70 mil guarda-chuvas e um impasse PDF Imprimir E-mail
Internacional
Joana Salém Vasconcelos   
Sex, 19 de Agosto de 2011 11:44

O sistema educacional chileno é, na verdade, uma enorme cadeia de endividamento geral da sociedade. As mães, pais e os próprios estudantes passam décadas pagando juros a bancos, muito depois de finalizarem seus estudos

ChileNeste dia 18 de agosto ocorreu mais uma grande marcha em Santiago do Chile, convocada por professores, estudantes secundários e universitários, em defesa da gratuidade na educação pública chilena. Piñera encomendou chuva, e conseguiu neve! Nevou em Santiago durante 30 minutos, no bairro de Las Condes e Vitacura (os bairros mais ricos), enquanto a marcha prosseguia no centro da cidade, debaixo de muita água e de um vento polar. A sensação térmica foi de 3 graus.

Mesmo assim, 70 mil pessoas compareceram às ruas para demonstrar sua persistência de lutar por democracia real. Um oceano de guarda-chuvas. Menos faixas, e mais capas plásticas. Uma forte convicção presente: a educação gratuita é uma condição básica da democracia, e o povo chileno não vai desistir de conquistá-la. Igual, prossegue a intransigência brutal do presidente Piñera. Ontem, o Ministro da Educação, Felipe Bulnes, reafirmou a proposta do governo: fiscalizar o lucro, criar uma superintendência responsável pela fiscalização, ampliar bolsas, abaixar os juros. Leia-se: legalizar o lucro, criar um novo órgão burocrático para alojar mais um empresário da educação no governo, criar melhores condições de endividamento dos jovens chilenos. O impasse se aprofunda.

O Financiamento das Universidades

Atualmente, 40% dos estudantes universitários chilenos já não podem pagar suas dívidas. Baixar os juros, afinal, é uma medida necessária para permitir que o endividamento ocorra em condições favoráveis ao credor, do contrário serão dezenas de milhares de moratórias. O sistema de financiamento estatal da universidade chilena é feito de dois modos: direto e indireto. O aporte financeiro direto é o dinheiro que o Estado repassa diretamente às universidades públicas. Esse dinheiro, contudo, representa somente de 30 a 40% do orçamento necessário destas universidades. O resto é "autofinanciado", ou seja, financiado pelos estudantes. Já o aporte indireto é fornecido pelo Estado para as universidades públicas e privadas, a partir do critério de mérito dos estudantes. São 200 mil estudantes que realizam uma prova nacional, e destes somente os primeiros 27.500 (13%) receberão o aporte. Mas ele é indireto, porque o Estado entrega o dinheiro à universidade, e não diretamente ao estudante. Deste aporte indireto, cerca de 70% se direciona para as universidades públicas e 30% para universidades privadas, que não tem nenhum compromisso de transparência administrativa. O governo Chileno gasta aproximadamente 0,6% do PIB com ensino superior público. Já com educação em geral, somando todos os níveis, gasta cerca de 4% do PIB.

O que é a municipalização da educação no Chile?

A situação é ainda mais injusta com o sistema de municipalização da educação básica, vigente desde 1981. Municipalidad, no Chile, corresponde a bairro. Isso significa que cada bairro é uma unidade orçamentária que financia a educação de um pequeno local. Os bairros de classe alta possuem vastos recursos e pouca demanda de serviços públicos, enquanto os bairros de periferia possuem poucos recursos e uma altíssima demanda destes serviços. A reprodução da desigualdade social, e seu aprofundamento, é perfeitamente garantido por esse sistema, que faz com que nenhum centavo dos ricos circule fora de seus bairros. Ao mesmo tempo, os bairros pobres ficam abandonados à própria sorte, e os professores tem que se virar com recursos escassos para ensinar.

O impasse

A desigualdade educacional chilena chegou ao seu limite. Os secundaristas cantam nas marchas: "Voy repetir, voy repetir!". Estão dispostos a perder o ano para não pagar mais pela educação. Isso pode significar um colapso parcial do sistema educacional chileno no próximo ano: não haverá novos alunos no ensino médio.

O presidente Piñera é comprometido intensamente com os setores do empresariado da educação, que mais lucram com o atual sistema. Além disso, por suas origens ideológicas comuns com Pinochet, sua postura intransigente é absoluta. Inábil e ditatorial. Não vai ceder, e ponto.

