| Marighella: vida e ação criadoras |
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| História |
| Joaquim Câmara Ferreira |
| Sáb, 20 de setembro de 2008 18:37 |
A publicação de alguns trabalhos de Carlos Marighella constitui, a nosso ver, não só uma homenagem ao homem que mais contribuiu a dar um novo rumo ao movimento revolucionário brasileiro, como também uma contribuição ao esforço de quantos se empenham, particularmente na América Latina, em seguir os exemplos dos povos cubano e vietnamita, empunhando as armas que a reação conseguiu arrebatar das mãos do Che Guevara e, agora, do próprio Marighella.Nos livros, folhetos e documentos que escreveu desde 1964, nem tudo é original. Neles encontramos muito do que já foi dito por Lênin, Mao Tse Tung, Ho Chi Min, Fidel Castro, Che Guevara e tantos outros. Mas tampouco se trata de copia. Marighella procura aplicar à realidade brasileira as verdades universais expressadas nas idéias dos grandes líderes das lutas emancipadoras de todos os tempos. E deduz, da analise das condições físicas, econômicas e sociais do Brasil, novos e originais elementos. "A ortodoxia é coisa de religião, e da velha religião", costumava dizer. A preocupação permanente em fazer a Revolução é o que levou o homem que dedicou toda sua vida à causa do socialismo a elaborar uma nova estratégia global para a luta de libertação dos brasileiros. Para ele, a expressão "o dever de todo revolucionário é fazer a revolução", ao contrário de constituir uma tautologia, tinha um sentido muito profundo. Todos os sacrifícios que fez, década após década, fê-los pela revolução. Porém, quando sentiu que os homens da organização a que pertencia se obstinavam na aplicação de fórmulas gastas, insistiam em manter a luta em estreitos limites táticos "até que sejam criadas as condições objetivas e subjetivas para a revolução", compreendeu que tinha chegado o momento para uma mudança radical. Para ele, as condições objetivas para a Revolução estão criadas há muito tempo, resultado da própria ação do imperialismo e do sistema de propriedade da terra. O golpe de 64 colocou em evidência essa realidade ao criar uma situação na qual se fecharam as válvulas de escape da democracia burguesa. A Revolução estava, portanto, na ordem do dia. Era preciso elaborar uma estratégia global a partir da premissa da necessidade da luta armada; traçar o caminho da guerrilha rural e urbana; atacar os centros nervosos da ditadura; atacar onde quer que se encontrem os norte-americanos e os gorilas. Essa seria a tarefa dos revolucionários que, com seu exemplo, mobilizariam e arrastariam à luta, contingentes crescentes de operários, estudantes, camponeses e gente do povo em geral. Essa sua visão e também a justa compreensão de que a luta de libertação dos povos da América Latina é uma só, e de que na batalha pela emancipação nacional e pela construção do socialismo os latino-americanos terão que unificar seus esforços — tal como no século passado na luta pela independência política — foi o que o levou a participar da conferência da Organização Latino-americana de Solidariedade — OLAS. Seus pronunciamentos de então, através da Rádio Havana-Cuba e da imprensa cubana, repercutiram profundamente no Brasil. Ele se dirigiu diretamente aos revolucionários e ao povo. Limitar a luta ao âmbito partidário seria condená-la à esterilidade das discussões intermináveis dos documentos fastidiosos e, finalmente, ao fenecimento da esperança. Além disso, a esquerda brasileira está atomizada. São vinte ou trinta organizações, todas elas pretendendo ser "o partido" ou a "vanguarda". A criação burocrática de mais uma organização a nada conduziria. Era necessário inverter os termos do problema. Um programa geral, estratégico e tático, já havia sido apresentado nos documentos aprovados pela conferência da OLAS, que sintetizavam as melhores experiências da luta libertadora dos povos da América Latina; suas conclusões coincidiam com o pensamento que amadureceu nos companheiros que tinham se rebelado dentro do PCB e em numerosos revolucionários de outras origens. O essencial era a ação. "A ação faz a vanguarda", proclama então Marighella. E a direção? A direção é a guerrilha, é o comando guerrilheiro. O comando operativo se confundirá com o comando político-militar. Concentra-se então no estudo da realidade física do Brasil e das experiências das lutas guerrilheiras do passado. País de proporções continentais, não existem no Brasil montanhas muito altas nem florestas muito densas nas zonas