Entrevista de Carlos H. Reyes, candidato independente à Presidência de Honduras PDF Imprimir E-mail
Internacional
Mario Casasús   
Qua, 28 de Outubro de 2009 22:33

Carlos Reyes
Carlos Reyes
"A oligarquia deu o golpe de Estado para ficar, não para entregar o poder nas eleições"

Carlos Humberto Reyes Pineda é candidato independente à Presidência de Honduras, destacado líder sindical desde a greve de 1954 e acérrimo crítico do neoliberalismo. Em entrevista a teleSUR, justifica sua participação no processo eleitoral: "exigimos a restituição da ordem constitucional; do contrário, ir a eleições significaria legitimar o golpe de Estado".

Carlos H. Reyes sustenta, sem temor de equivocar-se: "O grupo oligárquico e os militares que organizaram o golpe de Estado não o deram para entregar o poder em 6 meses, senão que para ficar no poder e aprofundar o neoliberalismo e abortar definitivamente a Assembleia Constituinte.  No fundo, isso é o que eles querem.  A maioria do povo hondurenho não vai entrar no processo eleitoral se as coisas continuam assim.  Nós sustentamos que a Resistência deve atuar em relação ao processo eleitoral exigindo a Assembleia Nacional Constituinte.  Inclusive, pensando num futuro governo espúrio, instaurado pelas eleições, débil e com uma enorme crise econômica, social e política. Nós devemos ter nossa própria agenda".

MC.- Como surge sua candidatura presidencial?

CR.- Eu sou candidato presidencial independente há uns meses, mas fundamentalmente sou alguém que esteve toda sua vida - desde a greve de 1954 - no movimento popular.  A candidatura é uma questão conjuntural, em razão do que o país vive .

MC.- O Tribunal Supremo Eleitoral fez um requerimento sobre a permanência de vocês no processo eleitoral.  Solicitaram esse trâmite inútil a todos os candidatos?

CR.- Em relação à reunião com esses senhores do Tribunal Eleitoral, eles estão muito interessados em que a candidatura independente participe.  Inclusive inscreveram a candidatura antes do tempo previsto para fazê-lo.  Nos comunicaram um dia, nas ruas de Tegucigalpa, quando andávamos numa manifestação contra o golpe de Estado.  Aproximaram-se de mim uns 15 jornalistas, dizendo: "já sabe qual é a última? - te inscreveram, pela primeira vez aceitam uma candidatura independente à Presidência da República e queremos saber tuas reações". Disse-lhes que era simples de explicar, que nós estamos lutando pelo regresso à ordem constitucional, a caminho de uma Assembleia Constituinte.  Assim que, quando preenchi todos os requisitos, entendi o interesse do Tribunal Eleitoral e dos golpistas: legitimar-se com o processo eleitoral. Ontem nos chamaram do Tribunal Eleitoral para comunicar-nos que em 24 horas déssemos um sim ou um não, porque eles tinham que mandar imprimir as cédulas e nos dão a entender que não querem gastar à-toa.  Respondemos que estamos interessados em participar, mas só com o retorno à ordem institucional, porque não podemos reclamar direitos constitucionais se não há um regime constitucional no país.  Eu não sei se aos demais partidos e organizações lhes fizeram o mesmo requerimento.

MC.- A ditadura de Micheletti poderia perpetuar-se se fracassa de forma deliberada o processo eleitoral?

CR.- Nós insistimos, e disse isso - por telefone - ao Presidente da República Manuel Zelaya, que ninguém se engane, o grupo oligárquico e os militares que organizaram o golpe de Estado não o deram para entregar o poder em 6 meses, senão que para ficar no poder e aprofundar o neoliberalismo  e abortar definitivamente a Assembleia Constituinte.  Isso é o que eles querem no fundo.  A maioria do povo hondurenho não vai entrar no processo eleitoral se as coisas continuam assim.  Nós sustentamos que a Resistência deve atuar com relação ao processo eleitoral exigindo a Assembleia Nacional Constituinte e, inclusive, pensando num futuro governo espúrio, instaurado pelas eleições, débil e com uma enorme crise econômica, social e política. Nós devemos ter nossa própria agenda.

MC.- Como a candidatura independente abordará o processo eleitoral nulo?

CR.- Nós, como candidatura independente, não estamos em campanha eleitoral.  Os únicos que, sim, fazem proselitismo são os 4 candidatos que respaldam o golpe de Estado e, como se fosse pouco, eles fazem uma contra-campanha sobre a candidatura independente, desinformam a população sobre nossos comunicados, mentem constantemente, manipulam tudo o que se refere à candidatura independente e à Unificação Democrática (UD). Definitivamente, o caso é muito grave.  Por isso colocamos para o Tribunal Supremo Eleitoral que, nas condições do golpe de Estado e da repressão, não procede um processo eleitoral.  A manipulação mediática contra nós é implacável, tenho dito que "a candidatura independente não iria às eleições nas condições de ditadura e que participaríamos quando regresse a ordem constitucional".  E a imprensa publica todo o contrário: "Carlos H. Reyes está decidido a participar no processo eleitoral" (sic). Recebo centenas de chamadas de gente confundida com relação às noticias equivocadas.  Não é um jogo limpo, estamos frente a assassinos e mentirosos, frente a militares que torturam e violam, civis que descumprem todos os direitos humanos.  Não podemos esperar nada favorável para nós no campo das comunicações.  Os golpistas estão no poder para ficar, com a assessoria de israelenses, aplicando as táticas de Israel tanto na comunicação como na repressão seletiva.

