Blair nega "mea culpa" por Iraque PDF Imprimir E-mail
Internacional
Odalys Buscarón   
Seg, 08 de fevereiro de 2010 12:56

Tony Blair
Tony Blair
Sem vestígios de arrependimento por envolver o Reino Unido em uma guerra injusta contra o Iraque, o ex-premiê Tony Blair optou pela arrogância e o desprezo à vida de milhares de vítimas inocentes.

A audiência pública mais esperada pelos britânicos pulverizou os anseios de organizações pacifistas e de familiares de alguns dos 179 soldados mortos durante e após a invasão de março de 2003, de colocar Blair no banco dos réus.

Vestido como um cavalheiro inglês e sem sinais de nervosismo, o ex-chefe do governo trabalhista pelo período de uma década (1997- 2007) afirmou de forma taxativa que sua decisão de invadir o Iraque, junto com os Estados Unidos, foi correta e a "tomaria outra vez".

Esse foi meu ponto de vista então e é meu ponto de vista agora, sentenciou Blair, que se utilizou de argumentos sobre um suposto perigo iraquiano pelo desenvolvimento de armas de destruição em massa, que nunca ficou demonstrado.

Deixou claro, por outra parte, que sua intenção de se unir desde o início com os estadunidenses era travar uma guerra contra o país árabe para derrocar Saddam Hussein.

Falou durante várias horas sem fazer novas revelações dos verdadeiros propósitos dessa guerra e dos motivos pelos quais enganou os deputados com falsas informações sobre o Iraque e seu presidente Saddam Hussein.

Estas duas perguntas monopolizam os espaços interativos da Internet, criados como uma resposta paralela à comissão especial que tenta esclarecer a participação britânica no capítulo iraquiano.

Blair deveria explicar por que mentiu ao Parlamento, por que mudaram as informações contidas no relatório de setembro de 2002 e por que nossos familiares foram arrastados a um conflito cuja legalidade era muito relativa, declarou Reg Keys, que perdeu um filho no Iraque em 2003.

A responsabilidade do ex-dirigente no envio de cerca de 40 mil soldados britânicos para uma invasão que não contou com o mandato legal da ONU e seu peso nos relatórios que foram falseados esfumou-se como "águas passadas".

O ex-premiê foi ao centro de conferências Queen Elistabeth Hall para comparecer diante da comissão presidida por John Chilcot, mas o fez duas horas antes com um ostentoso grupo de seguranças e por uma porta traseira, para evitar o repúdio de centenas de manifestantes que o vaiaram e o chamaram de mentiroso.

Ainda que sabedor de que Bagdá não tinha a capacidade para criar armamentos destrutivos, pretexto inventado por Washington e Londres, o governo britânico acompanhou a Casa Branca nos planos para a derrubada de Saddam Hussein e a ocupação do país árabe.

"Tony ao cárcere", "Blair mentiu"

Para além do morno compromisso com a verdade que a comissão de cinco especialistas tem prometido, sem se esperar sentença alguma, grupos de pressão na sociedade britânica reclamam que Blair deveria ser julgado por crimes de guerra.

Ativistas da coalizão pacifista contra a guerra "Stop the War" e familiares dos soldados mortos no Iraque se reuniram em frente ao centro de conferências Queen Elistabeth Hall com cartazes que acusavam Blair de mentiroso e criminoso.

Muitos jovens cobriram o rosto com máscaras de Tony Blair, cheias de sangue, enquanto alguns carregavam sarcófagos simbólicos sobre seus ombros.

A pergunta que Blair tem que responder finalmente é em Haia, no Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra, sentenciou Andrew Murray, presidente da organização britânica "Stop the War".

Segundo o "Dossiê Popular", que inclui opiniões de políticos contestatórios, acadêmicos, atores e intelectuais, criado na internet pela rede britânica do "Stop the War", a comissão de Chilcot realiza uma investigação duvidosa e débil sobre o que qualifica como a decisão mais desastrosa na política exterior do Reino Unido no presente século.

Alguns dos comentários coincidem em assinalar que o governo não tem interesse nenhum em "olhar para a legalidade dessa guerra", e tampouco a oposição conservadora, que votou a favor dela.

Se Blair não pode dar respostas satisfatórias às perguntas que colocamos, só há uma conclusão: deve ser julgado por crimes de guerra, propôs o professor de Direito do University College de Londres, Philippe Sands.

