| A transformação do mundo ou as Onze teses de Marx sobre Feuerbach |
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| Filosofia e Questões Teóricas |
| Ernst Bloch |
| Dom, 06 de abril de 2008 12:20 |
O pensamento para frente já há muito está na ordem do dia e pode ser ouvido. Só os covardes procuram sempre desconversar, e os mentirosos mantêm-se num plano geral. Só eles escondem-se em roupas folgadas ou pedantes, procuram estar sempre em outro lugar que não aquele em que são flagrados. Porém, nem é possível definir suficientemente o verdadeiro, mesmo quando ou justamente quando a coisa ainda está tomando forma diante dos olhos. Graças a esse faro para o essencial, já com a idade de dezenove anos, Marx foi capaz de produzir, na carta ao seu pai que se conservou, teses fundamentais em formulações precisas. Esse tipo busca de início entrar no âmago da questão, nunca desperdiça tempo com o inútil, descarta-o assim que o reconhece como tal. Assim, em tudo o que contempla largamente, em tudo o que pondera longamente, e que se acrescenta ao que tem, ele é capaz de, a cada momento, estar novamente em forma, intervindo e realçando. O que dessa forma pode ser compreendido mostra suas ênfases ao caminhar. Com estas e nestas aguça-se a tração para diante, para que lhe sejam proveitosas até mesmo possíveis digressões. Todavia, também esse indicativo, na sua seqüência, nem sempre pode ser vislumbrado tão rapidamente quanto pode ser citado em sua concisão. Pois a concisão significativa é coerente, razão pela qual oferece menos facilidade no que se refere a encontrar rapidamente uma formulação bem-acabada.A época da composição Assim, o entendimento tem de comprovar-se constantemente frente a frases desse tipo. Em nenhuma parte se pode fazer isso de modo mais renovador do que na coleção compacta de instruções extremamente compactas, conhecidas como as Onze teses sobre Feuerbach. Marx as redigiu em abril de 1845 em Bruxelas, muito provavelmente no embalo dos estudos preparatórios para a Ideologia alemã. As Teses só foram publicadas em 1888 por Engels, como anexo do seu Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Ao fazê-lo, Engels ocasionalmente deu aguns leves retoques estilísticos no texto apenas rascunhado por Marx, obviamente sem a menor modificação do conteúdo. Na observação introdutória ao seu Ludwig Feuerbach, Engels escreve o seguinte sobre as Teses: “Trata-se de notas para posterior elaboração, registradas rapidamente, em absoluto destinadas à impressão, mas inestimáveis como o primeiro documento em que foi depositado o germe genial da nova visão de mundo”. Feuerbach havia conclamado a retornar das puras idéias à contemplação sensorial, do espírito ao homem, incluindo a natureza como a sua base. Como se sabe, essa rejeição tão “humanista” quanto “naturalista” de Hegel (tendo o homem como idéia central, a natureza como prius em vez do espírito) teve uma influência muito forte sobre o jovem Marx. A essência do cristianismo, publicado por Feuerbach em 1841, as suas Teses provisórias sobre a reforma da filosofia, de 1842, os seus Princípios da filosofia do futuro, de 1843, tiveram um efeito tanto mais libertador porque nem a escola dos hegelianos de esquerda conseguiu se libertar de Hegel, antes não foi além de uma mera crítica intra-hegeliana ao mestre do idealismo. “O entusiasmo”, diz Engels restrospectivamente no Ludwig Feuerbach, cerca de cinqüenta anos depois, “foi geral: momentaneamente todos nós éramos feuerbachianos. Com que entusiasmo Marx saudou a nova concepção, e o quanto ele foi influenciado por ela ─, pode ser verificado na leitura de A sagrada família” (Ludwig Feuerbach, Diez, 1946, p. 14). A juventude alemã de então acreditava estar finalmente vendo, em vez de céu, terra, humana, imanente. Entretanto, Marx livrou-se bem depressa dessa visão imanente demasiado vaga da vida humana. Sua atividade na Rheinischen Zeitung [Gazeta Renana] trouxe-lhe contatos muito mais estreitos com questões políticas e econômicas do que tiveram os hegelianos de esquerda e também os feuerbachianos. Justamente esse contato fez com que Marx passasse da crítica da religião, à qual Feuerbach havia se limitado, de modo crescente à crítica do Estado, sim, já da organização social, que determina a forma do Estado ─ como reconhece a Crítica da filosofia