relativamente habitadas. Existem, porém, grandes rios e grandes extensões que proporcionam condições para rápidos deslocamentos. O importante seria fugir ao cerco estratégico das Forças Armadas concentradas na área do litoral e conhecer profundamente toda a configuração — estradas, caminhos, acidentes geográficos, etc. —, das zonas onde os grupos guerrilheiros terão de atuar. Do triângulo de sustentação — Guanabara, São Paulo, Belo Horizonte — partem os "eixos guerrilheiros", apontando ao "coração" do Brasil. Porém nem a guerrilha estará limitada ao "coração do Brasil", nem o triângulo de sustentação terá que se preocupar somente em fornecer-lhe armas, dinheiro, técnicos, medicina, etc. A guerrilha terá que se espraiar por todo o Brasil e o poder da ditadura terá que ser desafiado também nos centros vitais do país. A guerrilha urbana e rural, a sabotagem nas cidades e no campo, a ação dos pequenos grupos e a ação das massas, esta é a estratégia global da qual Marighella não faz segredo e expõe, até detalhadamente, a todos os revolucionários com quem entra em contato. E isso, não para fazer proselitismo, para colocá-los sob seu comando, mas sim para estimulá-los à ação. Os grupos revolucionários podem unir-se ou atuar separadamente, manter ou não vínculos entre si. O essencial é a ação. Essa é a que despertará a energia revolucionária de nosso povo, a que determinará a formação de um caudal de lutas que nada poderá deter. Isso é o que unirá realmente a todos os revolucionários, isso é o que fará surgir os comandantes. A vanguarda será a guerrilha, porém os comandantes serão pessoas de carne e osso que se revelarão no processo de luta e que não poderão ser nomeados por decreto nas cidades. Também a esse respeito ele gostava de recordar o exemplo de Virgulino Ferreira (Lampião), o chefe cangaceiro que durante décadas lutou em seis estados do Nordeste. Inicialmente o chefe do grupo era seu irmão, talvez por ser mais velho. Foram os dons de comandante de Lampião que fizeram que se tornasse o chefe reconhecido e acatado por todos. Foi partindo dessas idéias básicas, e ao mesmo tempo partindo do zero em termos de armas, recursos financeiros e quadros treinados, que ele iniciou a ação em 1968. De um lado, conjuntamente com outros poucos, trata de conhecer o que chama de "o coração" do Brasil, de entrar em contato com os camponeses, de estudar suas reações e sua disposição de luta. De outro, agrupa em torno de si uns tantos homens e inicia as ações de expropriação. Pessoalmente vai aos bancos em busca dos recursos indispensáveis para financiar o plano revolucionário. Surgem assim outros quadros, acumulam-se algumas armas, diversificam-se as ações. O anonimato se mantém, não obstante, durante muitos meses. A polícia fareja, mas não tem segurança sobre o verdadeiro sentido dos repetidos assaltos a bancos e atos de sabotagem, nem sabe quem os dirige. Ao mesmo tempo outros grupos revolucionários passam à ação e isso é positivo porque aumenta seu volume ao mesmo tempo em que desorienta a polícia. Porém, em novembro 1968 a polícia da Guanabara consegue certificar-se de que o assalto a um carro transportador de dinheiro foi dirigido por Marighella e de que ele esteve no lugar da ação. Sua cabeça é colocada a prêmio e é declarado "inimigo público número um". Manchetes dos jornais, fotografias de páginas inteiras, capas de revistas, cartazes, emissoras de rádio e televisão cobrem todo o país. As versões são todas deformadas, porém, os brasileiros, acostumados à censura e ao noticiário oficial, já aprenderam a ler os jornais ao contrário. Interpretam justamente que existe uma atuação revolucionária concreta e que é possível atuar contra a ditadura. Por isso mesmo Marighella dizia que aquele assalto não havia produzido somente 120 milhões de velhos cruzeiros para os fundos revolucionários, mas sim cinco bilhões e 120 milhões de cruzeiros velhos. Pois os técnicos em publicidade estimaram em mais de cinco bilhões o preço que custaria tanta publicidade nos veículos de difusão capitalista. De toda maneira, as ações prosseguem e o movimento, a essa altura, já tinha crescido e se havia expandido por várias regiões do País. Era necessário consolidá-lo em uma organização. Daí o surgimento da Ação Libertadora Nacional. O documento "Questões de Organização" assinala que a organização terá uma frente de massas, dedicada fundamentalmente ao trabalho nas fábricas, bairros, escolas, fazendas, etc., partindo das reivindicações imediatas, mas sempre com uma perspectiva geral