| O legado apaixonante e quase incompreensível de meia-oito |
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| História |
| Flávio Braga |
| Ter, 15 de janeiro de 2008 04:05 |
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As quatro décadas passadas, desde o incêndio de 1968, lançaram mais trevas sobre os acontecimentos daquele ano do que boas análises. Não faltaram obras debruçadas sobre o tema, algumas excelentes, mas elas enfocaram mais os fatos e menos as razões. Talvez o caudaloso conjunto de ações e reações que sintetizaram aquele ano seja mesmo, de um ponto de vista comum, inexplicável. Não houve consenso entre os contestadores de 68, e essa é a principal força do período. Nenhuma facção, ideologia ou corrente filosófica chegou inteira ao mês de dezembro. A amplitude do tema exige concisão. Neste comentário breve, poderemos analisar alguns exemplos de como o conflito foi o único fator constante. Vamos ao primeiro. O movimento negro nos EUA vivia um de seus apogeus. O black panter pregava o confronto, a radicalização, que nada mais era do que tratar os brancos como os brancos os tratavam. Os “suspeitos de sempre” da polícia americana eram sempre, negros. A Ku Klux Klan estava a postos. Classificar, portanto, o black panter de radicais, como fiz três linhas acima, é uma injustiça. Eles pretendiam, no máximo, uma equiparação. Mas, se observarmos o movimento negro em suas várias tendências, aí sim, eles poderiam ser chamados de radicais, porque havia a ala pacifista, com o doutor Martin Luther King, um pregador à la Gandi, que apostava no diálogo. Seu martírio, em abril daquele ano marcante, alicerçou a lei dos direitos civis e o tornou figura histórica máxima da luta anti-racista, mas deve ser dado o crédito as “panteras negras”. Eles pressentiam que não haveria avanço sem sangue derramado. Que lição tirar? O pacifismo é a saída? Sim, desde que algum pacifista entregue a cabeça ao cepo. Outro exemplo? Praga, Tchecoslováquia. Os estudantes contra os tanques soviéticos. Os modelos T-80, versão mais avançada dos T-34, que haviam combatido os nazistas na segunda guerra. A revolução que havia destituído uma das mais perversas monarquias da história humana, os Romanov; o movimento que retirara a Rússia da era medieval; que vencera o conflito contra a Alemanha com o sacrifício de dois milhões de homens, tornara-se Opressor dos jovens tchecos. O que Lênin diria da luta desses estudantes se estivesse vivo? Estaria ao lado deles, com certeza. Mas, para a esquerda de todo o planeta, ainda sob o choque de haver desmascarado o stalinismo há poucos anos, esse confronto foi um dilema. As sementes do desastre final de 1989. Mas o símbolo máximo de 1968 foi, sem dúvida, o maio de Paris. Ali estavam encarnados todos os símbolos da revolta e da opressão. A tradição revolucionária da França nas ruas, nas universidades, nos sindicatos. Há depoimentos preciosos sobre as tentativas de deter os protestos. Os diálogos de Daniel Cohn-Bendit com a reitoria da universidade, quando lhe pediam que fossem comunicadas as exigências dos revoltosos é paradigmática. Não havia propriamente exigência, mas as coisas não poderiam continuar como estavam. O velho De Gaulle, no palácio, tão distante da realidade quanto estivera durante o exílio da ocupação, não conseguia perceber por que as ruas gritavam. Cohn-Bendit, apelidado Dan, le rouge, conta em seu livro O Grande Bazar que se a polícia não houvesse reprimido a invasão da Sorbonne, no dia seguinte, após uma festa, os estudantes voltariam para a casa. Como interpretar esse ponto de vista? Como porra-louquice ? Bem, e no Brasil? Vivíamos a noite da ditadura, com relâmpagos de dor arrancados à tortura do choque elétrico. Mas sob a luz das câmeras de TV brilhava a Tropicália, Glauber acabara Deus e o Diabo na Terra do Sol, o país estava vivo e a política, na cadeia. Aparentemente, não havia contradição aqui. Era o bem contra o mal. Os Carlos, Lamarca e Marighela, lutavam nas ruas, roubando bancos e seqüestrando. Eram a FARC urbana. Os Carlos foram mortos e o PT chegou ao poder. Quem tinha razão? Vale lembrar de 68? Entender aqueles conflitos, passados 40 anos? Acho que vale a pena, sim. Hoje a França oprime jovens árabes nos subúrbios. O negro que concorre à eleição americana é mais à direita que seus companheiros de partido e no lugar do Vietnan há um Iraque e um Afeganistão. A Rússia é administrada por um ex-agente da KGB, que só jogou fora a bandeira com a foice e o martelo. No Brasil, não há mais uma ditadura militar. Talvez estejamos à beira de viver um capitalismo integralmente instalado, e aí, mais do que nunca, será preciso manter alerta o espírito da revolta. Flávio Braga é romancista, roteirista e editor. Este ano publica pela ed. Record 68, o romance. |


