes com isso, porque são dez ou 15 mil votos, e isso sempre ajuda. Isso é gravíssimo. No Rio e nos municípios da Baixada é muito mais grave que em muitos lugares do Brasil, e isso é uma vergonha para o Rio. Um candidato a prefeito, seu partido e sua coligação têm que ter posição firme sobre isso. E o trágico: eu não vejo nos grandes partidos e nas grandes máquinas e mesmo no candidato Crivella, que é de um pequeno partido, mas que já falou que um candidato é iluminado, e o outro é isso e aquilo, todos esses partidos são coniventes com esse processo crescente de captura das instituições públicas pela criminalidade. Meus Deus, a gente tem de reagir contra isso. Qual é a diferença entre o seu partido e os outros de esquerda? CHICO: A vontade de resgatar a política no cotidiano, de ter organização de base, apostar na possibilidade de ser firme numa estratégia, manter sempre acesso o elemento utópico de uma sociedade igualitária e ser radicalmente democrática e socialista. Também a flexibilidade tática sem abrir mão de princípios e sem passar de certas fronteiras inexcedíveis. Consideramos que muitos outros partidos, a partir da era Lula, acabaram rompendo essas fronteiras mínimas. Passam a viver numa incoerência permanente. O senhor é mais de esquerda do que a candidata Jandira? CHICO: Não sou mais do que ninguém. Adoro o Fernando Pessoa quando diz: “Não sou nada, não posso ser nada, não devo querer ser nada. À parte isso, tenho todos os sonhos do mundo”. O PSOL tem uma postura mais coerente do que o PCdoB. Quero governar a cidade com os meus parceiros de ofício, os 85 mil servidores públicos e os 52 mil servidores aposentados, mas não inativos, e a população encantada para participar da vida da cidade. Já houve isso, o Rio foi palco das maiores manifestações políticas na cidade. Mas, no plano municipal, na política de transportes, educação, o que diferencia sua candidatura da de Molon, Gabeira, Jandira? CHICO: Do ponto de vista de algumas propostas mais técnicas, talvez algumas sejam muito semelhantes. O elemento diferenciador é protagonismo popular. Outro é a compreensão da importância do poder público. Meu querido amigo fraterno Fernando Gabeira, parceiro de muitas lutas, fala que é importante um choque de capitalismo para o Rio de Janeiro. Minha visão é a de que o capitalismo é um sistema com dinâmica interna de reprodução que vai sem qualquer amparo do Estado ou de uma prefeitura. Queremos é um choque de poder público, aí é uma visão oposta. O PT perdeu limites e fronteiras e está no caminho da peemedebização. O PCdoB sofre o que é comum na trajetória de certos nichos do comunismo brasileiro: o adesismo. Foi do governo Moreira, Garotinho, e assim sucessivamente. Há diferenças, sim. Política não se faz sem o elemento da utopia, senão você se corrompe. Então, por exclusão, o senhor apoiaria o Crivella? CHICO: Não apóio quem usa a religiosidade humana. Defendo a República e o Estado laico. Acho muito apequenador e falso você fazer a política do rebanhismo. O que questiono no senador Crivella é que ele não tem trajetória política substantiva na esfera republicana. Jamais apoiaria um candidato sem essa trajetória. Nós temos sinceras esperanças de, apostando na consciência cidadã do povo do Rio, chegar ao segundo turno. Fonte: O Globo, 10/09/2008
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Candidato do PSOL diz que o imposto pode subir para uns e descer para outros e defende debate antes de decisão sobre favelas e camelôs