revolucionária. A essa "frente" cabe convencer as massas, tanto através da propaganda como da sua própria experiência, da necessidade da luta armada e guerrilheira. A frente de sustentação, ou logística, deve agrupar os companheiros capazes de contribuir à satisfação direta das necessidades da ação armada e guerrilheira. A frente guerrilheira esta constituída pelos Grupos Táticos Armados — GTA — nas cidades e os homens empenhados em ações parciais no campo. Finalmente, os companheiros empenhados na preparação concreta da guerrilha rural ficam diretamente ligados ao que se acordou chamar trabalho estratégico. Marighella insiste sobre as medidas indispensáveis de segurança e sobre a necessidade de uma intensa ação de agitação e propaganda — armada e não armada — com vistas ao esclarecimento das massas. Ao mesmo tempo, a Ação Libertadora Nacional não pretende ser "o Partido" nem "a Vanguarda". Ela não surge através de um processo eleitoral, de reuniões e congressos, mas da própria ação. Sua direção é constituída pelos companheiros que mais se destacaram nas diferentes frentes de trabalho, particularmente na frente guerrilheira. Por isso mesmo não se trata de um conjunto cristalizado e regido pelo "centralismo democrático". A vanguarda surgirá efetivamente com o desencadeamento da luta armada no campo, da guerrilha rural e sua transformação em uma prolongada guerra de libertação. Constituíamos um grupo revolucionário e havia outros. Não pretendíamos ser os donos da revolução, mas somente cumprir com nossa obrigação revolucionária. O que nos interessava, e por isso interessava ao movimento revolucionário brasileiro, era que todas as organizações passassem à ação. Elas se somariam sempre em benefício da revolução e facilitariam a aproximação das diversas organizações no processo da ação. Quando for necessário serão realizadas ações concretas comuns, porém, devemos evitar que as organizações se mesclem e surja o risco de serem descobertas pela polícia em caso de prisões. Como se sabe, ações desse tipo têm sido realizadas (por exemplo o seqüestro do embaixador norte-americano e, recentemente, do embaixador alemão) e propiciaram uma aproximação mais estreita entre as organizações. Foi quando adotava as últimas medidas para garantir a segurança de numeroso grupo de companheiros (Marighella sempre se preocupava mais pela segurança dos outros que da sua própria) e se dispunha a iniciar a luta no campo que Marighella caiu. Há ainda quem pergunte se a ação prosseguirá depois de um golpe tão sério como o assassinato do principal dirigente da organização, do homem que mais contribuiu à mudança de qualidade no movimento revolucionário brasileiro. Porém, o próprio Marighella tinha muita clareza sobre isso. Respondendo a um jornalista francês da revista Front, em outubro de 1969, que lhe perguntou se ele mesmo conduziria ao final o processo que iniciara, disse: "Não se trata disso. A revolução não depende de pessoas, pois é uma questão do povo e de sua vanguarda. A parte que me toca foi dar o início. Nossa organização está integrada, em sua maioria, por companheiros de menos de 25 anos de idade. Cabe aos melhores entre eles assumir a direção. Um deles empunhará minha bandeira, ou, se você preferir, meu fuzil".Em mensagem enviada aos quinze patriotas libertados em troca do embaixador norte-americano, expressa uma vez mais sua profunda confiança na continuidade, desenvolvimento e vitória da luta de seu povo: "O povo brasileiro começou sua caminhada. E avança decidido, ombro a ombro com os povos latino-americanos, com os olhos voltados para a revolução cubana, símbolo do triunfo do movimento revolucionário armado".Naquela noite fatídica de quatro de novembro, os esbirros da ditadura cortaram a vida de um grande líder revolucionário, porém, longe de sufocar a Revolução, deram uma vibração ainda maior ao chamado à luta que foi toda sua vida. O nome de Carlos Marighella se inscreve hoje com honra ao lado dos nomes de Che Guevara e de centenas de outros heróis da luta pela liberdade, pela independência, por um futuro feliz para a humanidade. Seu exemplo continuará iluminando a luta libertadora dos brasileiros que saberão vingá-lo com a própria revolução. Joaquim Câmara Ferreira Pela direção da Ação Libertadora Nacional Novembro de 1969
[MARIGHELLA, Carlos. Carlos Marighella. Prólogo de Joaquim Câmara Ferreira. Havana: Tricontinental, 1970, p. 9-20] Fonte: Arquivo Marxista na Internet Joaquim Câmara Ferreira (1913-1970), o Toledo, foi comandante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN). Vereador em Jaboticabal pelo PCB e jornalista, Toledo dedicou sua vida à causa da libertação do povo brasileiro. Entrou para o Partido Comunista em 1933. Foi diretor de diversos jornais do Partido e, em 1937, quando do golpe de Getúlio Vargas, passou a atuar de forma clandestina, concentrando seu trabalho fundamentalmente no setor ferroviário. Esteve por vários anos preso, tendo sido torturado pelo DOPS paulista. Sua prisão se deu na gráfica do Partido, onde se encontrava trabalhando. Dessa época, teve como seqüela da tortura, a inexistência de unhas nas mãos. Em 1946, elegeu-se vereador em Jaboticabal, cidade do interior de São Paulo. Mas no ano seguinte, com a cassação do registro eleitoral do PCB, perdeu seu mandato. Em 1948, viajou para a União Soviética para realizar estudos sobre política. Em 1953, Toledo atuou de forma destacada na greve geral em São Paulo. Chegou a ser também vogal da Justiça do Trabalho. Em 1964, foi preso pelos órgãos policiais por realizar uma palestra para operários, em São Bernardo do Campo, sobre “O papel da Imprensa na luta pelas reformas de base”, sendo libertado pouco depois. Foi condenado, à revelia, pela ditadura militar, a 2 anos de reclusão. Em 1967, foi um dos principais signatários do “Manifesto do Agrupamento Comunista de São Paulo” - que tornou-se o embrião da ALN. Em novembro de 1969, quando do assassinato de Marighella, encontrava-se em Cuba. De imediato, retornou ao Brasil, assumindo o comando da ALN. Transitava com certa tranqüilidade pelas ruas de São Paulo, pois suas fotos nos órgãos repressivos eram antigas. Nos apartamentos de militantes que lhe davam abrigo, devido à clandestinidade, preparava saborosos carreteiros - sua especialidade. Foi preso no dia 23 de outubro de 1970, na Av. Lavandisca, Bairro de Indianópolis, São Paulo, por volta de 19 horas. Do local de sua prisão, Câmara foi levado, já sob torturas, para o sítio clandestino do delegado Sérgio Fleury. No sítio, continuou sendo torturado, morrendo algumas horas após sua prisão. Antes de morrer, Câmara foi atendido por um médico trazido pelo delegado Fleury, que o queria vivo para torturá-lo por mais tempo e ter a chance de tentar arrancar-lhe alguma informação. A presa política Maria de Lourdes Rego Melo é testemunha de que Joaquim Câmara Ferreira foi preso vivo e levado ao sítio clandestino do delegado assassino, e que a sua morte se deu como conseqüência da violência das torturas. Fonte: Grupo Tortura Nunca Mais / RJ Carlos Marighella (1911-1969) aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista. Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor da Bahia. Em 1932 muda-se para o Rio de Janeiro. Em 1o de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia. Permaneceu encarcerado por um ano sendo solto pela “macedada” – nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação. Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio Vargas. Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia. Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou contra os comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato. Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella voltaria suas reflexões em direção ao problema agrário, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Após o golpe militar de 1964, Marighella foi novamente preso. Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1º de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata. Desse momento em diante, intensificou o combate à ditadura utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a consolidação de um regime ilegal e ilegítimo. Na ocasião, Carlos Marighella aprofundou as divergências com o Partido Comunista, criticando seu imobilismo. Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN – Ação Libertadora Nacional para, de armas em punho, enfrentar a ditadura. Na noite de 4 de novembro de 1969, surpreendido por uma emboscada, Carlos Marighella tombou varado pelas balas dos agentes da repressão. Fonte: sítio Marighella - http://www.carlos.marighella.com.br/ |



A publicação de alguns trabalhos de Carlos Marighella constitui, a nosso ver, não só uma homenagem ao homem que mais contribuiu a dar um novo rumo ao movimento revolucionário brasileiro, como também uma contribuição ao esforço de quantos se empenham, particularmente na América Latina, em seguir os exemplos dos povos cubano e vietnamita, empunhando as armas que a reação conseguiu arrebatar das mãos do Che Guevara e, agora, do próprio Marighella.