MC.- Você sofreu a repressão por parte de corpos de segurança do Estado, a tal ponto que tem uma fratura no punho direito.  Isso é parte de uma política ditatorial seletiva e sistemática?

CR.- Um mês antes do golpe de Estado, fiz uma denúncia ante o Comitê de Familiares de Detidos Desaparecidos em Honduras (COFADEH) e outras organizações defensoras dos direirtos humanos, porque uma pessoa vigiava minha casa.  Quando, numa manhã, passei diante dele, ouvi-o dizer a outro individuo, apontando para mim: "se não cai fora, o agarramos". No dia seguinte ao golpe de Estado, nos reprimiram e quase me matam a golpes.  Desgraçadamente, sou um pouco mais alto que a média dos hondurenhos.  Sou perseguido pela polícia que facilmente me localiza,  Em 30 de junho, nos encurralaram e estavam praticamente nos massacrando nas aforas de Tegucigalpa.  Diante das balas, a única alternativa foi pular de um muro de 5 metros de altura.  Uns caíram bem.  Eu, no momento de saltar, senti um tapa na orelha que me desequilibrou e caí mal, fraturando o punho.  Nesse dia, foram 7 pessoas as que sofremos fraturas.  Ademais de um professor assassinado e outras pessoas gravemente golpeadas. Apresentamos as denúncias correspondentes, mas de nada serviu.

MC.- Se aqui a ditadura não faz nada, entrou em contato com defensores de direitos humanos do estrangeiro?

CR.- Durante esses dias, não pude assistir às manifestações.  Dediquei-me a receber uma série de jornalistas e pessoas que vêm de visita a Honduras.  Antes participara com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.  Quando chegou a Tegucigalpa o Juiz Baltasar Garzón, reuni-me com ele.  Todos levaram uma informação muito boa sobre as violações dos direitos humanos.  Isso nos foi muito útil, creemos que pudemos convencê-los da justiça das nossas reclamações e de que aqui se estava enganando a comunidade internacional sobre o que realmente sucedia.  A imprensa golpista disse que "a CIDH avalia que em Honduras não há milhares de mortos".  Nós nunca dissemos que são milhares; contamos e documentamos quantos são.  Insisto: o que dizemos é que, fora os companheiros que morreram assassinados nas ruas - durante as manifestações pacíficas -, começaram os crimes seletivos contra os dirigentes.

MC.- Cogitou da ideia de sair do país numa campanha para denunciar os crimes de lesa humanidade da ditadura de Micheletti?

CR.- Temos vários companheiros que fazem o trabalho de denúncia no exterior e creemos que o fazem muito bem, apesar de nossas limitações.  Nós não temos a experiência da Frente Farabundo Martí ou dos Sandinistas ou dos guatemaltecos. Eu não aceito sair do país para fazer denúncias.  Não desconhecemos que a atual ditadura tem seus contatos na empresa privada e na imprensa corporativa.

MC.- Que leitura faz do fracasso do diálogo ante a proposta do ditador Micheletti no sentido que seja a Corte Suprema a responsável de estudar o retorno do Presidente Zelaya?

CR.- O assunto está em que, durante um momento, ambas comissões chegaram a um acordo para que a restituição passasse pelo Congresso, mas, frente a isso, apareceram os verdadeiros golpistas e pararam toda intenção de que a Mesa de Diálogo avançasse.  Desse modo inventaram que a Corte Suprema de Justiça deveria fazer um informe de todos os antecedentes e opinar sobre a restituição. Tudo isso, como você dizia, Mário, é um processo dilatório.  No principio isso se dirimia no nível mais alto - ONU, OEA e Washington.  Chega um momento no qual a OEA põe um prazo de 72 horas e os golpistas não o cumprem.  Soberbos, disseram "não", negando-se a receber as comissões.  Depois do vencimento do prazo, Hillary Clinton chama o Presidente Manuel Zelaya e lhe diz que busque um arranjo.  Esquecendo-se de uma restituição incondicional, propõe Arias.  O Presidente Zelaya aceita Oscar Arias como mediador.  Logicamente, o Departamento de Estado buscava oxigenar a ditadura, para que se acomodasse bem. Que acontece? Se vem desse nível internacional e se transfere a um nível centro-americano.  Já sabemos o que aconteceu na Costa Rica.  E agora inventaram que o assunto deve se resolver em Honduras. Cada vez vai num nível mais baixo.  E a OEA buscou a forma de safar-se. O que se necessita é que a Resistência continue nas ruas, que desconheça qualquer processo eleitoral que se realize sem a restituição do Presidente Zelaya e que a comunidade internacional pressione o máximo possível.  Acreditamos que, dessa maneira, a ditadura se debilitaria.  Agora se sentem acossados.  A repressão que vivemos é fruto do desespero que têm.  Vou dizer algo para você: desde o 28 de junho, sofremos um estado de sítio.  Disseram que, ao derrogar o decreto, recuperaríamos nossas garantias, mas é um tecnicismo.  Para legitimar o que já estava, tiraram-no.  E continuamos na mesma, apareceram outros companheiros assassinados e a repressão continua nas ruas.

