| Trinta anos sem Carpeaux |
|
|
|
| Filosofia e Questões Teóricas |
| Leandro Konder |
| Dom, 27 de janeiro de 2008 22:06 |
|
Quem me chamou a atenção para a enorme riqueza de aspectos preciosos da personalidade de Otto Maria Carpeaux foi Astrojildo Pereira. Astrojildo insistia no fato de que muitos reconheciam a memória excepcional e a erudição fantástica de Carpeaux. Para o veterano fundador do Partido Comunista Brasileiro, Carpeaux era a pessoa mais erudita que ele conhecia, porém, mais do que isso, era um intelectual honestíssimo e um espírito notável pela independência e pela solidariedade humana. Um dia estava eu viajando de ônibus de Ipanema para o centro da cidade, quando um homem magro, de sobrancelhas espessas e queixo proeminente sentou-se a meu lado. Reconheci o crítico e não resisti a puxar papo com ele. Fui logo dizendo que era amigo de Astrojildo Pereira, o que garantiu o bom humor com que ele acolheu a minha abordagem. A partir daquele dia tivemos algumas conversas que me foram muito úteis. Mais tarde ele me encomendou alguns verbetes para a Enciclopédia Delta Larousse, dirigida por Antonio Houaiss. Em agosto de 1939, Carpeaux chegou ao Brasil fugindo da Holanda, em companhia de sua mulher, dona Helena. Sua vida tinha se tornado impossível na Áustria que Hitler tinha anexado à Alemanha. Para sublinhar sua decisão de uma recusa radical daquilo que acontecia no mundo germânico, modificou seu nome do alemão Karpfen para o francês Carpeaux. Um grupo de jovens de esquerda, percebendo que Carpeaux, em seus artigos, criticava o marxismo-leninismo, acusou-o de ser um simpatizante do nazismo. Carpeaux, de fato, era católico e tinha aspectos conservadores em seu pensamento. Mas a acusação era grotesca, pois o homem tinha vindo para cá, fugindo do nazismo. A importância do trabalho realizado por Carpeaux é indiscutível. Alfredo Bosi escreveu que o ensaísmo do crítico austríaco era “um diálogo com a historicidade profunda de todas as obras”. Antonio Candido diz que Carpeaux produziu um “impacto renovador” na literatura brasileira. A literatura nos ensina a não sermos simplistas. As numerosas publicações — Origens e fins, Perguntas e respostas, Retratos e leituras, Presenças — discorriam sobre Carlos Drumond de Andrade e Graciliano Ramos, mas também sobre Fernando Pessoa, Shakespeare, Jonathan Swift e Jorge Luis Borges. E ele nos legou um monumento, que é a sua História da Literatura Ocidental em oito grossos volumes. Não se limitou à crítica literária e passou a participar ativamente da vida política brasileira. Repudiou qualquer tentativa de conciliação com a ditadura militar. Fazia no Correio da Manhã artigos sobre o Brasil no espelho do mundo. Quando comentava o que acontecia noutros países, seus leitores riam ao perceber que ele na verdade falava do Brasil. Carpeaux foi uma das primeiras pessoas (senão a primeira) a falar de Kafka e de Gramsci entre nós. Em seus últimos anos de vida, continuava a manter uma posição inflexivelmente crítica em relação ao autoritarismo e à ditadura. Quando soube que Arthur José Poerner e eu tínhamos sido forçados ao exílio e estávamos na Alemanha, teve a delicadeza de nos escrever para nos dar apoio moral. Ao voltar ao país, não tive mais ocasião de vê-lo. Sua morte, há 30 anos, nos privou de sua companhia. Se fosse possível retomar o diálogo com ele, tenho idéia de que ele falaria de suas raízes católicas e argumentaria em favor da superioridade do espírito sobre a matéria. Sua convicção inabalável era essa: os valores do espírito acabam preponderando sobre a força bruta. E, desenvolvendo sua tese, o ensaísta católico, nas conversas que tinha com interlocutores marxistas, citaria o exemplo de Gramsci. O espírito do revolucionário italiano não se deixou dobrar pelo cárcere mussoliniano. Carpeaux escreveu: “O pensamento de Gramsci está hoje mais vivo do que no momento da morte de seu corpo. A vida de Gramsci continua”. Fonte: Jornal do Brasil, Idéias&Livros, 12/01/2008.
Leandro Konder é filósofo e autor de numerosa obra. Seu último livro é Sobre o amor (Boitempo, 2007). |


