O Gueto de Gaza e a hipocrisia ocidental PDF Imprimir E-mail
Internacional
Tariq Alí   
Qui, 08 de janeiro de 2009 19:10
GazaO assalto ao gueto de Gaza, planificado durante seis meses e executado com perfeita sincronização foi projetado principalmente para ajudar os partidos israelenses a triunfar nas próximas eleições deste estado. Os palestinos assassinados são pouco mais que um triunfo eleitoral na luta desavergonhada entre a direita e a extrema direita em Israel.

Washington e seus aliados da UE, perfeitamente conscientes de que Gaza seria assaltada, como o Líbano o foi há poucos anos, se sentaram e observaram. Washington, como é habitual, culpou os palestinos pró-Hamas, com Obama e Bush cantando a mesma partitura do grupo de pressão pró-israelense dos EEUU.  Os políticos da UE, sabiam do sitio, do castigo coletivo infligido a Gaza, dos civis eleitos como objetivo, etc. [veja-se o ensaio refrescante da professora de Harvard Sara Roy, no último London Review of Books] estavam convencidos de que os ataques de foguetinhos haviam "provocado" Israel, mas instaram a "ambas as partes" para pôr fim à violência, com efeitos nulos. O ditador apelidado Mubarak no Egito e os islâmicos preferidos da OTAN em Ancara, nem sequer se deram ao trabalho de fazer um protesto simbólico chamando a seus embaixadores de Israel. China e Rússia não convocaram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a crise.

Como resultado da apatia oficial, um produto deste último ataque será crispar as comunidades muçulmanas ao longo do mundo e aumentar as fileiras de muitas organizações que o Ocidente diz combater na "guerra contra o terror".

O derramamento de sangue em Gaza obriga a discutir as mais importantes questões estratégicas para ambas as partes, todas elas relacionadas com a história recente. Um fato que precisa ser reconhecido é que não existe a Autoridade Palestina. Nunca existiu. Os  acordos de Oslo foram um desastre absoluto para os palestinos, e se criou uma série de guetos palestinos desconectados e isolados sujeitos à permanente supervisão de um brutal carcereiro.

A OLP, uma vez depositária da esperança palestina, se converteu em pouco mais que um suplicante do dinheiro da UE.  O entusiasmo ocidental pela democracia se detém quando os que se opõem a suas políticas são eleitos para governar. O Ocidente e Israel intentaram de tudo para assegurar a vitória do Fatah: os votantes palestinos rechaçaram os subornos e ataques concertados da "comunidade internacional" em uma campanha que viu os membros do Hamas y outros opositores rotineiramente detidos ou assaltados pelas Forças de Defesa Israelenses (IDF, por suas siglas em inglês), seus cartazes confiscadas ou destruídos,  EEUU e a UE investir na campanha do Fatah, e os congressistas dos EEUU vociferarem que o Hamas não deveria governar.  Inclusive a programação das eleições foi feita com a determinação de acomodar os resultados. Programadas para o verão de 2005, foram adiadas até janeiro de 2006 para dar a Abbas tempo de distribuir prebendas em Gaza (nas palavras de um agente da inteligência egipcia: "a gente dará então o apoio à Autoridade Palestina contra o Hamas").  O desejo popular de uma limpeza depois de dez anos de corrupção, ameaças e jactâncias sob o Fatah demonstrou ser mais forte que tudo isso.

A vitória eleitoral do Hamas foi tratada como um signo ignomioso do fundamentalismo crescente, e um aterrador golpe nas perspectivas de paz com Israel, por governantes e jornalistas do outro lado do mundo atlântico. A maquinaria das pressões diplomáticas e financeiras se pôs em marcha para forçar o Hamas a adotar as mesmas políticas daqueles que foram derrotados nas urnas.

Sem as travas da combinação de cobiça e subordinação da Autoridade Palestina, sem o enriquecimento de seus porta-vozes e policiais servis, e sua aquiescência ao "processo de paz", que conduziu apenas a uma adicional expropriação e miséria à população sob seu mandato, O Hamas ofereceu a alternativa de seu próprio exemplo. Sem os grandes recursos de seu rival, estabeleceu clínicas, escolas, hospitais, formação profissional e programas de bem-estar para os pobres. Seus chefes e quadros vivem frugalmente, ao alcance da gente corrente. É esta resposta à necessidades cotidianas a que se há ganhado amplas bases que a apóiam, não o cacarejo diário dos versos corânicos.

Se sua conduta na segunda Intifada lhe conferiu um grau adicional de credibilidade é menos claro. Seus ataques armados a Israel, assim como os da Brigada dos Mártires Al-Aqsa do Fatah ou da Jihad Islâmica, foram respostas contra uma ocupação muito mais mortífera que qualquer ação que já se tenha cometido.  Medida na escala dos assassinatos da IDF, os golpes dos palestinos são escassos e sempre muito menos violentos. A assimetria pode ser cruamente computada durante a trégua, proposta unilateralmente pelo Hamas, iniciada em junho de 2003, e mantida durante o verão apesar das numerosas campanhas de ataques israelenses e das prisões maciças que aumentaram durante a mencionado trégua, nas quais mais de 300 quadros de Hamas foram seqüestrados na Cisjordânia.

