O Palhares e a política nacional PDF Imprimir E-mail
Política
Sergio Granja   
Sáb, 02 de agosto de 2008 18:03
CorrupçãoNelson Rodrigues criava personagens-tipo. Um de seus tipos era o Palhares, o que não respeitava nem a irmã da própria esposa. Palhares encarnava o canalha porque, certa feita, ao cruzar com a cunhada ― noiva, 17 aninhos ―, num corredor estreito, ermo, à meia-luz, não resistiu à tentação e tascou-lhe um beijo na boca. Daqueles de novela das oito, sacou? Veja só: por ceder ao ímpeto erótico, tornou-se um canalha, pois, como se sabe, para Nelson, “o homem só começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos”.

O adjetivo canalha indica pessoa vil, reles e aplica-se aos dois gêneros. Como substantivo e adjetivo, canalha indica quem é infame, vil, abjeto, velhaco, seja homem ou mulher. Como substantivo feminino, é de uso pejorativo para designar um conjunto de pessoas infames, abjetas, desprezíveis. Era com esse sentido que o CCC, o famigerado Comando de Caça aos Comunistas, o utilizava em sua consigna de meia-oito: Morte à canalha comunista!

Canalha é também um regionalismo de Portugal, aludindo a grupo de crianças, criançada. Infelizmente, não é nessa acepção que o termo ganha relevância entre nós.

Pode ser útil saber ainda que o coletivo de canalha assume as denominações de canalhada, cáfila, cambada, corja, jolda, maloca, malta, matilha, pandilha, partida, quadrilha, récova, récua, rabacuada, súcia, suciata. E que canalhice designa o ato próprio do canalha.

Analisadas as condutas pelo crivo rodriguiano, pouca gente escaparia do rol dos canalhas. Quem nunca se deixou arrastar por um impulso? Pois atire a primeira pedra aquele que não pecou por amor.

Isso me faz lembrar uma roda de conversa fiada na qual se discutia o rumoroso caso do senador Renan Calheiros. A certa altura, alguém fez esta reflexão implacável: Também, um cara que não é fiel à própria esposa, como se poderia esperar que fosse fiel à massa anônima que o elegeu? A reflexão calou fundo, pois o bate-papo se extinguiu de pronto. As pessoas olhavam pasmas umas para a cara das outras, sem palavras. Até que um gaiato, rompendo o mutismo, do alto da sua competência de cientista político, pontificou: A corrupção é sistêmica. É inerente ao capitalismo. E aí a roda se dissolveu de vez, porque se tornara ocioso ocupar-se com alguma coisa que era da natureza das coisas e, portanto, não teria solução à vista.

Quando aconteceu o caso Daniel Dantas, esse mesmo gaiato (refiro-me ao cientista político) me explicou que era besteira denunciar corrupto. Isso não leva a nada, ensinou. Então, ainda engasgado com os dois habeas corpus do Gilmar Mendes e com a intervenção do Planalto sacrificando o delegado que comandara a operação da Polícia Federal, perguntei qual era a solução. Ele disse, de forma um tanto vaga: A grande política.

Essa idéia de grande política me deixou com a pulga atrás da orelha. Afinal de contas, a grande política não seria a política dos grandes? E que política sobraria para os pequeninos? Deixar-se espoliar sem gritaria? Sim, porque a espoliação é da natureza mesma do sistema. Ou alguém poderia conceber um capitalismo sem expropriação da mais-valia sobre o trabalho assalariado? Quer dizer, qualquer luta política, qualquer manifestação de protesto, qualquer greve, tudo isso seria balela, pois a exploração é sistêmica, sacou?. Logo, o melhor é cruzar os braços e viver a vida como ela é.

Se você é honesto ― talvez tenha beijado a cunhada, ou corneado a esposa, mas no demais se conserva probo ― e calha de ser delegado ou juiz, como deveria se conduzir num caso como o do Daniel Dantas, ou do Renan Calheiros, ou do Salvatore Cacciola?

A indagação tem razão de ser, porque o meu amigo gaiato explicou que a atitude correta do delegado ou do juiz pode suscitar esperanças vãs; e, o que é mais grave, ensejar, com sua exemplaridade, um protofascismo inspirado no culto da autoridade policial ou judiciária. Eu poderia objetar que, ao contrário, a pura e rasa descrença na possibilidade de redenção das instituições republicanas brota o germe do salvacionismo fascista. Ou que a exemplaridade desses agentes do poder confrontada com o cotidiano desse mesmo poder teria um efeito desmistificador das instituições. Mas, vá lá, o cientista político é ele.

Baseado na sapiência do cientista, conclui que o melhor é não ser delegado ou juiz; mas, se, por acaso, não der para evitar, não tem jeito: o negócio é fazer vista grossa pra corrupção sistêmica (novo nome para os crimes do colarinho branco). Matutei, matutei e conclui que, se é assim, então por que não levar uns trocados nessa parada? Afinal, convenhamos, o sistema está forte pra chuchu, não há como derrotá-lo. Sem alternativa, o jeito é aderir.

Prosseguindo nessa lógica, compreendi como é que se chegou ao “mensalão”. Nada mais natural que fossem aparecendo os ex-guerrilheiros, os ex-comunistas, os ex-sindicalistas que acabariam se acomodando à nova práxis de “metade pra causa, metade pra casa”.

Já se disse que os males do país não podem ser atribuídos a um canalha, nem mesmo a algum do porte de um banqueiro. (E olha que há inclusive filólogos de ocasião que juram de pés juntos que o termo dantesco é um derivativo do ilustre nome de família de Cícero Dantas, Barão de Jeremoabo, o maior latifundiário do Brasil Império, bisavô... advinha de quem? De Daniel Dantas.)

Se os males do país não podem ser atribuídos a um único canalha, não custa nada creditá-los a uma enxurrada de canalhices executadas por uma sucessão de canalhadas no poder. Isso pode até não corresponder a um diagnóstico mais sofisticado da política brasileira, mas pelo menos serve para desopilar o fígado da indignação nacional. No quadro atual, já é alguma coisa.

Outro amigo, filósofo, mobilizou, com sua erudição, o aparato conceitual gramsciano para caracterizar esse processo como “transformismo”. Pode ser. Deve ser. O meu amigo filósofo é muito culto. Mas cá pra nós, eu insisto, esse tal de “transformismo” me soa mais como uma espécie de canalhada aprontando grandes canalhices.

Não seriam estes “transformistas” os Palhares da política nacional?


Sergio Granja é pesquisador da Fundação Lauro Campos.
 
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