O impasse a que se chega, então é esse: um governo incapaz de avançar um passo na direção das demandas da sociedade; uma sociedade mobilizada, persistente e convicta, que tampouco vai sair das ruas enquanto não receber uma resposta efetiva de mudança. Só resta saber quanto tempo essa corda será tensionada sem arrebentar. A boa notícia é que a sociedade chilena tem a possibilidade de reconquistar a democracia, que desde 1991 está limitada ao direito de votar.

Fonte dos dados de educação:

http://www.dipres.gob.cl/572/articles-21669_doc_pdf.pdf

http://books.google.cl/books?id=_JaATUK0DU8C&pg=PA125&dq=CHILE+cuanto+%25+presupuesto+universidades+es+aporte+financiero+directo?&hl=en&ei=749NTpU4ifbSAbOlzI8L&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CCsQ6AEwAA#v=onepage&q&f=false

Joana Salém Vasconcelos é colaboradora da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

 


Estudantes no Chile outra vez às ruas

Santiago do Chile, 18 ago. (Prensa Latina) - Os estudantes chilenos protagonizam hoje uma nova jornada de mobilização nacional em demanda de uma mudança estrutural profunda no modelo de educação, considerado entre os mais excludentes do mundo.

Os jovens dos diferentes níveis de ensino, liderados pelas federações universitárias e pelo Colégio de Professores, tomarão novamente a Alameda de Santiago nesta quinta-feira em rejeição à educação de mercado implantada pela ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1990).

No meio do atolamento do atual conflito, os manifestantes exigem um plebiscito que conduza à realização da vontade da cidadania, que segundo recentes pesquisas favorece em mais de 80 por cento o papel garantidor do Estado numa educação pública, gratuita e de qualidade.

Para a dirigente estudantil Camila Vallejo, a educação em seu país deve deixar de ser um produto de mercado e retomar seu caráter social e universal.

A presidenta da Federação de Estudantes da Universidade do Chile afirmou que o modelo neoliberal na educação "não foi tocado" nos últimos 20 anos, e hoje é um dos mais desiguais e injustos do planeta.

Especialistas no assunto sustentam também que a modalidade de crédito universitário com aval do Estado agravou a situação de superendividamento das famílias e levou muitos estudantes de menos rendimentos que acessam as universidades por este meio a não poderem concluir suas carreiras ou se graduarem com dívidas milionárias.

Enquanto isso, o governo de Sebastián Piñera fez uma nova tentativa de destravar o conflito ao apresentar ontem uma nova proposta que contém diminuição de juros creditícios, entre outras medidas.

No entanto, os porta-vozes do já neste momento movimento cidadão coincidiram em que a iniciativa "deixa muitas dúvidas e vazios" em temas como o lucro, a desmunicipalização e a qualidade da educação.

Temos sido claros em que queremos avançar para a gratuidade e não fica explícito se os setores mais vulneráveis vão estudar de maneira gratuita, comentou Vallejo.

Estamos há três meses mobilizados e nossa luta é pelo fim do lucro no sistema, remarcou.

Na opinião do fundador do Movimento Amplo Social, o senador Alejandro Navarro, o ministro da questionada pasta, Felipe Bulnes, não avançou um milímetro no que solicitaram os estudantes. "Não se trata de regular o lucro, se trata de acabar com o lucro", enfatizou.

O que se pede são mudanças estruturais do sistema educativo chileno. Enquanto o governo não entender isso vão ser difíceis as soluções, disse também o deputado e presidente do Partido Comunista do Chile, Guillermo Teillier.

Em recente editorial a revista chilena Ponto Final advertiu que o Executivo só oferece saídas pela metade e lança mão de medidas de contenção do protesto estudantil com promessas e declaração de intenções que deixam como está o anquilosado sistema educacional imposto pelo pinochetismo. 

 


Um milhão de pessoas marcham no Chile contra a privatização da educação

 

- O governo está "tomado pelo pânico", sabe que há um grande conflito social, diz o líder Cristóbal Lagos

- "Devemos governar para todos. Os jovens não são os únicos que têm necessidades." Sebastián Piñera

Milhares de pessoas se manifestam em apoio aos estudantes, no domingo 21 de agosto de 2011, em Santiago do Chile.  Foto ApMilhares de pessoas se manifestam em apoio aos estudantes, no domingo 21 de agosto de 2011, em Santiago do Chile. Foto ApSantiago, 21 de agosto. Cerca de um milhão de pessoas, entre estudantes e familiares, se concentraram hoje no Parque O'Higgins, onde efetuaram um ato denominado "Domingo familiar pela educação", que contou também com a participação de conhecidos artistas em respaldo às mobilizações contra a privatização da educação.