do Estado de Hegel (1841-1843). A diferenciação que Hegel faz entre sociedade burguesa e Estado, apontada por Marx, já continha mais consciência econômica do que possuíam seus epígonos, inclusive os feuerbachianos. O distanciamento de Feuerbach ocorreu com todo o respeito e primeiramente apenas como uma correção ou até mera complementação; contudo, a perspectiva social, totalmente nova, está clara desde o início. Assim, no dia 13 de março de 1843, Marx escreve para Ruge: “Os aforismos de Feuerbach apenas num ponto não me parecem corretos, ou seja, pelo fato de ele apontar demais para a natureza e muito pouco para a política. Esta, porém, é o único pacto que levaria a atual filosofia a tornar-se uma verdade” (MEGA I, ½, p. 308). Os Manuscritos econômico-filosóficos, de 1844, ainda contêm uma significativa louvação de Feuerbach, ainda que como contraposição às lucubrações de Bruno Bauer; os Manuscritos louvam, assim, dentre os feitos de Feuerbach, sobretudo a “fundação do materialismo autêntico e da ciência real, quando Feuerbach torna a relação ‘do homem com o homem’ igualmente o princípio básico da teoria” (MEGA I, 3, S. 152). Todavia, os Manuscritos econômico-filosóficos já ultrapassaram Feuerbach muito mais do que dizem. Neles, a relação “do homem com o homem” não permanece uma relação antropológico-abstrata de cunho geral, como em Feuerbach; ao contrário, a crítica da alienação humana em relação a si mesma (transposta da religião para o Estado) já penetra aí no cerne econômico do processo de alienação. Isso ocorre não por último nas passagens extraordinárias sobre a fenomenologia de Hegel, em que é caracterizado o papel do trabalho na formação da história e em que a obra de Hegel é interpretada quanto a esse aspecto. Ao mesmo tempo, porém, os Manuscritos econômico-filosóficos criticam essa obra porque ela concebe a atividade laboral humana apenas como atividade intelectual e não material. A passagem para a economia política, portanto, afastando-se do homem genérico de Feuerbach, acontece na primeira obra empreendida em conjunto com Engels, em A sagrada família, igualmente em 1844. Os Manuscritos econômicos-filosóficos já continham a seguinte tese: “O próprio trabalhador é um capital, uma mercadoria” (loc. cit., p. 103), nada sobrando, portanto, da existência humana segundo Feuerbach, a não ser a sua negação no capitalismo; A sagrada família registrou o próprio capitalismo como fonte dessa alienação mais forte e definitiva. No lugar do homem genérico de Feuerbach, com sua naturalidade abstrata e invariável, surgiu então um conjunto historicamente alternante de relações sociais e sobretudo antagônico quanto à classe social. A alienação, entretanto, englobava as duas: tanto a classe dos exploradores quanto a dos explorados, principalmente no capitalismo, que é a forma mais intensa dessa auto-alienação, dessa objetificação. “Porém”, consta em A sagrada família, “a primeira classe sente-se bem e afirmada nessa alienação de si mesma, está ciente de que a alienação é seu próprio poder e possui dentro dela a aparência de uma existência humana; a segunda sente-se destruída na alienação, vislumbra nela a sua impotência e a realidade de uma existência inumana” (MEGA I, 3, p. 206). Isto comprovou, enfim, que a produção e o modo de troca respectivos, classistas e causadores da divisão do trabalho, em grau extremo os capitalistas, são as fontes da alienação. No mais tardar, a partir de 1843, Marx tornou-se materialista; A sagrada família deu à luz, em 1844, a concepção materialista da história, e com ela o socialismo científico. E as Onze teses, surgidas entre A sagrada família de 1844/1845 e a Ideologia alemã de 1845/46, representam assim a despedida expressa de Feuerbach, juntamente com a tomada de posse de uma herança extremamente original. A experiência empírico-política do período renana somada a Feuerbach deixaram Marx imune contra o “espírito” e mais “espírito” da escola dos hegelianos de esquerda. A posição assumida a partir do proletariado fez com que Marx se tornasse causalmente concreto, ou seja, verdadeiramente (a partir de um fundamento) humanista. Obviamente a despedida em questão aqui não representa uma ruptura completa. As relações com Feuerbach perpassam grande parte da obra de Marx, também após a despedida representada pelas Onze