Que meias verdades o advogado de Daniel Dantas já reconhece nas investigações? PDF Imprimir E-mail
Política
Milton Temer   
Sex, 21 de novembro de 2008 11:04
Milton TemerE agora, ministro Gilmar Mendes? Quando é o próprio advogado de Daniel Dantas, Nélio Machado, que desde os tempos de Proer sempre está à  disposição dos banqueiros envolvidos em denúncias de fraudes, quem declara estarem tentando "transformar meias verdades em verdades plenas", o que isto quer dizer? O merítissimo presidente da Corte Suprema, muito atento a este processo, vai admitir que, por ato falho, ou por conhecimento de causa, até o próprio causídico do protegido Dantas reconhece partes incontestáveis das muitas acusações contra o maior predador da conjuntura econômica brasileira? Isto mesmo, aquele que o senhor tratou de manter em liberdade, independentemente da possibilidade evidente que possui de pressionar, coagir ou até ameaçar possíveis testemunhas? Independentemente de seu imenso poder de penetrar e corromper nos mais altos escalões das chamadas instituições republicanas?

A declaração não foi dada em conversa particular com alguns amigos, por conta de mais algumas doses de uísque, Ela constituiu o fecho de uma entrevista concedida ao Jornal Nacional de quinta-feira, 20, após a divulgação da reportagem exclusiva sobre o novo relatório, elaborado agora pelo delegado Ricardo Saadi – aliás, confirmando tudo o que havia sido apurado pelo delegado Protógenes Queiroz, afastado após brutal campanha promovida contra ele e contra o juiz Fausto De Sanctis , que emitira o mandado de prisão contra o banqueiro.

Do episódio, várias ilações podem ser extraídas. Antes de tudo, a necessidade de o advogado de Dantas tornar públicas as meias verdades que já admite. Certamente seriam de grande valia para a definição do processo que ele, com toda a cobertura nas mais distintas instâncias de poder e influência, vem tentando protelar.

Outra questão fundamental, principalmente para os que tiveram oportunidade de ouvir a gravação da conversa entre o superintendente Leandro Coimbra e os responsáveis pela equipe, no dia em que se determinou o afastamento de Protógenes (<http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u469118.shtml>). Há que se registrar um verdadeiro estupor.

Naquela reunião, todo o eixo do ataque a Protógenes vinha por conta do vazamento da operação de encarceramento da quadrilha de alto coturno – Dantas, Nahas e Pitta – para a TV Globo. "Se fosse para vazar, que fosse para a TV pública, pois esta não fatura nem lucra com notícia. Mas para a Globo!?!?!", insistia o superintendente. Pois agora, sem Protógenes na parada, quem é o responsável por esse furo do mesmo Cesar Traglia que sempre termina por ter prioridade no que não pode ser revelado na Polícia Federal? E como é que fica o inquérito contra as "irregularidades" de Protógenes, afastado basicamente por denúncias de vazamento nas investigações, tendo em vista que até declarações sobre o que lhe é injustamente imputado ele tem evitado comentar em entrevistas? Por acaso, o tucano-pepesista Raul Jungman vai tomar mais alguma providência salvadora dos interesses de Dantas?

Outra ilação importante é a necessidade de conhecer o desdobramento das investigações sobre a "fita que ninguém viu, ninguém ouviu", na qual o ministro Gilmar Mendes e o Senador Demóstenes, do PFL de Goiás, terminam engrandecidos pela divulgação do grampo a favor. Do grampo que os pinta como homens imaculados. Se houve tal gravação, ela certamente não foi comprometedora para os dois participantes. Pelo contrário, os dois foram os maiores beneficiados com o que foi divulgado.

Mais fundo ainda; que fará o ministro Gilmar Mendes caso o juiz De Sanctis, até por conta da denúncia reiterada, com apoio do ministério público ao delegado Saadi, se decida pelo pedido de prisão preventiva de Dantas e seus cúmplices?

E por final, reiteramos: urge que o advogado Nélio Machado revele as meias verdades que ele reconhece. Talvez sejam mais do que as necessárias para se contrapor à tentativa de desvio do alvo das investigações que vem sendo promovido pelos principais órgãos de informação, escrita, televisiva e radiofônica. Pois é impressionante como, a despeito de toda a consistência das denúncias contra Dantas, podem haver tantos espaços privilegiados para que a "defesa", que já conta com advogados contratados pelo banqueiro sendo apontados como cúmplices dos crimes do patrocinador que o contrata, possa se estender na tentativa de desqualificar juiz e delegados que têm feito precioso trabalho.

Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos.
 
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