1968, da utopia ao desencanto PDF Imprimir E-mail
História
Milton Temer   
Dom, 18 de maio de 2008 10:08
É Eric Hobsbawn quem conta: estava em Paris, numa comemoração do sesquicentenário do nascimento de Karl Marx, em reunião que “propiciava a representantes de PCs de todo mundo alguns dias de turismo subsidiado”.

Simultaneamente ao convescote promovido pela Unesco, os estudantes ocupavam as ruas de Paris em manifestações gigantescas. Era maio de 68.

O que chocou Hobsbawn não foi o fato de o encontro não se interromper para acompanhar ao vivo o que ocorria na capital da França. Pior foi constatar que, por influencia dos burocratas tediosos que compunham as delegações do Leste europeu, o encontro não cogitou sequer de uma resolução de apoio aos manifestantes.

Evidentemente que, dos vetustos PCs do chamado “socialismo real”, pouco se poderia esperar. O período Brejnev, caracterizado como de profunda estagnação material e intelectual na União Soviética, não tinha nenhum interesse em criar óbices com os governos conservadores da Europa capitalista. Intrigante foi a omissão do influente Partido Comunista Francês, importante não só por sua significativa expressão eleitoral, mas, e fundamentalmente, pelo controle que exercia sobre a principal central sindical – a temida CGT.

Antes de tudo, e até como importante fator a considerar, a desconfiança do PCF em relação ao movimento tinha base concreta. Era absolutamente indefinido, do ponto-de-vista ideológico, o caráter das movimentações surgidas a partir de um localizado protesto na Universidade de Nanterre, sem que lhe faltasse traços acentuados de anticomunismo explícito.

Mais ainda, a influência teórica predominante era de Herbert Marcuse, com a atraente formulação introdutora do conceito de “sociedade unidimensional”. Ou seja; que não se esperasse da classe operária nem de seus sindicatos nenhum tipo de contestação revolucionária do regime, tendo em vista a sua acomodação subalterna a partir do boom econômico do pós-guera e do welfare state dele resultante. Criava-se o terreno para a supervalorização dos segmentos isolados, fragmentados, sem objetivo centrado de transformação social – “não sabemos o que queremos. Sabemos o que não queremos”, decretava Cohn-Bendit em entrevista a Sartre. Eram os estudantes oriundos da classe média que não tinham nada a perder, por nada porem em risco. O proletariado já tinha.

Mas nada disto absolvia o PCF de uma reflexão mais profunda sobre a gravidade da crise que se abateu sobre o regime capitalista francês, principalmente quando De Gaulle viu-se obrigado a correr atrás do apoio de Massu, general reacionário que comandava as tropas francesas na Alemanha ainda ocupada. Preferiu não arriscar passos mais avançados, principalmente depois da greve geral que o País viveu, com apoio popular. Vislumbrou apenas a possibilidade de vitória eleitoral com a queda parlamentar do governo conservador. Na busca do restabelecimento de um novo Front Populaire pela via eleitoral, o PCF pode ter se subtraído a um momento decisivo para transformações profundas na França.

Contexto Brasileiro de 68

Distinta, completamente, tem que ser a avaliação da realidade brasileira, com a movimentação estudantil a partir do assassinato de Edson Luis, por ocasião da defesa do Restaurante popular do Calabouço.

A esquerda não se recuperara da derrota profunda do golpe de 64, quando trabalhadores urbanos e camponeses tiveram suas organizações representativas completamente destroçadas. Não havia representação partidária capaz de aglutinar a sociedade para algo mais do que uma luta por liberdades democráticas. Mas havia um amplo espaço para as vanguardas dissidentes do PCB aproveitassem o que não passava de um movimento de jovens estudantes, apoiado por uma intelectualidade que, grosso modo, continham-se em suas reivindicações puramente antiditatoriais, para propor experiências de ruptura revolucionárias, calcadas no clima internacional. Era o tempo de gestas heróicas, principalmente com a vitória dos vietnamitas contra o poderoso exército norte-americano, e a explosão de movimentos contestatórios por todos os países capitalistas mais importantes – terreno fértil para a imposição da palavra-de-ordem “só a luta armada derruba a ditadura” sobre a racional “só o povo organizado derruba a ditadura”, reivindicada basicamente pelos pouco prestigiados membros e simpatizantes do PCB.

A conseqüência imediata não tardou: da majestosa Passeata dos 100 mil, passamos para os enfrentamentos urbanos diretos, entre jovens combativos militantes, cada vez mais reduzidos em efetivos, e PMs armados, sem peias para a aplicação de medidas violentas de repressão. Daí ao AI-5, o salto foi curto, com a institucionalização da tortura contra os que passaram ao confronto direto através da guerrilha urbana, isolada e desconsiderada por um novo proletariado que se instalava em São Paulo, no veio da modernização conservadora do “milagre econômico”. Um proletariado influenciado pelo clima do “Prá frente Brasil”, retratado nos carros nacionais inundados com os plásticos do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Um proletariado que vinha na sua condição de classe uma ascensão em relação ao passado de miséria rural, no campo de onde imigraram. Um proletariado que, mesmo hoje, por uma de suas lideranças de então; o ex-sindicalista Luiz Inácio, ora na presidência da República, faz referências nostálgicas ao regime ditatorial.

O que ficou? Pouco, além de mexidas no comportamento individual da classe média. Do sacrifício heróico de jovens supliciados pela ditadura, não nasceu nenhum patrimônio teórico consistente. Pelo contrário; dos nomes e lideranças sobreviventes àqueles momentos heróicos, muito poucos se mantiveram – no Brasil e no mundo – fiéis aos sonhos utópicos que propunham, e pelo qual arriscaram suas vidas. Boa parte, inclusive, se ajustou, transformando-se em excepcionais agentes apaziguadores dos potenciais segmentos sociais interessados numa revolução socialista e libertária.

Evidentemente, o descenso não é irreversível. Há cem anos, o fim do embate entre esquerda e direita era decretado por conta do recuo brutal das lutas na Europa, no período anterior à Primeira Guerra Mundial. Foi Alain, um pensador francês, que constatou: “Toda vez que ouço tal absurdo, verifico que quem o emite é sempre alguém de direita”. O dito continua valendo.

Milton Temer
é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e presidente da Fundação Lauro Campos.