40 Anos de 68: Relembrar, Celebrar e Entender PDF Imprimir E-mail
História
Jean Marc von der Weid / Carlos B. Vainer   
Sex, 04 de janeiro de 2008 18:19

Celebrando os quarenta anos de meia-oito, e em resposta aos ataques furibundos da direita ─ que, não contente em decretar o fim da história, ainda quer borrar o passado ─, reproduzimos artigo de Jean Marc, ex-presidente da UNE, e Carlos Vainer, professor da UFRJ, sobre o ano que se tornou inesquecível.

O artigo de Elio Gaspari sobre os "saudosistas de 68", publicado em 26 de dezembro, coloca em debate muito mais do que uma avaliação pessoal sobre um ano que "teria sido melhor que não tivesse existido". Tomemos o texto, pois, como um convite para refletir acerca do papel da memória coletiva, do passado re-lembrado e re-construído.

As disputas sobre o significado do passado têm como objeto real os embates do presente e o que nos dizem a respeito da construção do futuro. Desde sempre se lançaram as elites ao apagamento da memória da luta social. Não por acaso, recentemente, na França, às vésperas das eleições, o hoje presidente Sarkozy convocava: "a questão é se a herança de 1968 deve ser perpetuada ou deve ser liquidada de uma vez por todas".

Gaspari sentencia: 68 "atrapalhou" a história. E nos "ensina" que a luta democrática contra as ditaduras jogou água no moinho autoritário e que a luta contra a agressão imperialista no Vietnã levou ao massacre promovido pelos khmers vermelhos no Cambodja. Advertência e lições para os jovens de hoje: fiquem quietos, não lutem, que a emenda pode ser pior que o soneto!

Desmoralizar, ridicularizar, enterrar, liquidar memórias ... para desmoralizar, ridicularizar, enterrar e liquidar esperanças, projetos sociais e históricos, é disso que se trata. Reescrever a história para tentar recolocar no lugar o que foi desarrumado por aqueles jovens abusados e radicais de 68. Então agora está combinado: os milhões de jovens, e não tão jovens assim, que foram às ruas em Paris e São Francisco, Praga e Rio de Janeiro, Estocolmo e México, entoar seus hinos à liberdade, que clamaram por justiça, por paz e por igualdade eram os autoritários e destrutivos ... não as ditaduras que combatiam, não as guerras que denunciavam.

Vivíamos, no nosso 1968, o quarto ano de uma ditadura militar que acabou se prolongando por um tempo àquela época inimaginável. A luta pela liberdade e pela igualdade que se espalhava pelo mundo ganhava, entre nós, dimensões particulares, e, por certo, mais dramáticas. Sentimentos libertários, utopias revolucionárias, revolução sexual, rock, música de protesto, redescoberta da música popular, cinema novo, modas e modos hippies, no Brasil tudo isso adquiria um novo e particular sentido na luta contra a ditadura militar.

E se 68 continua incomodando passados 40 anos, mais ainda incomodou os poderosos da época. Por seu caráter inovador, abrangente e maciço, a onda de lutas e manifestações, políticas e artísticas, culturais e comportamentais, pegou de surpresa as forças tradicionais, tanto de esquerda quanto de direita. Os primeiros condenaram as práticas inconseqüentes e provocadoras, o que, 40 anos depois, é retomado pela pouco original denúncia de radicalismo feita por Gaspari. Os segundos não foram capazes de discernir senão o desafio à ordem.

Na multiplicidade das formas de manifestação, na incontável diversidade dos grupos e tendências políticas e ideológicas, nas mais diferentes regiões do país, nos mais diversos países do mundo, um invisível e poderoso sentimento unificava tudo e todos: na guerra sem quartel que afetava rincões e nichos da vida social, estávamos travando o bom combate - pela liberdade, pela autonomia, pela igualdade, pela paz.

Pretendendo medir a produtividade de um período histórico, o jornalista conclui que 1968 foi um ano "improdutivo". Um nova historiografia ... "de resultados", quem sabe? De seu pobre realismo pragmático, ignora o extraordinário papel dos símbolos na construção dos movimentos sociais e, mesmo, das nações. Na memória coletiva do povo brasileiro, 1968 anunciou, e continua anunciando, que teria sido, e é, possível inventar um Brasil e um mundo mais justos, menos violentos, mais democráticos e livres. Não é por outra razão que os eventos daquele ano continuam a ser lembrados, e não só pelos sessentões aposentados. 1968 nos reafirma, aos que lá estavam e aos que vieram depois, que lutar faz sentido, se quisermos construir um destino diferente daquele a que nos condenam os que buscam surrupiar o passado para aprisionar o presente e monopolizar o futuro.

Nossa resposta é que devemos relembrar. E celebrar, também, porque lindas foram as lutas e esperanças de um tempo que se foi, mas que permanece presente. Mas, sobretudo, há que entender, para impedir que profetas do passado congelem em fórmulas simplórias, em verdades prontas e acabadas, um processo histórico que foi de enorme riqueza porque complexo, pleno de contradições, de tendências, de correntes de pensamento, de caminhos e descaminhos, de vias e vielas, atalhos e desvios, conseqüências esperadas e inesperadas, previsíveis e imprevisíveis, muitas das quais, quem sabe, ainda estão por vir.

Jean Marc von der Weid
- Ex-Presidente da União Nacional dos Estudantes

Carlos B. Vainer
- Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro