| O Canto do Curió Famigerado |
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| História |
| Paulo Henrique Costa Mattos |
| SUN, 18 de Maio de 2008 09:36 |
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No Brasil ao contrário do que acontece na Argentina, onde a Lei de Anistia está sendo revista para que torturadores, genocidas e violadores dos direitos humanos sejam julgados por seus crimes, bandidos confessos do regime militar viram celebridades, escritores, prefeitos e figuras de destaque do cenário nacional. Um exemplo disso é o famigerado carrasco da Guerrilha do Araguaia ex-capitão do Exército e atual prefeito de Curionópolis (PA), Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido por Major Curió. Esse assassino confesso de dezenas de jovens, trabalhadores e moradores da região do Araguaia, onde se desenvolveu aquele fato histórico mais uma vez está no centro das atenções da mídia. Primeiro porque teve seu mandato de prefeito de Curionópolis (sim a cidade tem seu nome!) cassado por abuso do poder econômico, segundo porque resolveu falar o que sabe sobre os crimes praticados pelo Exercito Brasileiro na região. Sebastião Rodrigues de Moura é hoje o arquivo vivo militar mais importante da Guerrilha do Araguaia. Isso porque além de ter participado das atrocidades cometidas contra a população local, ter matado pessoalmente diversos guerrilheiros, enterrado seus corpos, torturado homens e mulheres indefesos e se transformado no criminoso mais notório e conhecido daqueles acontecimentos, agora resolveu falar o que sabe, inclusive desmentindo a farsa do Exército brasileiro de que não há documentos sobre a Guerrilha do Araguaia e de que não há como identificar os restos mortais de mais de cinqüenta militantes desaparecidos, deste aquele época. O famigerado Curió abriu o bico recentemente numa entrevista dada ao Jornal do Brasil, em 29-04-2008, afirmando: "Estou abrindo o jogo. Não há desaparecidos". Segundo o mesmo o que há verdadeiramente é uma farsa montada pelos militares para esconder a verdade sobre os fatos e deliberadamente impedir o acesso aos restos mortais dos militantes e moradores da região extermíninados pelos militantes. Segundo Curió, “é mentira que seus corpos teriam sido queimados na Serra das Andorinhas em 1975. Seus corpos foram transladados para mais de um local” – diz ele. Uma de suas declarações mais bombásticas e surpreendentes na entrevista exclusiva dada ao jornalista Vasconcelo Quadros, do Jornal do Brasil, é a de que o esqueleto desenterrado do Cemitério de Xambioá (TO) e supostamente identificado em 1996 como sendo da professora guerrilheira Maria Lucia Petit da Silva, conhecida na região como Maria, não é o dela. Curió afirma saber onde está sepultado o corpo da verdadeira guerrilheira. Segundo ele, desenterraram a pessoa errada. A jovem Maria Lúcia Petit, era uma professora normalista, que havia concluído seus estudos em 1968, no Instituto de Educação Fernão Dias, na capital paulista. Como havia se destacado por sua ativa participação no movimento estudantil secundarista acabou sendo recrutada pelo PCdoB em 1970, com apenas 20 anos, foi deslocada para a região de Caianos, no Araguaia, onde se transformaria numa professora querida por muitos e onde até hoje é lembrada com simpatia dos moradores da localidade. Com o início da guerrillha e do cerco montado pelo Exército Maria Lúcia foi morta no mês de junho de 1972. O suposto esqueleto da jovem guerrilheira de 22 anos, assassinada pelo Exército com um tiro na cabeça, foi enterrado em Bauru, cidade do interior de São Paulo, em solenidade patrocinada pelo PCdoB, mas segundo o Curió, ao contrário de todos os registros, os restos mortais não pertencem à jovem professora Maria Lucia Petit da Silva. O corpo de Maria Lúcia foi identificado pelo legista Fortunato Badan Palhares, da Universidade de Campinas, por antropologia e através de informações de ex-guerrilheiros que com ela conviveram no Araguaia. Segundo o PCdoB e a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), era a única militante do PCdoB que desapareceu no Araguaia entre 1972 e 1975 que havia sido identificada. Mas o falante Curió na reportagem do JB desafiou: "Cadê o DNA?" Afirmando que sabe que o corpo escavado no cemitério de Xambioá não é o da professora. Curió garante que é um equívoco, pois afirmou ter em mãos o registro de nomes, circunstâncias de morte e destino dos 59 guerrilheiros desaparecidos. Curió parece de divertir com as informações que tem e afirmou que os relatórios secretos que as Forças Armadas dizem terem sido destruídos foram guardados por ele, que agora entregou ao jornalista do Jornal do Brasil, que deve lançar em agosto um livro sobre a guerrilha, amparado em suas revelações. Como uma ave de mal agouro o inescrupuloso Curió afirmou: "As pessoas vão saber como morreram e onde foram parar os comunistas do PCdoB. Meu relato é verdadeiro. Até agora, por desconhecimento ou má-fé, espalharam versões fantasiosas. Assim que começarem a ler, esquerda e direita concordarão que é verdade” – afirmou. Que o canto dessa ave de rapina finalmente traga a verdade e ajude a montar o pedaço do quebra cabeça da história do Brasil que falta e assim termine a agonia de dezenas de famílias que ainda não puderam sepultar seus mortos e viver em paz. Paulo Henrique Costa Mattos é professor de sociologia da UNIRG e editou o livro Vida Vermelha, sobre a história da esquerda no Brasil e a Guerrilha do Araguaia (Gurupi) |


