Bloco afro-brasileiro lembra os quase 120 anos do fim da escravidão no país PDF Imprimir E-mail
Identidades, Racismo e Discrimação
Hugo Costa - enviado especial   
Sáb, 02 de fevereiro de 2008 20:47

Salvador (Bahia) - O bloco Malê Debalê conta a partir de hoje (1º) aos foliões do carnaval de Salvador a saga da vida dos negros brasileiros após mais de um século de abolição da escravidão.

Com o tema “Áurea, 120 anos. E nós?”, mais de quatro mil carnavalescos devem sair às ruas para, por meio da arte, colocar a situação dos afro-descendentes na pauta das discussões sociais.

Participante do bloco há sete anos, Jane Sales aprovou o questionamento temático proposto para este ano. Na opinião dela, o fim da escravidão não rendeu as condições de igualdade e os frutos almejados pela população negra.

“Após 120 anos, queremos saber o que mudou em relação ao racismo e ao preconceito. Há uma interrogação no tema. Na minha concepção não mudou nada. Continuam o racismo, o preconceito e a falta de respeito com as mulheres negras”.

Sales, que dança e ajuda nas confecções das roupas do Malê DeBalê, conta ter sido vítima de preconceito em diversas situações. E critica tentativas de ignorar o racismo.

“As pessoas estão sempre tentando disfarçar. Mas não mudou nada. Você pode até ter estudo, mas um branco com certeza tem a preferência. Eu já passei por isso. Já aconteceu de eu entrar em uma loja para comprar perfume e perceber os olhares diferentes e as pessoas de pele clara receberem mais atenção”.

A Lei Áurea, que extinguiu oficialmente a escravidão no Brasil, foi assinada em maio de 1888. Mas a desigualdade racial aindapersiste no país.

Um relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) no ano passado mostra, por exemplo, que os trabalhadores afro-descendentes recebem salários 33% menores em relação aos brancos.

Fundado em 1979, o Malê Debalê foi inspirado em lutas históricas de ancestrais negros. “Malês” é como eram chamados os povos africanos de religião muçulmana que lutavam contra a escravidão no Brasil.

Além das aparições no carnaval, o bloco realiza várias atividades ao longo do ano. Na sede da organização, no bairro de Itapuã, aulas de música, dança e informática são oferecidas gratuitamente à população. No local também funciona uma escola de ensino básico.

“No final da década de 90, os blocos começaram a entender que eles também têm um papel social. Outros blocos irmãos também tendem a ter esse novo pensamento. O Malê passa a ser agora uma entidade cultural com outros olhares para a comunidade”, garante um dos diretores do bloco, Carlos Eduardo Carvalho.Os integrantes do Malê Debalê participam do circuito do Campo Grande. O bloco tem saídas previstas para hoje, amanhã e segunda-feira.

 
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