| Guevara, uma evocação íntima sobre legado do Che |
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| História |
| Rodolfo Walsh |
| WED, 11 de JUNE de 2008 16:12 |
Havana, 11 jun (PL) A altura humana e revolucionária de Ernesto Che Guevara sobressai numa evocação escrita pelo jornalista argentino Rodolfo Walsh a poucos dias do assassinato do mítico guerrilheiro, em outubro de 1967. Sob o título de "Guevara", Walsh oferece um retrato íntimo da personalidade do Che, seu vínculo com a agência Prensa Latina, seu humor incisivo e seu compromisso com as causas sociais do mundo. O jornal Granma reproduziu hoje o mencionado artigo do autor de clássicos do jornalismo, como Operação Massacre, a propósito do aniversário 80 de natalício de Guevara. A continuação, Prensa Latina transmite o texto íntegro de dita evocação, escrita por Walsh uma década antes de cair assassinado por sicários da ditadura militar argentina: Guevara A nostalgia se codifica num rosário de mortos e dá um pouco de vergonha estar aqui sentado em frente de uma máquina de escrever, mesmo sabendo que isso também é uma espécie de fatalidade, mesmo que a gente não se pudesse consolar de que é uma fatalidade que serve para algo. Vejo-o, a Camilo, uma manhã de domingo, voando baixo num helicóptero sobre a praia de Coney Island, assomando-se morto de rir e a multidão que gozava com ele desde abaixo. Ouço-o, ao velho Hemingway, no aeroporto de Rancho Boyeros, dizer essas palavras penúltimas: "Vamos ganhar, nós os cubanos vamos ganhar". E ante minha surpresa: "I'm not a yankee, you know" (eu não sou um ianque, tu o sabes). Interminavelmente vejo Masetti nas madrugadas de Prensa Latina, quando já se tomava mate y se escutavam uns tangos, mas o assunto que voltava era o dessa revolução tão necessária, ainda que hoje se apresente tão dura, tão vestida com o sangue de pessoas que a gente há admirado ou simplesmente gostado. Nunca sabíamos em Prensa Latina quando viria o Che, simplesmente caía sem se anunciar, e o único sinal de sua presença no edifício eram dois “guajiritos” (diminutivo de camponês cubano) com o glorioso uniforme da serra, um estacionava junto ao elevador, outro ante o escritório de Masetti, metralhadora no braço. Não sei exatamente por que davam a impressão de que morreriam por Guevara, e que quando isso ocorresse não seria fácil. Muitos tiveram mais ssorte que eu, conversaram longamente com Guevara. Ainda que não fosse impossível nem sequer difícil, eu me limitei a escutá-lo, duas ou três vezes, quando falava com Masetti. Havia perguntas por fazer, mas não dava vontade de interromper ou quiçá as perguntas ficassem contestadas antes de que alguém as fizesse. Sentia o que ele conta que sentiu ao ver por única vez a Frank País: só poderá precisar neste momento que seus olhos mostravam em seguida o homem possuído por uma causa e que esse homem era um ser superior. Eu lia seus artigos em Verde Olivo, o escutava pela TV: parecia suficiente, porque Che Guevara era homem sem desdobramento. Seus escritos falavam com sua voz, e sua voz era a mesma no papel ou entre dois mates naquele escritório do Retiro Médico. Creio que os havaneiros tardarão um pouco em acostumar-se a ele, seu humor frio e seco, tão portenho, devia cair-lhes como uma ducha. Quando o entenderam, era um dos homens mais queridos de Cuba. Daquele humor se fazia a primeira vítima. Que eu recorde, nenhum chefe de exército, nenhum general, nenhum herói descreveu-se a si mesmo fugindo em duas oportunidades. Do combate de Bueycito, onde se lhe travou a metralhadora frente a um soldado inimigo que o tiroteava desde próximo, diz: "Minha participação naquele combate foi escassa e nada heróica, pois os poucos tiros os enfrentei com a parte posterior do corpo". E referindo-se à surpresa de Altos de Espinosa: "Não fiz nada mais que uma 'retirada estratégica' a toda velocidade naquele encontro". Exagerava ele estas coisas, quando todos sabiam o que acaba de recordar Fidel, que o difícil era sacá-lo do lugar, onde houvesse mais perigo. Dominava sua vaidade como a asma. Nessa renúncia às últimas paixões, estava o germe do homem novo de que falava. Guevara não se propunha como um herói: em todo caso, podia ser um herói à altura de todos. Mas isto, claro, não era certo para os demais. Sua altura era anonadante: resultava mais fácil às vezes desistir que segui-lo, e o mesmo ocorria com Fidel e a gente da Serra. Esta exigência podia colocar-nos em crise, e essa crise tem agora sua forma definitiva, após os episódios da Bolívia. Dito mais simplesmente: nos custa a muitos iludir a vergonha, não de estar vivos —porque não é o desejo da morte, é seu contrário, a força da revolução —, senão de que Guevara haja morrido com tão poucos ao redor. Por suposto, não sabíamos; oficialmente não sabíamos nada, mas alguns suspeitávamos, temíamos. Fugimos lentos, culpados? Inútil já discutir a coisa, mas esse sentimento que digo está, ao menos para mim, e talvez seja um novo ponto de partida. O agente da CIA que segundo a agência Reuters cutuvelou e peitou a cem jornalistas que em Vallegrande pretendiam ver o cadáver, disse uma frase em inglês: "All right, get the hell out of here" (está bem, vai para o inferno daqui). Esta frase com seu selo, sua impressão, sua marca criminosa, fica proposta para a história. E sua necessária réplica: alguém cedo ou tarde irá para o caralho deste continente. Não será a memória do Che. Que agora está espalhado por cem cidades entregue ao caminho daqueles que não o conheceram. |



Havana, 11 jun (PL) A altura humana e revolucionária de Ernesto Che Guevara sobressai numa evocação escrita pelo jornalista argentino Rodolfo Walsh a poucos dias do assassinato do mítico guerrilheiro, em outubro de 1967.