Bolívia: 49,96% dos quatro departamentos da "media luna" rechaçam os estatutos PDF Imprimir E-mail
Internacional
Agencia Boliviana de Informacion   
TUE, 24 de JUNE de 2008 23:38
BolíviaLa Paz, 23 jun (ABI).- Com o último resultado da consulta em Tarija, se constatou que 49,96%, entre o Não e a abstenção, dos cidadãos da denominada "media luna", o equivalente a 575.632 votos de um total de 1.151.725 eleitores habilitados, rechaçam os estatutos autonômicos promovidos por prefeitos e cívicos nessas regiões.

Os dados consolidados oficiais nas cortes departamentais de Santa Cruz, Beni e Pando, ademais da boca de urna de Tarija, mostram que a abstenção média foi de 38,7%, o equivalente a 446.235 pessoas.

Em contrapartida, o Não aos estatutos nestes quatro departamentos somou um total de 121.179 votos.

Abstenção e Não de rechaço aos estatutos somam em Pando 56%, em Beni 47,9%, em Santa Cruz 48,94% e em Tarija 47%.

Só a abstenção em Santa Cruz foi de 37,9%, o equivalente a 354.815 pessoas; em Beni 35,28%, igual a 47.445 cidadãos; em Pando 47%, o equivalente a 13.480; e Tarija 34.8%, o equivalente a 60.342 pessoas.

A característica das consultas nas quatro regiões foi a violência promovida pelo braço operativo da União Juvenil Crucenhista (UJC) que se dedicou a agredir camponeses, colonizadores, mulheres, anciãos, entre outros que se opunham aos estatutos por ilegais, inconstitucionais, fraudulentos, divisionistas e discriminatórios.

As consultas autonômicas em Santa Cruz em 4 de maio, em Pando e Beni em 1 de junho e este 22 de junho em Tarija demonstraram que a "media luna" está dividida, porque cerca de 50% rechaça o estatuto autonômico entre o Não e a abstenção que foi promovido pelos setores sociais.

Na eleição de 18 de dezembro de 2005, quando Morales foi eleito Chefe de Estado com 53.7% dos votos, a abstenção foi de 15,49% no nível nacional, quer dizer que não votaram 568.735 pessoas sobre um total 3.442.536 habilitados pelo padrão eleitoral.

Nos últimos dois processos democráticos de 2005 e 2006, a média de abstenção foi de 15%. Nas eleições nacionais de 2005, a abstenção foi de 15,49% e em 2006, nas eleições de constituintes e referendos autonômicos foi de 15,61%.

Consultas milionárias

O Governo do presidente Evo Morales qualificou de "milionária e ilegal" as consultas que se realizaram na "media luna"

Para o porta voz do Palácio Queimado Iván Canelas, a decisão da Prefeitura de Tarija e dos cívicos locais de submeter a voto um documento que poucos conhecem, não só é ilegal, mas também milionária.

Segundo a delegada de autonomia da Prefeitura de Tarija Maria Lourdes Vaca, o processo do referendum departamental teve um custo de 6,5 milhões de bolivianos, dos quais 1,7 milhões foram para financiar a campanha de difusão do "Estatuto Autonômico". Este custo se reproduziu em Pando e Beni.

Em contrapartida, em Santa Cruz foi mais caro pela quantidade de habitantes que tem.

Canelas explicou que assim como sucedeu em Santa Cruz, Beni e Pando em seu momento, "o referendum autonômico" de Tarija não conta com um mecanismo legal como sustentação, porque não se trata de uma convocatória aprovada pelo Congresso Nacional, como o estabelece a Lei de Referendum, senão que por um prefeito.

Recordou ademais que tampouco a Constituição Política avaliza a autonomia, posto que a nova Carta Magna, na qual se estabelece esse regime de administração do Estado, ainda não foi aprovada

Santa Cruz

Santa Cruz já deu o alerta, porque a abstenção histórica foi de 37,90%, o equivalente a 354.815 pessoas dos 936.048 habilitados a votar, e 14,4% de Não, que foi de 80.380 votos, ademais de nulos e brancos (22.981 votos) na consulta de 4 de maio.

Vale dizer que esses números refletem um rechaço ao estatuto crucenho de 48,94% do padrão eleitoral, o equivalente a 458.176 pessoas de um total de 936.048 inscritos pela Corte Departamental (CDE) deste departamento.

Santa Cruz deu início às consultas autonômicas e o prefeito Rubén Costa foi nomeado por seu Conselho Autonômico como governador, figura que não está contemplada pela Constituição Política do Estado.

Pando


Em Pando a consulta foi violenta e se notou um marcado absenteísmo, ademais do voto de Não ao estatuto.

