Correa comemora vitória do “sim” em referendo no Equador PDF Imprimir E-mail
Internacional
Agência Brasil   
Dom, 28 de Setembro de 2008 19:54
EquadorBrasília - Ao anunciar a vitória da nova Constituição no referendo realizado ontem (28), o presidente do Equador, Rafael Correa, afirmou que o povo decidiu por “um novo país” e que “as velhas estruturas foram derrotadas”. Os resultados das pesquisas de boca-de-urna já indicavam que a nova Carta equatoriana seria aprovada com cerca de 70% dos votos. As informações são da BBC Brasil.

O líder equatoriano aposta na mudança do modelo econômico, previsto na nova Constituição, para alterar o projeto neoliberal implementado nas últimas décadas. O país aprovou a 20ª Constituição da história do Equador desde que foi fundado como república, em 1830.

Para a conformação da nova estrutura institucional será constituído o Congresillo, uma espécie de Parlamento transitório que assumirá as funções do Poder Legislativo durante os próximos seis meses e nomeará os representantes do Judiciário e dos demais organismos do Estado.

O passo seguinte será a realização de eleições para cerca de três mil novos cargos públicos entre governadores, prefeitos, deputados e presidente da República. Correa conta, atualmente, com índices de popularidade de cerca de 70%. Como a Constituição prevê a reeleição presidencial, entre outras mudanças, ele poderia candidatar-se a um novo período e governar o Equador até 2017.

Analistas políticos acreditam que o atual prefeito de Guayaquil, Jaime Nebot, seria o único opositor representante da “velha política” capaz de fazer frente ao governo do atual presidente. Ele advertiu Correa que fará com que o governo respeite o direito de autonomia da cidade que governa e ameaçou, na véspera do referendo (27), não concorrer às novas eleições caso o “sim” saísse vitorioso.

A partir de agora, uma das tarefas do Legislativo será criar as normas jurídicas para que as mudanças propostas na Constituição saiam do papel. Quanto às prioridades que serão estabelecidas na nova gestão do governo, a receita proveniente do petróleo é o que tende a estabelecer como e quanto avançar. Cerca de 50% do orçamento do Estado equatoriano provém do petróleo e o setor responde por 25% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de bens e serviços produzidos no país.

 


Equador: referendo constitucional

Por que a nova constituição?

Com 444 artigos e 30 disposições transitórias, o novo texto constitucional busca construir uma autêntica democracia nesta nação, baseada na igualdade de direitos, no humanitarismo e em amplas vantagens sociais.

A legislação, no dizer do presidente Rafael Correa, representa a ata de nascimento de uma nova Pátria e o começo de uma era de esperança.

Este projeto verdadeiramente nacional permitirá avançar nos cinco eixos propostos: Revolução democrática, social, econômica; transparência; anticorrupção e integração latino-americana.

As resoluções que se adotam na nova Carta Magna promovem a recuperação da soberania em vários âmbitos, entre eles, o bem viver como uma forma diferente de entender a vida.

Além disso, a nova Constituição facilitará recuperar espaços perdidos na política econômica, ao devolver ao Estado a capacidade de planificar, palavra quase extinta na época neoliberal.

Em poucas palavras, no dizer dos defensores do Sim, este referendo pretende devolver aos equatorianos sua dignidade, sua soberania, o direito de decidir seus destinos econômicos e sociais; ao tempo que promove a paz, a integração, a exploração racional dos recursos naturais e a equidade para todos os cidadãos.

Que significa o voto pelo Sim?


A aposta pelo Sim significa o avanço da mudança a favor dos direitos da mulher, dos incapacitados e das crianças, a quem o Estado cuidará desde sua concepção, afirmou Fernando Cordero, presidente da Assembléia Constituinte.

O rechaço a essa legislação, agregou, representa voltar ao passado de injustiça e corrupção, onde imperavam os critérios da partidocracia.

Ao votar pelo Sim consagramos uma verdadeira revolução política, com a despolitização dos organismos de controle e a função eleitoral, precisou Gustavo Darquea, representante do movimento Acordo País.

Avançamos para uma sociedade na qual todos podem ser produtores e proprietários e não só uns poucos, asseverou ao destacar o dever do Estado de auxiliar aos mais fracos.

Esta lei não só garantirá a soberania nacional, senão que marcará o caminho para a integração latino-americana, enfatizou.

A Legislação foi aprovada com o respaldo de 94 constituintes, enquanto outros 32, membros da minoria opositora, votaram contra.

Não houve abstenções, nem votos em branco, mas se registrou a ausência de quatro representantes da Constituinte.

Quais são as novidades da nova Carta Magna?


A Carta Magna tem cerca de 30 disposições transitórias e 444 artigos, entre os quais se encontram os relacionados com a soberania territorial, os princípios e direitos fundamentais da função eleitoral, a propriedade, a soberania popular, alimentar e econômica.

Outros estão associados com a natureza e o meio ambiente, a função executiva, os direitos civis ao devido processo e os direitos políticos, a organização social e a participação na democracia e os direitos da comunicação.

