O Paraguai se afirma! PDF Imprimir E-mail
Internacional
Chico Alencar   
Dom, 27 de abril de 2008 16:07
A solidariedade - não o paternalismo - entre os povos, sobretudo os do Hemisfério Sul, é uma necessidade de sobrevivência. Nacionalismos exacerbados costumam gerar lideranças egocêntricas e megalomaníacas - e, pior, guerras em que milhões de vidas inocentes são sacrificadas.

A idéia de Nação, no século XXI, tem que andar de mãos dadas com a de Planeta. A vitória de Fernando Lugo - Ex-bispo católico; ligado à Teologia da Libertação - nas eleições para a Presidência do Paraguai sinaliza a possibilidade de reverter um processo histórico de espoliação do povo daquele país – o que desagrada suas oligarquias locais.

As relações do Brasil com o pequeno país vizinho, nas últimas quatro décadas, tiveram como ponto central a questão da geração de energia hidrelétrica.

A Usina de Itaipu é um empreendimento binacional, com um presidente brasileiro e um paraguaio, além do rio e do lago fronteiriços.

É preciso desdramatizar a possível renegociação das tarifas da energia excedente que o Paraguai vende para o Brasil, visto que ali pagamos US$ 41,8 por megawatt, enquanto o preço do MW a ser produzido pela hidrelétrica de Santo Antonio (rio Madeira), por exemplo, foi calculado, para demonstrar a excelência do projeto, em US$ 47. A média de preços da energia hidrelétrica no mercado brasileiro é de US$ 80/MW! Aliás, o Tratado, assinado em 1973 pelos ditadores Médici e Stroessner, não veda essa revisão tarifária. Ele, de conjunto, só pode ser alterado ouvindo-se os parlamentos nacionais dos dois países.

O que o presidente eleito Lugo está propondo - e nosso embaixador Amorim (com muito mais credenciais que o ministro Lobão, "encaixado" no MME por arranjo político) acolhendo com bom senso - é a criação de uma comissão técnica binacional para debater tudo isso, a partir de setembro.

Há muito "nacionalista de ocasião" que jamais questionou o entreguismo das privatizações sem critério, a continuada remessa de lucros aqui obtivos para os países hegemônicos, a política de juros altos que remunera o capital financeiro improdutivo e joga nossa dívida pública nas alturas. São aqueles que, enquanto criticam os processos democráticos e de afirmação soberana e cidadã de países vizinhos, enfim livres do ciclo das ditaduras, estendem tapetes azuis para Condolezza/Bush e sua política de império.

Vamos observar como as tratativas e os argumentos evoluem. De toda a forma, é muito saudável tudo o que está acontecendo: a História está viva!

Chico Alencar é professor de história e deputado federal pelo PSOL-RJ.