Os dados oficiais apresentados pela Corte Departamental Eleitoral (CDE) de Pando confirmaram que entre abstenção e voto pelo Não, 54,7% da população habilitada a votar rechaçou o 1 de junho.

Segundo essa instância eleitoral departamental, de 28.990 cidadãos habilitados a votar em 179 mesas eleitorais, só 15.850 acudiram às urnas no domingo passado. Destes, 12.422 votaram pelo Sim, 2.730 pelo Não, 149 brancos e 504 nulos, constatando que 13.140 pessoas não foram às urnas. Segundo a Corte de Pando, a abstenção final foi de 45,23%.

Somando os votos pelo Não (2.730) e a abstenção (13.140) se estabelece que 15.870 (54,7%), dos 28.990 inscritos, rechaçaram o estatuto.

Neste caso as pessoas simplesmente não quiseram votar, não tiveram tempo para fazê-lo ou atuaram fielmente com uma causa. Com sua abstenção e o Não expressaram seu desacordo com o estatuto e em alguns casos acataram a instrução de seus dirigentes sociais para não votar nesse plebiscito que consideram ilegal e inconstitucional.

Durante várias jornadas, os movimentos sociais trabalharam convocando suas bases para a abstenção e em alguns casos instruíram a votar pelo Não, o que arrancou em Pando a reação violenta dos grupos de choque de unionistas pagos que pretenderam obrigar pela força as pessoas a serem partícipes da consulta e evitar o absenteísmo.

As abstenções em Pando na consulta deste 1 de junho é uma das maiores deste departamento e do país, pois nunca se viu uma cifra tão alta desde que a Corte Nacional Eleitoral (CNE) introduziu o sistema Sirena de controle do Padrão Eleitoral que automaticamente depura as pessoas que não participaram duma eleição anterior, seja por morte ou outra causa.

Beni


Em Beni, onde aparentemente a autonomia teve a maior porcentagem de respaldo, em 2006 se demonstrou um crescente rechaço aos estatutos, com 47,9%, entre o Não e a abstenção.

A abstenção em Beni, que foi de 35,38%, o equivalente a 47.445 pessoas das 134.483 habilitadas para emitir seu voto, e 17% de Não, que foi de 17.025 votos válidos na consulta, dão um resultado de rechaço ao estatuto beniano de 47,44%, o equivalente a 64.470 pessoas do total de inscritos na Corte Departamental (CDE) em Beni. Enquanto os votos pelo Sim alcançaram 78% dos votantes, o equivalente a 66.131 votos.

Tarija


Os resultados de boca de urna da rede ATB sobre a consulta deste domingo mostram, entre o Não e a abstenção, um rechaço ao estatuto tarijenho, promovido pela Prefeitura e cívicos desta região, de 47%, o equivalente a 81.386 pessoas de um total de 173.231 habilitados a votar.

Para esta consulta foram habilitados 173.231 cidadãos, dos quais só 106.827 pessoas participaram, abstendo-se de votar 60.342, o equivalente a 34,8%, segundo Ipsos, Apoyo, Opinión y Mercado.

Das 106.827 pessoas habilitadas, o Sim logrou 80,1%, o equivalente a 85.732 votos. O Não recebeu 19,7%, o equivalente a 21.044 votos, os brancos somaram 1.947 (1,7%) e os nulos 4.116 (3,7%).

Tomando em conta o Não de 21.044 votos e a abstenção de 60.342 eleitores como parâmetros se tem como resultado um total de 81.386 pessoas, o equivalente aos 47% que deram as costas ao estatuto tarijenho.

As organizações sociais trabalharam na campanha pela abstenção e pelo Não para demonstrar o rechaço ao estatuto tarijenho, por considerá-lo ilegal, inconstitucional, divisionista, fraudulento e discriminatório.

Nas povoações de Yacuiba, Villamontes e Bermejo a abstenção alcançou uma média de 45% como demonstração de rechaço e acatamento da instrutiva das organizações sociais que promoveram o absenteísmo.

O absenteísmo no município de Yacuiba (província Gran Chaco) foi 41,1%, em Bermejo (província Aniceto Arce) 47,8% e em Villamontes (provincia Gran Chaco) 43,3%, respectivamente.

Entretanto, a abstenção na cidade de Tarija chegou a 27,7%, cujos votos pelo Sim foi 82,2%, pelo Não 17,8%, brancos 1,1% e nulos 3,7%.

Em Tarija, os níveis de absenteísmo foram em 1985 de 13,75%, em 1989 de 16,49%, em 1993 de 19,17%, em 1997 de 26,18%, em 2002 de 28,45%, em 2005 de 15,90%, em 2006 de 17,02%.