teses. O que está mais próximo da terra que ficou para trás, já por razões temporais, é a Ideologia alemã, que vem imediatamente após as Teses. Diversas versões críticas das Teses retornam nela, sendo que, no entanto, há uma diferença muito grande entre a crítica a Feuerbach e a liquidação impiedosa dos falsos epígonos de Hegel. Feuerbach ainda fazia parte da ideologia burguesa; por isso, a controvérsia com as encarnações decadentes aparentemente radicais originadas dele, como Bruno Bauer e Stirner, necessariamente atingia também a ele na Ideologia alemã. Porém, de tal maneira que o próprio filósofo em parte ainda fornecia o punho da arma conseqüente com que Marx investia contra ele. Mas sobretudo contra os hegelianos de esquerda. Em conformidade com isso, a Ideologia alemã inicia fundamentalmente com o nome de Feuerbach e, tomando como ponto de partida a sua crítica da religião, critica a “superação” meramente intra-idealista do idealismo. “A nenhum desses filósofos ocorreu perguntar pela relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã, pela relação entre a sua crítica e o seu próprio contexto material” (MEGA I, 5, p. 10). Contudo, Marx enfatiza, por outro lado, a “grande preeminência [de Feuerbach] frente aos materialista ‘puros’, no fato de reconhecer que também o homem é um ‘objeto sensorial [sinnlicher Gegenstand]’”. De fato, o referido reconhecimento caracteriza, justamente dessa forma, a importância de Feuerbach para a formação do marxismo, assim como a crítica ao seu homem abstrato, aistórico, aponta o aspecto não-feuerbachiano, sim, antifeuerbachiano do próprio marxismo já desenvolvido. O reconhecimento diz o seguinte: sem considerar o homem igualmente como um “objeto sensorial” teria sido muito mais difícil elaborar no nível materialista o humano como raiz de todas as coisas sociais. O materialismo antropológico de Feuerbach designa assim a transição possível facilitada do materialismo meramente mecânico para o histórico. A crítica diz o seguinte: sem a concretização do humano nos homens realmente existentes, sobretudo socialmente ativos, com relações reais entre si e com a natureza, materialismo e história teriam divergido constantemente, apesar de toda a “antropologia”. Mas nesse ponto Feuerbach continua sempre relevante para Marx, tanto como passagem quanto como o único filósofo contemporâneo com o qual uma controvérsia é possível, esclarecedora e frutífera. Assim, as idéias fundamentais, às quais Marx reage criticamente, as quais ele ultrapassa produtivamente, constam basicamente no escrito principal de Feuerbach intitulado A essência do cristianismo, de 1841. Além disso, entram em cogitação as Teses provisórias sobre a reforma da filosofia, escritas por Feuerbach em 1842, e os Princípios da filosofia do futuro, de 1843. Os escritos anteriores do filósofo dificilmente terão tido alguma importância para Marx, já que, pelo menos até 1839, Feuerbach nada tinha de original, por estar demasiadamente sob a influência de Hegel. Somente a partir de então, Feuerbach aplicou à religião o conceito hegeliano da auto-alienação. Somente a partir de então, o antigo hegeliano disse que sua primeira idéia teria sido Deus, a segunda, a razão, sua terceira e última seria o homem. Isto quer dizer: assim como a filosofia hegeliana da razão superara a fé da Igreja, assim a filosofia colocaria agora o ser humano (incluindo a natureza como sua base) no lugar de Hegel. Não obstante tudo isso, Feuerbach não conseguiu encontrar o caminho até a realidade; ele jogou fora justamente o mais importante em Hegel, o método dialético-histórico. As Onze teses foram as primeiras a indicar o caminho do mero anti-hegelianismo para a realidade passível de transformação, do materialismo da etapa para o da linha de frente. A questão do agrupamento Uma questão antiga e nova ao mesmo tempo é a de como as Teses devem ser agrupadas. Pois assim como estão, destinadas ao entendimento próprio, e não para serem impressas, elas apresentam diversos pontos de interseção. Também trazem o mesmo conteúdo em outra parte, nem sempre permitem discernir a razão do ordenamento e da seqüência. Em vista disso, exigências didáticas deram origem a diversas tentativas de reordenar as Teses conforme seus traços comuns e de classificá-las assim em grupos. Nesse caso, procura-se às vezes