Em 19 de agosto de 2003, uma célula que se auto-proclamava pertencente ao Hamas, em Hebron, já denunciada e desautorizada oficialmente pelos dirigentes do Hamas, explodiu um ônibus em Jerusalém Oeste; Israel reagiu de imediato com o assassinato de Ismail Abu Shanab, negociador-chefe do Hamas da trégua. O Hamas respondeu também. Por sua vez, a Autoridade Palestina e os estados árabes suspenderam a ajuda financeira às iniciativas sociais do Hamas e, em setembro de 2003, a UE acedeu à antiga petição que Tel Aviv fazia: incluiu o Hamas em sua lista de organizações terroristas.

O que distingue o Hamas, que luta em combate desigual, não são os homens-bomba, recurso compartido com outros grupos, mas sua superior disciplina, manifestada por sua habilidade para fazer respeitar a trégua declarada unilateralmente contra Israel ao longo do ano passado. Todas as mortes hão de ser condenadas, sobretudo a morte de civis, mas Israel é, de longe, o causador do maior número de assassinatos, dato que os europeus e os estadunidenses preferem silenciar completamente. Os palestinos não poderiam matar na proporção em que o fazem os israelenses posto que o exército de Israel está equipado com reatores, carros de combate, mísseis e é o mais fortemente armado exército de ocupação de toda a história moderna. "Ninguém pode rechaçar ou condenar que se rebele contra seus ocupantes uma população que tem sofrido uma ocupação militar de 45 anos", deixou dito o general Shlomo Gazit, antigo chefe da inteligência militar de Israel, em 1993.

O verdadeiro problema dos EEUU e da UE contra o Hamas reside em que esta organização rechaçou a aceitação da capitulação dos Acordos de Oslo e, posteriormente, de Taba a Genebra, tem rechaçado deixar no esquecimento os desastres que EEUU e a UE impuseram aos palestinos. Os EEUU e a UE têm desde então, como prioridade, dobrar a resistência do Hamas. Cortar os financiamentos à Autoridade Palestina foi uma arma óbvia para obrigar esta organização à submissão. Aumentar os poderes de Abbas — colocado por Washington como também o foi Karzai, em Cabul —, a expensas da influência do Conselho Legislativo, é outra das armas utilizadas.

Não houve nenhum esforço sério para negociar com os líderes políticos palestinos eleitos.  Duvido que o Hamas se deixasse subornar com facilidade pelos interesses israelenses e ocidentais, mas se assim fosse, não seria o primeiro caso. O Hamas carrega um pesado fardo, desde sua formação, e é a fraqueza do nacionalismo palestino: a crença que só haveria duas possibilidades, ou o completo rechaço da existência de Israel ou a aceitação do desmantelamento da Palestina, até ser reduzida a uma quinta parte de seu território. Entre o desvario maximalista da primeira via e o patético minimalismo da segunda, o caminho é muito estreito, como a história do Fatah demonstrou. La prova para o Hamas, não é ser ou não ser domesticado à satisfação da opinião pública ocidental, mas conseguir separar-se do peso devastador deste atroz passado.

Imediatamente depois da vitória eleitoral do Hamas, um palestino me perguntou, numa entrevista, que faria se estivesse no lugar do Hamas. "Dissolveria a Autoridade Palestina", foi minha resposta e o fim da imaginada hipótese. Feito isso, seria possível repor a causa nacional palestina sobre bases adequadas para exigir que o território e seus recursos sejam compartidos proporcionalmente entre as duas populações quantitativamente parecidas, não com 80% para os israelenses e 20% para os palestinos, uma desproporção tão iníqua que, a longo prazo, nenhum povo jamais a assumirá. A única solução aceitável é um único estado, para israelenses e palestinos, no qual os crimes do sionismo possam afinal ser reparados.
Não há outra alternativa. Y a cidadania de Israel bem que poderia refletir sobre as seguintes palavras de Shakespeare (de O mercador de Veneza), nas quais introduzi leves mudanças:

"Sou palestino. Não tem olhos o palestino?, Não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afetos, paixões? Não come a mesma comida, não morre pelas mesmas armas, não padece as mesmas enfermidades, não sana do mesmo modo, não se esquenta no mesmo verão e não se gela no  mesmo inverno, como o judeu? Se nos furam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não nos rimos? Se nos envenenam, não morremos? Se nos fazem mal, não nos podemos vingar? Se somos iguais em tudo, por que reprovar-nos por ser iguais também nisso… a vilania que nos ensinaram, a levarei a cabo; e será duro, mas melhorarei a instrução."

04/01/09

Tariq Ali é membro do conselho editorial de SIN PERMISO. Seu último livro publicado é The Duel: Pakistan on the Flight Path of American Power [Paquistão no alvo dos Estados Unidos: o duelo].

Tradução para www.sinpermiso.info: Daniel Raventós

Tradução para o português: Sergio Granja
 
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