Lula e a despolitização da política PDF Imprimir E-mail
Política
Milton Temer   
Dom, 07 de setembro de 2008 15:19
"(...)  Na medida em que se institucionalizou excessivamente, o PT enfrenta problemas para vincular-se com  fenômenos como Chiapas ou os sem-terra. O partido acaba muitas vezes preso a um calendário eleitoral e a modalidades institucionais de fazer política que limitam muito a capacidade de criação estratégica inovadora de sua parte.
(...) diria que a questão da moralidade (ou imoralidade) do neoliberalismo é um assunto que devemos considerar seriamente. Quando o governo brasileiro usa bilhões de dólares para apoiar bancos e nada para garantir o direito ao emprego, a universalização da saúde e da educação, estamos diante de uma lógica brutalmente cruel. Tudo pode ser fechado no país: uma escola, um hospital, uma empresa industrial. Mas se um banco se fecha, seu teto cai sobre a cabeça de todo o povo".
Milton TemerBela reflexão sobre o governo Lula, não é verdade?  Precisa, sintética, objetiva e atual, como só um pensador marxista, com perspectiva revolucionária, poderia elaborar.

Pois  opera em ledo equívoco quem assim concluir.

O texto reproduzido na abertura da página se referia – para confirmar a semelhança entre os dois –  ao governo Fernando Henrique Cardoso. Foi publicado em 1999, num dos mais importantes capítulos do Pós-neoliberalismo II, excelente livro editado pela Vozes, com ensaios assinados por alguns dos mais expressivos cientistas políticos da América Latina. Trata-se da participação, em um debate final, gravado, do sociólogo Emir Sader, organizador da coletânea, com outros autores presentes na obra. Emir, isto não é mistério, era então um dos mais ardorosos defensores dos segmentos combativos do PT  que, nos embates internos, já contestavam a guinada ideológica dos setores mais próximos a Lula e a Zé Dirceu, rumo aos acordos com o grande capital nacional e internacional. Ou seja; os setores ligados à Articulação e às correntes moderadas que com ela se associavam no chamado "campo majoritário", na busca de "pontos positivos" que fundassem uma "oposição propositiva" à contra-reforma, política, econômica e social, imposta  pelo governo FHC.

E por que o retomamos aqui? Para mais um registro da rendição absoluta do governo Lula ao neoliberalismo mais escrachado; agora reforçado pela total submissão aos caprichos dos que se incomodam com a ação da Polícia Federal quando ela se volta para os corruptos do colarinho branco?

Seria perda de tempo, pela repetição do óbvio. Retomamos aqui para constatar uma das conseqüências trágicas do governo Lula naquilo que diz respeito à cooptação até mesmo de cabeças consolidadas na formulação mais avançada dos necessários processos de mobilização social que o país vê desaparecerem de forma acelerada. Mobilizações crescentemente entorpecidas pela despolitização da política,  que avança célere na adesão ao mais rasteiro pragmatismo assistencialista. Retomamos para constatar o quanto de avanço nas lutas e conquistas por uma sociedade mais justa e democrática foi jogado na lata do lixo da história por conta da rendição de setores e personalidades ao mais cômodo oportunismo conjuntural.

Porque, a despeito de toda a adesão do governo Lula ao  neoliberalismo – agora reiterada no absurdo anúncio de privatização do Aeroporto do Galeão (entrando numa área estratégica que nem FHC ousou tocar) –, Emir Sader é apenas um exemplo de um time de intelectuais paulistas de tradição até sectária, na visão esquerdista que sempre tiveram da política, que optou por dar aval político e apoio atuante aos destrambelhos do governo Lula.

Tal perverso processo tem possibilidade de ser barrado? Difícil imaginar, quando se verifica a crescente hegemonia dos interesses do grande capital nas principais estâncias do aparelho do Estado. Está aí Nelson Jobim, hoje ministro da Defesa, fazendo parceria com o atual presidente do Supremo, Gilmar Mendes, no ataque às instituições públicas que passaram a centrar fogo nos criminosos de colarinho branco. E quem são os dois, apenas para relembrar passado recente de suas biografias? Nelson Jobim, tucano emplumado que, quando ministro do STF, usou do recurso do pedido de vista para colocar na geladeira, por vários anos, o processo que obrigava os bancos a se submeterem ao Código de Defesa do Consumidor. Processo decidido contra os interesses da grande banca, tão logo conseguiu chegar à deliberação do Pleno. Quanto a Gilmar Mendes, quem vai esquecer seu papel de Advogado Geral da União no tempo do governo FHC, aquele que foi flagrado no empenho de entregar a Daniel Dantas o controle absoluto das telecomunicações privatizadas?

Não pode haver dúvidas. Na despolitização da política, Luis Inácio Lula da Silva conseguiu se transformar num defensor mais eficaz dos interesses predatórios dos grandes capitais especulativos do que o foi o seu antecessor, durante o mandarinato tucano-pmdb-pefelista que nos assolou por oito trágicos anos.



Milton Temer
é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos.
 
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