Exército colombiano mata camponeses e os faz passar por guerrilheiros PDF Imprimir E-mail
Internacional
Agência Boliviana de Informação   
MON, 31 de MARCH de 2008 22:36
Washington, 31de março (ABI).- Milhares de camponese foram assassinados pelo Exército colombiano para fazê-los passar por guerrilheros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), denunciou neste domingo o diário estadunidense Washington Post em um informe.

"Sob a pressão dos comandantes militares para registrar mortes em combate, o Exército está assassinando cada vez mais nos anos recentes a pobres camponeses e fazendo-os passar por guerrilheiros", assinala o jornal.

Citando um informe de uma coalizão de 187 grupos de direitos humanos, o diário afirma que "955 civis foram mortos entre meados de 2002 e 2007 e foram classificados como guerrilheiros caídos em combate".

A rede latino-americana de televisão TeleSur informou que essa cifra significa um aumento de 60 por cento com respeito aos cinco anos anteriores, quando 577 camponeses foram relacionados como mortos pelas tropas e apresentados como guerrilheiros.

Esse incremento coincide com a ofensiva que iniciou o Governo do presidente Álvaro Uribe há seis anos contra la guerrilha das FARC, e que foi financiada em grande parte pelos Estados Unidos que entregam anualmente milhões de dólares ao Governo colombiano através do Plano Colômbia.

Além disso, o aumento np número de camponeses assassinados se deve também ao incremento da dotação das Forças Armadas colombianas, que cresceram até chegar aos 270 mil membros, a segunda maior da América Latina.

No informe, as testemunhas de famílias camponesas ou de baixos recursos afirmaram que viram em fotos os cadáveres de seus familiares desaparecidos vestidos com a roupa de camuflagem que porta a guerrilha.

"Os assassinatos, levados a cabo por unidades sob as órdens de comandantes regionais, sempre foram um problema no escuro conflito que já cumpre 44 anos", assegura o Washington Post.

PRESSÕES E INCENTIVOS

A causa destes assassinatos extrajudiciais radica, segundo o diário, nas pressões a que são submetidos os militares colombianos para acabar com a guerrilha e também pelos incentivos - desde pagamento extra até dias livres— que lhes dá o Exército por acumular mortos em combate.

Depois de entrevistar um número de familiares de vítimas, o jornal determinou que em muitos dos casos soldados "pareciam estar em missão, não acidentalmente detendo e matando gente".

"Antes o víamos (estes assassinatos) como algo isolado, como se se tratasse de uma patrulha militar que perdeu o controle, mas agora vemos que é algo sistemático", declarou ao diário Bayron Góngora, da organização Liberdade Judicial, que representa em Medellín a familiares de 110 assassinados nestas circunstâncias.

Os grupos de direitos humanos - segundo o Post— vêem uma tendência perturbadora, dizendo que as tácticas usadas por algumas unidades militares são similares a aquelas utilizadas por esquadrões da morte para aterrorizar civis.

"Alguns disseram que a causa poderia ser a ação de membros inescrupulosos das forças militares que desejam mostrar resultados de operações falsas. Outros dizem que é o resultado de pressões do alto comando, que pede resultados", assinalou o vice-procurador geral colombiano Carlos Arturo Gómez.

BOGOTÁ NEGA

De sua parte, o ministro do Interior da Colômbia Carlos Holguín Sardi não deu importância às denúncias do Washington Post e rechaçou que militares assassinem camponeses para fazê-los passar por guerrilheiros.

"Disso sempre se falou. Quando morre um guerrilheiro saem a dizer que se tratava de um santo varão, que era um trabalhador ou um camponês, mas na realidade são histórias repetitivas", manifestou o ministro a Caracol Radio.

Entretanto, Edwin Guzmán, um ex-sargento do Exército que estava sob o comando do coronel Hernán Mejía, o oficial de mais alta patente implicado em execuções extrajudiciais - de acordo com o Post -, narrou numa entrevista como a unidade do coronel Mejía matava camponeses, os vestia com trajes de combate e logo chamava  os repórteres de jornais locais para que escrevessem sobre supostos combates que teriam tido lugar.

Guzmán, agora um testemunho do Governo contra Mejía, disse que os soldados participaram porque sabiam que o Exército dava incentivos por acumular mortos em combate.

O diário assegurou que o Exército colombiano sói abrir investigações sobre estes assassinatos, mas quando se converte num caso criminal, passam aos juizados ordinários.

Entretanto, as organizações de direitos humanos denunciaram que quando os casos chegam aos juizados, as provas são manipuladas, e em muitas ocasiões os juízes sofrem pressões dos militares para julgar a seu favor.
 

Itens Relacionados