Joaquim Câmara Ferreira (1913-1970), o Toledo, foi comandante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN). Vereador em Jaboticabal pelo PCB e jornalista, Toledo dedicou sua vida à causa da libertação do povo brasileiro. Entrou para o Partido Comunista em 1933. Foi diretor de diversos jornais do Partido e, em 1937, quando do golpe de Getúlio Vargas, passou a atuar de forma clandestina, concentrando seu trabalho fundamentalmente no setor ferroviário. Esteve por vários anos preso, tendo sido torturado pelo DOPS paulista. Sua prisão se deu na gráfica do Partido, onde se encontrava trabalhando. Dessa época, teve como seqüela da tortura, a inexistência de unhas nas mãos. Em 1946, elegeu-se vereador em Jaboticabal, cidade do interior de São Paulo. Mas no ano seguinte, com a cassação do registro eleitoral do PCB, perdeu seu mandato. Em 1948, viajou para a União Soviética para realizar estudos sobre política. Em 1953, Toledo atuou de forma destacada na greve geral em São Paulo. Chegou a ser também vogal da Justiça do Trabalho. Em 1964, foi preso pelos órgãos policiais por realizar uma palestra para operários, em São Bernardo do Campo, sobre “O papel da Imprensa na luta pelas reformas de base”, sendo libertado pouco depois. Foi condenado, à revelia, pela ditadura militar, a 2 anos de reclusão. Em 1967, foi um dos principais signatários do “Manifesto do Agrupamento Comunista de São Paulo” - que tornou-se o embrião da ALN. Em novembro de 1969, quando do assassinato de Marighella, encontrava-se em Cuba. De imediato, retornou ao Brasil, assumindo o comando da ALN. Transitava com certa tranqüilidade pelas ruas de São Paulo, pois suas fotos nos órgãos repressivos eram antigas. Nos apartamentos de militantes que lhe davam abrigo, devido à clandestinidade, preparava saborosos carreteiros - sua especialidade. Foi preso no dia 23 de outubro de 1970, na Av. Lavandisca, Bairro de Indianópolis, São Paulo, por volta de 19 horas. Do local de sua prisão, Câmara foi levado, já sob torturas, para o sítio clandestino do delegado Sérgio Fleury. No sítio, continuou sendo torturado, morrendo algumas horas após sua prisão. Antes de morrer, Câmara foi atendido por um médico trazido pelo delegado Fleury, que o queria vivo para torturá-lo por mais tempo e ter a chance de tentar arrancar-lhe alguma informação. A presa política Maria de Lourdes Rego Melo é testemunha de que Joaquim Câmara Ferreira foi preso vivo e levado ao sítio clandestino do delegado assassino, e que a sua morte se deu como conseqüência da violência das torturas.
Carlos Marighella (1911-1969) aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista. Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor da Bahia. Em 1932 muda-se para o Rio de Janeiro. Em 1o de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia. Permaneceu encarcerado por um ano sendo solto pela “macedada” – nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação. Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio Vargas. Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia. Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou contra os comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato. Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella voltaria suas reflexões em direção ao problema agrário, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Após o golpe militar de 1964, Marighella foi novamente preso. Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1º de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata. Desse momento em diante, intensificou o combate à ditadura utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a consolidação de um regime ilegal e ilegítimo. Na ocasião, Carlos Marighella aprofundou as divergências com o Partido Comunista, criticando seu imobilismo. Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN – Ação Libertadora Nacional para, de armas em punho, enfrentar a ditadura. Na noite de 4 de novembro de 1969, surpreendido por uma emboscada, Carlos Marighella tombou varado pelas balas dos agentes da repressão.