A morte da política PDF Imprimir E-mail
Política
Chico Alencar   
Dom, 16 de março de 2008 19:44
O mundo globalitário do século XXI agrega medo e perde encanto. Mergulhados no imediato, inseguros e fascinados apenas pelo que brilha nas vitrines e nas telinhas, resistimos a olhar para o futuro, lugar do imprevisível, mas também dos projetos. E nos esquecemos do passado que nos constituiu e nos explica: a História é inútil.

Nesse ambiente sem contexto, de egos, fobias e prazeres efêmeros, a política também morreu? Não, ela se adaptou aos novos tempos do individualismo e do consumismo predatório. Pragmática, mediocrizou-se. Vejam-se os primeiros movimentos para o preenchimento, em outubro, dos cargos eletivos de 5.562 prefeitos e 51.875 vereadores no país. O sistema eleitoral formal, que as forças políticas dominantes não querem reformar, torna banal e até desejável o desinteresse pela política. Não contam mais programas, plataformas e mesmo partidos. Apresentam-se nomes, montam-se esquemas para os “currais eleitorais” e alianças são costuradas em torno de recursos para as campanhas, ampliação de tempo de TV e rádio e partilha futura de cargos.

A política se torna um jogo sujo gerador de lucro imediato e empregos. O alheamento crescente da população em relação às atividades públicas facilita a dinâmica corrompida do governo-empresa e do parlamento-negócio. Há outro cenário possível e necessário, porém. Da distopia: o não à democracia de mercado, ao republicanismo de mera delegação e aos dutos podres dos partidos-de-clientela, em que situação e oposição conservadora se assemelham. Da utopia: a política das propostas vinculadas ao interesse coletivo e à transição para uma nova hegemonia que viabilize formas alternativas de exercer o poder.

As cidades — pequenas, médias e mesmo as grandes — podem ser o palco privilegiado de uma dinâmica política virtuosa. A mundialização econômica, que debilita os Estados nacionais, terá nos aglomerados urbanos um ponto de inflexão: ali, novos modelos, participativos e autônomos, serão capazes de travar embates até com o poder monopolista do capital financeirizado e das corporações reprodutoras das desigualdades. Movimentos sociais ainda fragmentados, mas reais, em torno dos mais diversos direitos — à moradia, à educação pública, à saúde, à informação, à segurança de todos, à vida saudável, ao respeito a minorias — tecem uma rede de resistência molecular à tecnoburocracia autoritária que tudo despolitiza.

No espaço vivido do município há potencial para a radicalização democrática, com o chamamento à autoorganização da população para a melhoria da qualidade de vida e acumulação de forças para a construção de uma nova cultura política. Não se faz, por óbvio, “socialismo numa só cidade”, mas não se administra o menor dos burgos, sob o êmulo do igualitarismo libertário, sem meios socializantes de decidir e legislar e negando a cidadania coletiva.

Os eixos gerais de uma nova forma de fazer política são a mobilização social permanente, a descentralização efetiva, a transparência total dos gastos públicos, a inversão de prioridades, com opção preferencial pelos sem-direito, no viés da sustentabilidade ambiental, e a interlocução independente com as demais instâncias da administração. E com experiências emancipatórias de outras cidades do planeta.

Indagado certa vez por que não disputava um mandato público, o escritor Guimarães Rosa foi taxativo: “Os políticos só pensam no imediato. Eu quero eternidades, aposto na ressurreição dos homens.” Já passa da hora de, com idéias e causas, ressuscitar a grandeza da política.

Chico Alencar é professor de história e deputado federal pelo PSOL-RJ.


Fonte: O Globo, 21/02/2008
 
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  1. De fato, estamos vivendo tempos muito obscuros quando se trata de política, mas podemos ressucitar seus princípios na medida em que os seguirmos, dentro da ética e da transparência nas ações.

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