Entre os elementos novos desta nova Carta Magna sobressaem:

1- O fim à polêmica presença de forças militares norte-americanas em solo nacional, que foi aceita em 1999 pelo então presidente equatoriano Hamid Mahuad.

2- Mudar a atual estrutura da função eleitoral, a qual contará com uma Corte Suprema e um Tribunal de Contencioso para solucionar disputas relacionadas com os partidos e as eleições.

3- Inclusão de artigos relacionados com a defesa da natureza, a segurança alimentar, o reconhecimento da interculturalidade e plurinacionalidade deste território, assim como incorporar como idiomas oficiais o Quichua (variedade do Quechua que se fala no Equador) e o Shuar.

4- Elimina o trabalho por hora e todo tipo de exploração laboral.

5- Proíbe a privatização dos recursos naturais, incluída a água.

6- Em política exterior prioriza a integração latino-americana e invalida a presença ou instalação de bases estrangeiras no país.

7- Promove a equidade social, com sistemas de educação e saúde gratuitos, assim como o direito de todos contar com habitação e moradia.

8- Desterra o modelo neoliberal e abre as portas ao modelo social e solidário.

9- Põe o ser humano como centro da sociedade, enquanto destaca que o mercado não pode ser o amo, mas o servo.

10- Define uma nova estrutura de organização política para o Estado e outorga as possibilidades dos territórios avançarem para as autonomias.

11- Reconhece as raízes milenárias e apela à sabedoria das diversas culturas reinantes no Equador.

12- Advoga por uma sociedade que respeite, em todas suas dimensões, a dignidade das pessoas e coletividades.

13- Outorga uma mudança radical ao conceito de garantia da soberania, que radicará no povo e não nas Forças Armadas, o qual invalida aos militares o direito de tirar presidentes.

14- Promove a eliminação do latifúndio e declara o Estado como dono exclusivo dos recursos naturais.

Como e quem votará?

"Aprova você o texto da nova Constituição Política da República elaborado pela Assembléia Constituinte?", é a única pergunta que se apresentará na papeleta de votação, que incluirá duas casas com o "Sim" e o "Não", para que a população decida a favor do projeto da nova Carta Magna ou contra ele.

O referendo se realiza no domingo 28 de setembro desde as 07h00 hora local (12.00 GMT) até as 17h00 (22h00 GMT) e em similares tempos no uso horário de cada país para os equatorianos residentes no exterior.

O voto é obrigatório para as cidadãs e cidadãos maiores de 18 anos que saibam ler e escrever; e facultativo para os analfabetos, os maiores de 65 anos e os domiciliados e inscritos no exterior.

Para exercer seu direito eleitoral, os equatorianos facultados a votar deverão acudir às Juntas de Recepção de Votos, onde se encontrem registrados, e apresentar seu carnê de cidadania, ou o passaporte no caso dos emigrantes.

Mais de nove milhões de equatorianos estão facultados a acudir às urnas no Referendo Constitucional do 28 de setembro.

Para que a nova Carta Magna seja aprovada se necessita que a metade mais um dos votos válidos optem por essa opção.

A convocatória ao referendo obedece a um processo que começou em princípios de 2007, quando o presidente da República Rafael Correa convocou um plebiscito para instalar uma Assembléia Constituinte de plenos poderes, encarregada de elaborar o projeto de Carta Magna.

Uma vez concluídas as votações neste 28 de setembro, o Tribunal Supremo Eleitoral tem o prazo de até 14 de outubro para anunciar de maneira oficial os resultados desse plebiscito.

Que elementos a oposição
agita para o voto pelo Não?

No dizer do presidente equatoriano Rafael Correa "a oligarquia vai fazer o impossível para que tudo fique igual que antes e volte ao Congresso, para que se derrubem as leis que aprocadas pela Assembléia e para que o petróleo siga privatizado".

A seu juízo, se trata de uma luta ideológica, na qual se enfrentam duas visões diferentes: uma nova a favor da mudança, do socialismo do século XXI; e outra alheia, neoliberal, "antipátria", de parte da partidocracia.

A campanha pelo Não está encabeçada pelo prefeito social-cristão de Guayaquil Jaime Nebot, que se declarou contrário a toda transformação político-econômica neste território.

Nebot, a juízo do Executivo, representa os interesses dos grupos “mafiosos” que se apoderaram das empresas, das aduanas, das Cortes e dos contratos.

A aprovação do primeiro mandato constitucional que fortalece as sanções contra os evasores do fisco destapou a fúria da oposição, a qual esconde as mesmas pretensões separatistas dos segregacionistas oligarcas do departamento de Santa Cruz, na Bolívia.

A esta situação há que somar outros pronunciamentos de setores endinheirados guayaquilenhos no sentido de se redigir uma Constituição própria para essa urbe e descartar a elaborada pela Assembléia Constituinte, em evidente rechaço ao clamor popular demonstrado nas eleições anteriores.


Fonte: Prensa Latina

 
0 Votos

0 Comentários

Adicionar Comentário

Avalie este artigo

0 Votos

Itens relacionados