MC.- Por que é necessário convocar uma Assembleia Constituinte?

CR.- A Constituição vigente em Honduras foi feita em 1982.  A Assembleia Constituinte funcionou de 1981 até janeiro de 1982.  Estávamos no período da Guerra de Baixa Intensidade na América Central.  O Embaixador da América do Norte em Tegucigalpa era John Dimitri Negroponte.  Em Honduras, utilizaram 3 eixos para redigir a nova Constituição: "1.- É preciso vender Honduras, diziam os empresários; um deles era Miguel Facussé; 2.- É preciso reduzir o Estado a sua mínima expressão; o Estado não deve intervir na economia; o Estado é corrupto; e 3.- O Exército deve ser o garantidor da Constituição e não o povo".  Sobre esses 3 elementos funcionou a Constituição desde 1982.  Quais são os resultados?  O país está vendido, o Estado está reduzido a sua mínima expressão e os militares já deram um golpe de Estado. Antes dessa Constituição, os empresários e as transnacionais tinham um 40% da correlação do poder no país, o Estado outro 40% do poder e o povo um 20%. Hoje em dia, com 28 anos de vigência, os empresários têm um 75% do poder, o Estado agora tem o 20% e ao povo, que tinha 20%, agora lhe resta um 5% do poder.  O Estado mesmo se viu diminuído em todos os sentidos.  O perfil dos presidentes baixou, porque administram um Estado que não tem recursos.  Preste atenção: antes de 1980 as rendas correntes do Estado eram de 25% do P.I.B.  Hoje, é de 14% do P.I.B.  Porque os empresários não pagam impostos.  É um Estado diminuto.  As rendas correntes dos países desenvolvidos são de 40% a 45% do P.I.B.  São Estados poderosos.  Inclusive, em tempos de crise, os Estados saem a resolver os problemas dos grandes monstros financeiros.  E Honduras que não pode resolver os problemas dos remédios num hospital?  Imagina você a redução do poder do povo de 20% para 5%.  A Constituição de Honduras segue o modelo da Constituição de Pinochet, é produto da experiência chilena no neoliberalismo.  Quando o Presidente Zelaya disse que preguntaría - com A Quarta Urna -, sobre a possibilidade de uma nova Assembleia Constituinte, nós o apoiamos.  Não é com eleições que se vai resolver os problemas de Honduras.  Somente tendo um marco jurídico que permita modificar as estruturas se poderá fazê-lo; do contrário, nunca funcionarão.

MC.- Finalmente, o único Artigo pétreo da nova Assembleia Constituinte sería o 3: "Ninguém deve obediência a um governo usurpador"?

CR.- Sim, imagino que é um Artigo que deve permanecer.  Como você vê, que fizeram? Disseram: "não é golpe de Estado".  Assim podem organizar suas eleições. Nós afirmamos que,sim, é um golpe de Estado e o que cabe é a restituição da ordem constitucional; do contrário, ir a eleições significaria legitimar o golpe de Estado.

Publicado em El Clarín (Chile)

Fonte: Rebelión

Tradução: Sergio Granja

 


Zelaya qualifica como um triunfo acordo sobre eventual restituição

Tegucigalpa, 30 out. (PL) - O presidente de Honduras Manuel Zelaya descreveu hoje como um triunfo para a democracia o acordo alcançado na véspera com o regime de fato para que o Congresso decida sua restituição no poder.

"Só o fato de que já se esteja reconhecendo a necessidade de retroceder os poderes do Estado ao 28 de junho de 2009 significa um triunfo para a democracia e o retorno da paz para o país", disse Zelaya à emissora Rádio Globo.

Não obstante, Zelaya admitiu que ainda deverão cumprir-se vários passos para sua restituição, e nesse sentido chamou o regime de fato a cumprir os termos do acordo.

"Não é um jogo onde se possa viver especulando. Honduras pagou uma cota de sofrimento muito grande", advertiu.

O presidente foi sequestrado em sua residência por militares encapuchados em 28 de junho e levado à força para a Costa Rica.

Depois de dois intentos infrutuosos de regressar ao país, logrou finalmente entrar de surpresa em 21 de setembro e desde então se encontra na embaixada do Brasil.

De acordo com um informe do Comitê de Familiares de Detidos Desaparecidos, o regime golpista cometeu mais de quatro mil violações dos direitos humanos, entre elas mais de vinte assassinatos e centenas de feridos e detidos.

O presidente constitucional fez votos para que a interrupção democrática através de golpes de Estado não se repita.

Fonte: Prensa Latina

 

 
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