manter a seqüência numérica, como se as Onze teses pudessem ser subsumidas uma após a outra, na seqüência em que aparecem. Esse agrupamento fiel à numeração tem, por exemplo, o seguinte aspecto: as teses 1, 2 e 3 encontram-se sob “Unidade de teoria e práxis no pensamento”, as teses 4 e 5 sob “Compreensão da realidade em contradições”, as teses 6, 7, 8 e 9 sob “A própria realidade em contradições”, as tese 10 e 11 sob “Lugar e tarefa do materialismo dialético na sociedade”. Esta é uma ordenação por cifras; como há muitas outras desse tipo e de conteúdo bem distinto uma das outras, resulta que, neste caso, o mero valor numérico significa muito pouco. Cada uma dessas ordenações, por um lado, valoriza demasiadamente a seqüência, fazendo com que esteja gravada por toda a eternidade, como a Lei das Doze Tábuas ou nos Dez mandamentos; por outro lado, trata-a de modo simplório e formalista, como se fosse uma série de selos. A numeração, no entanto, não é sistemática, e Marx é o que menos tem necessidade desse tipo de compensação. Por isso, deve-se agrupar filosófica e não aritmeticamente, isto é, a seqüência das teses é unicamente a de seus temas e conteúdos. Tanto quanto se pode enxergar, ainda não existe nenhum comentário às Onze teses; porém somente com ele, como resultado da própria causa comum, evidencia-se igualmente a coerência que continua a produzir-se, tanto a sua concisão quanto a sua profundidade. Surge, então, em primeiro lugar, o grupo epistemológico, referente à contemplação e atividade (teses 5, 1 e 3); em segundo lugar, o grupo histórico-antropológico, referente à auto-alienação, sua causa real e o verdadeiro materialismo (teses 4, 6, 7, 9 e 10); em terceiro lugar, o grupo sintetizador ou grupo teoria-práxis, referente a comprovação e validação (teses 2 e 8). Por último, segue a tese mais importante, a senha, na qual os espíritos não só se dividem definitivamente, mas com cuja utilização eles deixam de ser meros espíritos (tese 11). O grupo epistemológico é apropriadamente aberto com a tese 5, o grupo histórico-antropológico, com a tese 4; pois essas teses designam as duas teorias fundamentais de Feuerbach, que Marx reconhece relativamente, e as quais ele ultrapassa nas demais teses dos respectivos grupos. A teoria assumida na tese 5 é a da rejeição do pensamento abstrato, na tese 4, a da rejeição da alienação humana. E, em conformidade com o primeiro traço básico da dialética materialista, cuja imagem anuncia-se aqui, há entre as teses individuais dentro do rerspectivo grupo um movimento livre e complementar das vozes; assim como entre os próprios grupos ocorre uma interação constante, um todo único e coerente. [BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Vol I. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ, Contraponto, 2005, p. 246-251] Ernst Bloch (1885-1977), filósofo marxista alemão, é autor de O princípio esperança. |



O pensamento para frente já há muito está na ordem do dia e pode ser ouvido. Só os covardes procuram sempre desconversar, e os mentirosos mantêm-se num plano geral. Só eles escondem-se em roupas folgadas ou pedantes, procuram estar sempre em outro lugar que não aquele em que são flagrados. Porém, nem é possível definir suficientemente o verdadeiro, mesmo quando ou justamente quando a coisa ainda está tomando forma diante dos olhos. Graças a esse faro para o essencial, já com a idade de dezenove anos, Marx foi capaz de produzir, na carta ao seu pai que se conservou, teses fundamentais em formulações precisas. Esse tipo busca de início entrar no âmago da questão, nunca desperdiça tempo com o inútil, descarta-o assim que o reconhece como tal. Assim, em tudo o que contempla largamente, em tudo o que pondera longamente, e que se acrescenta ao que tem, ele é capaz de, a cada momento, estar novamente em forma, intervindo e realçando. O que dessa forma pode ser compreendido mostra suas ênfases ao caminhar. Com estas e nestas aguça-se a tração para diante, para que lhe sejam proveitosas até mesmo possíveis digressões. Todavia, também esse indicativo, na sua seqüência, nem sempre pode ser vislumbrado tão rapidamente quanto pode ser citado em sua concisão. Pois a concisão significativa é coerente, razão pela qual oferece menos facilidade no que se refere a encontrar rapidamente uma formulação bem-acabada.