A jornada começou esta manhã con marchas pelo centro de Santiago nas quais participaram dezenas de milhares de estudantes, após as quais a presidenta da Federação de Estudantes do Chile (Fech), Camila Vallejo, assinalou que "o povo do Chile quer, necessita e exige uma reforma estrutural no modelo educacional".

Segundo Vallejo, para quem com este domingo familiar "se iniciou a primavera anticipadamente", o governo "ficou isolado e tem que entender que sustentar essa postura ideológica, sustentar esse modelo de mercado que tem como finalidade o lucro, hoje em dia não tem sustentação".

O secretário executivo da Federação de Estudantes do Chile, Cristóbal Lagos, considerou durante o ato, que tevo réplicas nas principais cidades do país, que o governo está "tomado pelo pânico", pois "sabe que o país não está bem, há um grande conflito social, e pretende tomar o caminho fácil tratando de impedir que estas manifestações surjam, minimizando-as".

Também, 400 estudantes iniciaram hoje uma marcha desde Santiago, que recorrerá 120 quilômetros até o Congresso, localizado na cidade de Valparaíso, em repúdio à proposta que fez o governo de resolver suas propostas no Legislativo.

O presidente Sebastián Piñera reconheceu que o setor estudantil tem necessidades, mas que "não são as únicas" importantes no país. "O governo deve governar para todos, escutar com atenção os estudantes, mas eles não são os únicos cidadãos deste país", disse em entrevista ao jornal El Mercurio.

Recordou que o Executivo tem a disposição de dialogar e reiterou sua proposta de que esse diálogo se possa realizar no Congresso.

Fonte: La Jornada

 


Cresce adesão à paralisação nacional de trabalhadores chilenos

Santiago de Chile, 22 ago. (Prensa Latina) - A só 48 horas da paralisação nacional dos trabalhadores chilenos, continuam aderindo à convocação agrupamentos sindicais, estudantis, ambientalistas e defensoras dos direitos humanos.

O presidente da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT), Arturo Martínez, ratificou o respaldo à mobilização por mais de 80 organizações sociais, além do já ser fato público a adesão ao movimento por parte de um amplo conglomerado de partidos opositores.

Convocada pela CUT desde o passado 1 de maio, a greve da quarta-feira e quinta-feira próximas demandará a derrogação da Constituição que rege o país, imposta pelo regime militar de Augusto Pinochet (1973-1990).

Os manifestantes, em uma nova demonstração da escalada de protesto social no Chile, clamarão ademais por uma reforma nacional tributária que encare a desigualdade social e pelo estabelecimento do plebiscito como método para resolver os grandes problemas do país e atender à vontade popular.

A exigência de uma educação pública e gratuita com o papel garantidor do Estado e o fim do avanço do ensino privado estarão também presentes entre as principais exigências durante a paralisação, à qual se somaram desde os primeiros momentos as federações estudantis e o sindicato dos professores.

"Se expressarão demandas de todos os setores sociais para que se respeitem os direitos sociais e cidadãos e se reitere a necessidade de se ter no país um novo modelo econômico, uma nova Constituição Política e um novo Código do Trabalho", assinalou à imprensa nesta capital o presidente da CUT.

Destacou ademais que a greve nacional de 24 e 25 de agosto dá começo a um processo de unidade social ampla na nação austral, em claro sinal de descontentamento com o governo atual.

Coincidente com o líder da multissindical chilena Jaime Gajardo, presidente do Colégio de Professores, sublinhou que o protesto no Chile é de toda a cidadania, de amplos setores que defendem mudanças de fundo e por uma nova institucionalidade.

Na terça-feira à noite, se dará a arrancada à paralização com um "panelaço pela igualdade social"; ao passo que no dia 24 se paralisarão todas as atividades trabalhistas, incluídos o transporte coletivo e o comércio.

Paralelamente, nesse dia, terão lugar assembleias e oficinas de debate nas comunas e centros de trabalho.

No dia 25, prosseguirá a greve, com concentrações nas principais avenidas, parques e praças públicas de todas as cidades do país, informaram os dirigentes da CUT.

Na opinião do jornal chileno No Século, os tempos que vêm serão de grandes mobilizações, cada vez mais intensas e ampliadas..

 


 
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