Recordou que os planos para uma mudança de regime no Iraque, um dos objetivos da invasão, foram conhecidos a partir de 2 de abril de 2002, 11 meses antes do ataque, e que Blair os apoiou.

Outro dado levado por Sands relaciona-se com uma reunião do ex-premiê com o presidente estadunidense George W. Bush, na Casa Branca, em janeiro de 2003, que levantou duas importantes conclusões de Londres e Washington: "a ação militar pode ser tomada com ou sem uma segunda resolução do Conselho de Segurança".

A segunda, seria fixar para meados de março a fatídica data do bombardeio a Bagdá, segundo o especialista londrino.

Nessa mesma nota, recolheu-se a declaração de Blair de que "estava solidamente com o presidente" (Bush). Nenhuma dessas questões foi proposta ao parlamento britânico, sustentou Sands.

A guerra, resumiu, provocou uma perda de vidas humanas em grande escala, entre tropas britânicas, estadunidenses e de civis iraquianos inocentes.

Como outros ex-funcionários públicos e acadêmicos, Sands acha que o uso ilegal de força em tal magnitude ascende à categoria de crime.

Outras publicações anexadas ao "Dossiê Popular" sustentam que sem uma justificativa legal da ONU, a guerra contra o Iraque foi um ato de assassinato em massa: "os que morreram foram vítimas de homicídio ilegítimo pela pessoa que o encarregou".

Nunca vamos ter uma desculpa "honesta e absolutamente clara" deste homem (Blair) por todos os mortos e feridos; pelas bombas; pelos corpos triturados; pelas violações e torturas de Abu Ghraib, lamentou Adam Price, um pacifista britânico.

Odalys Buscarón é chefa de Redação Europa da Prensa Latina



Um homem sem remorsos

Baptista-Bastos

Tony Blair, ex-primeiro-ministro de Inglaterra, "socialista", católico recém-converso, actual conselheiro de empresas e conferencista de temas vários, fez declarações inquietantes, a uma comissão de inquérito, sobre as suas responsabilidades na Guerra do Iraque. Há muito, perdera a dignidade; restava-lhe, acaso a tivesse, um mínimo de decência. "Faria tudo outra vez", disse, sem que a cara se lhe transformasse em sal podre. Ante o assombro dos inquiridores confessou: em nenhuma circunstância da sua vida, posterior à invasão de Bagdad, "houve arrependimento, nem desculpas, nem remorsos".

Sabe-se: a política deixou de ser pedagogia, para se converter em malícia, omissão e mentira. Neste caso, como em muitos outros, deixa atrás de si um caudal de morte, de destruição, de horror e de ressentimento. Quando da Cimeira dos Açores, em 2003, na qual Durão Barroso foi o mordomo jovial e adulador de Bush, de Blair e de Aznar, os dados estavam lançados e as informações adquiridas. O diplomata sueco Hans Blix, chefe da missão das Nações Unidas, procurara, em vão, durante 2002, as "armas de destruição maciça" de que Saddam teria posse. As advertências de Blix, para travar o inevitável, chegaram a ser excruciantes. Mas o monumental embuste fora montado com cínica minúcia e calculada eficácia. Os senhores da guerra e os seus catecúmenos berravam com tal amplidão que abafavam as vozes da sensatez e do acerto. A lista daqueles que, em Portugal, alinharam na infâmia, só não é patética porque excessivamente abominável.

Perante a tragédia no Iraque, com o lúgubre desfile de crimes contra a Humanidade, de sórdidos negócios de que o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld é um dos beneficiários (está relacionado com empresas de construção, a actuar em Bagdad), pode alguém, e ainda por cima católico, como Blair, manifestar ausência de arrependimento, sendo um dos responsáveis da carnificina? A inversão de valores parece ter encontrado, no comportamento de muitos políticos, a verdadeira natureza dos seus objectivos. Desejam tornar conversíveis para a "normalidade" o que, ainda não há muito tempo, era entendido como desonestidade e vileza. Blair e seus cúmplices são culpados não somente do que acontece de medonho no Iraque como, também, de manipulação emocional e intelectual de milhões de pessoas.

As coisas vão perpassando, as afirmações de arrogância sucedem-se, a soberba das decisões chega a ser afrontosa porque resulta na miséria moral em que o mundo se afunda - e ninguém é apontado à execração, poucos combatem a hegemonia da desigualdade e da injustiça. Entretanto, os assassinos andam por aí.

Fonte: Informação Alternativa

 

 
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