Lula, solução para o grande capital predador PDF Imprimir E-mail
Política
Milton Temer   
Dom, 02 de novembro de 2008 16:45
“Apesar do pânico nos mercados na última segunda, (...) chega para a entrevista num restaurante de Salvador vestindo blazer, sem gravata e sem sinal de preocupação. 'Não acredito em recessão nos EUA'.(...) Otimista, ele acha que o país vive hoje o melhor momento da história. Uma das razões citadas é o fato de Lula, seu conhecido desde 1992, ter mantido a mesma linha dos governos anteriores, o que não foi surpresa para ele. 'Lula nunca foi de esquerda'.  Para sucessor do presidente, defende um gestor e citou os nomes de Dilma Rousseff e José Serra”.
Milton TemerO parágrafo acima não é criação do escriva que vos invade. Trata-se, na verdade, de um resumo de ópera. É a abertura da entrevista que o empresário baiano Emilio Odebrecht concedeu à Folha de São Paulo, em 27 de janeiro deste ano. É um instrumento mais do que eficaz, e oportuno, para qualificar o quadro conjuntural que o governo Lula nos impôs até a metade de seu segundo mandato, e para definir a quem, na verdade, continua servindo nas soluções que apresenta à brutal crise que apenas começamos a enfrentar.

De pronto, mostra que a previsão estratégica do grande capital privado, decantado pelos colunistas a serviço do poder como sempre mais eficaz que o das empresas do Estado, pode revelar absoluta incompetência – “não acredito em recessão nos EUA”, a poucos meses do estouro da boiada em Wall Street.

Escusado reiterar que tal previsão já ia no sentido contrário ao que os odiados economistas e analistas políticos, a partir de uma visão de esquerda, há muito denunciavam por conta das debilidades do atual modelo macroeconômico. Um modelo fundado no fluxo desregulamentado de capitais financeiros transnacionais, no mais das vezes puramente especulativos, que o Banco Central de Henrique Meirelles, com o aval do Planalto, continua a nos impor.

Mais ainda; o parágrafo consolida a avaliação que sempre fizemos quanto à opção ideológica do governo Lula, definida mais explicitamente a partir da década de 90, nos embates em que a questão do socialismo se colocou de forma mais conflitiva nos congressos do PT. “Lula nunca foi de esquerda”. E, para os que pretendam contrapor-se, invocando iniciativas tais como a visita importante a Cuba, ou a preocupação social através das políticas assistencial-distributivas, vale recorrer a um trecho do corpo da entrevista: “O investidor estrangeiro sempre perguntava como se comportaria o Brasil com um presidente com esse perfil de esquerda, com essa ideologia, e veja o que aconteceu. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para o nosso país, sem dúvida nenhuma. O investidor estrangeiro viu que os contratos foram preservados, que a linha ideológica, ao contrário, é até mais rígida, em determinados aspectos, do que a dos anteriores. O Brasil tem mais consistência e inspira outro nível de confiança ao investidor. Essa quebra de tabu tranqüilizou os investimentos, e o que se viu é que esse governo não tem nada de esquerda” (...) “e sabe conviver com Deus e todo mundo, com gregos e troianos”.

Positiva a ida de Lula a Cuba e suas eventuais barretadas aos governos progressistas da América Latina; aos governos que realmente enfrentam o grande Império? Sem dúvida. Mas não existe nessas movimentações nenhuma contestação aos interesses do grande capital. Pelo contrário. Garante espaços para os já privilegiados exportadores. Assustador foi constatar que, na pendenga entre o governo Rafael Correa e a própria Odebrecht, a diplomacia brasileira tenha ensaiado movimentos de intervenção como se se tratasse de problemas entre Estados e não de uma denúncia comprovada de um governo contra uma empresa que não cumpriu os contratos para obras estratégicas a que se propôs.

Quanto às políticas sociais, nada contra, desde que colocadas em sua devida dimensão. Desde que comparadas ao que se mantém caindo nas burras dos privilegiados no desequilibrado cenário de distribuição de renda nacional. Os R$ 8 bilhões despendidos, em um ano de Bolsa Família, na melhoria da situação de miséria de algo em torno de 11 milhões de lares, apenas se igualam ao lucro, em nove meses, do segundo maior banco privado brasileiro, nesse mesmo ano. E R$ 500 milhões a menos do que o abocanhado pelo maior deles.

Por fim, a entrevista revela o que deseja o grande capital privado para a sucessão de Lula – alguém que dê um passo adiante na “complementaridade dos governos Lula e FHC”; que dê seqüência ao mais do mesmo, para ser mais claro. E aponta alguém que tenha capacidade de gestor, nominando: Dilma ou Serra, sem ordem de preferência. Tudo, farinha do mesmo saco, nesta sinergia crescente das ideologias petista e tucana.

Ou as esquerdas, onde estiverem, se dão conta dessa absoluta identidade de propósitos privatistas, neoliberais, submissos aos grandes banqueiros, predadores do agronegócio e empreiteiros, construindo uma alternativa objetiva para 2010, ou, lamentavelmente, não teremos uma saída progressista para a crise que o capital financeiro gerou por sua própria atividade fim – a especulação com a riqueza fictícia. Pelo contrário; podemos desembocar num quadro mais grave para o mundo do trabalho, incapaz de reagir diante da fragmentação que a onda crescente de desemprego pode gerar.

Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos.
 
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