Por que Jarbas chiou? PDF Imprimir E-mail
Política
Milton Temer   
Sex, 20 de fevereiro de 2009 15:39
TemerSem muitas ilusões com a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, denunciando as características intrínsecas daquilo que hoje conduz os destinos do PMDB.  É verdade: tanto ele quanto Pedro Simon são daquela parcela combativa que o próprio povo condecorou com a marca de “autênticos” no combate à ditadura.  Mas, se havia os autênticos, no então MDB, havia também os acomodados.  Comprovando ser o partido, mesmo em sua origem na oposição ao regime autoritário, um balaio de caranguejos, onde a média era bem acomodada aos espaços que conseguia manter, sem incomodar os senhores de então.

Na conjuntura atual, o coerente não é Jarbas Vasconcelos mas, sim,  Pedro Simon, quando deixa claro o fato de a degradação partidária não se limitar à legenda onde ainda se abriga. E é verdade. O que o PSDB – ninho dos pilantras das privatarias – e o PT – saco de gatos onde convivem mensaleiros e acomodados – têm de especial em relação ao PMDB?  Nada, para ser bem explícito. O governo Lula os transformou em farinhas do mesmo saco.

O que difere Simon de Jarbas Vasconcelos é o senador gaúcho não precisar dar entrevista bombástica.  Sua vida quotidiana, desde o mandarinato neoliberal de FHC, é de ataque aos desvios de conduta que Sarney – homem forte da Arena, antes de fundar o malfadado PFL –, Michel Temer e Renan Calheiros, para citar apenas os mais em evidência,  estabeleceram como rotina do PMDB.

Há muito tempo, e a despeito de seu imenso prestígio no Parlamento, sua posição faz com que seja preterido para qualquer cargo na Mesa Diretora ou presidência de Comissão a que o partido tenha direito. A partir do próprio governo Lula, quem vai para líder é o mesmo Romero Jucá, de inestimável folha de serviços prestados tanto à ditadura quanto aos governos que se seguiram, principalmente ao de FHC. Que dizer então dos espaços  concedidos a raupps, e outros do mesmo jaez?

Jarbas Vasconcelos não opera nesse varejo sem-bandeira, mas suas bandeiras não são as de Simon.  Quando a revista Veja – que se transformou no escoadouro de tudo o que há de reacionário e direitista neste país – lhe dá tanto espaço é porque ambos operam na mesma sintonia: apoio ao candidato tucano à presidência da República, na sucessão de Lula. Ou seja; Jarbas denuncia agora o que até os pingüins de geladeira sabiam estar em pleno vigor durante o governo FHC.  E aí está o busilis. Pois naqueles malfadados oito anos, ele, Sarney, e principalmente a dupla  Michel Temer-Geddel – o correspondente baiano de Eduardo Cunha –, estavam inteiramente alinhados com a implantação acelerada do neoliberalismo tardio, através da entrega de nossas melhores e mais importantes, estrategicamente, empresas públicas brasileiras ao capital privado, com financiamento do BNDES e dos fundos de pensão estatais. Ou de pioneirismo, com o famigerado Proer,  na utilização do dinheiro do Tesouro para encher as burras dos financiadores de campanha do sistema financeiro privado; manobra hoje posta em prática pelos governos neoliberais dos centros mais importantes do sistema capitalista. Não havia, portanto, razão para ele denunciar o que já então era prática do seu partido, pois o feito tinha sua concordância total.

Nesse contexto, a carta da bancada do PSOL – que leio como cobrança e não como apoio –, exigindo do senador a citação dos nomes envolvidos na acusação genérica que apenas torna público o que todos os corredores de Brasília comentam, é oportuna.  Tal denúncia teria efeito devastador, semelhante, como lembra Leo Lince em seu artigo sobre o assunto, ao produzido pelas denúncias de Pedro Collor contra o governo do irmão.  E serviria, sobretudo, pelo desdobramento que certamente provocaria com a divulgação dos detalhes dos acordos fisiológicos e clientelísticos, para mostrar que não só o PMDB tem responsabilidades.  São cúmplices os que lhe concedem o atendimento das exigências para mantê-los, por puro interesse pragmático, e sem qualquer pudor no desatendimento de programas partidários, na base de sustentação parlamentar do Planalto.

E, com isso, afastar a cortina que esconde as diferenças essenciais, na América Latina, entre o governo nascido na esquerda, que resolveu ser o “governo de todos”, e os governos também nascidos na esquerda que compreenderam sua tarefa histórica de construir uma sociedade mais justa e democrática.  Porque estes sempre tiveram claro: os que prometem governar “para todos”, governam na verdade para os poderosos de sempre.  Usando, é claro, as sobras do Tesouro para engabelar a base social que mais tinha esperanças no Brasil. Ou, melhor dizendo, é pouco o que se precisa para engabelar os mais despossuídos.
 
 
Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos

 
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6 Comments

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  1. Entendo que jornalistas sérios, como Milton Temer, contribuiriam muito com o processo democrático se, em período eletoral, republicassem artigos como esse; pois o povo brasileiro, infelizmente, tem memória curta, nunca lembra que certas figuras do PMDB sempre estão no governo, seja ele de esquerda ou de direita, ou seja, o PMDB é o partido dos oportunistas.
  2. SE DIAS GOMES ESTIVESSE VIVO COM CERTEZA O SENADOR JARBAS VASCONCELOS SERIA PERSONAGEM DE MAIS UM CAPÍTULO DA NOVELA O BEM AMADO COM DIREITO A ODORICO PARAGUAÇU E SUCUPIRA. WALDIR GIACOMO (PRESIDENTE DA COMISSÃO MUNICIPAL DO PSOL JUIZ DE FORA/M, M-2236379 SSP/MG)
  3. pmdb, pt, psdb, psb "et caterva"... "Tutti prostituti"!
  4. Um absurdo,falta de respeito com a sociedade brasileira, mas nada de novidade, como cita a própria matéria do Sr Milton. Entendo e espero que essas pessoas não fiquem impunes, mas se ficarem pela justiça, que sejam punidas nas urnas, isso tem que vir a tona nas eleições para que o povo acorde e dê o troco.
  5. Tudo farinha do mesmo saco, não tem ninguém melhor nem pior; quando chegam no poder esquecem quem os colocou no poder.
  6. Indignação, revolta, estupefação. Não tenho mais palavras e sentimentos para retratar o que sinto frente ao cenário político e ao verdadeiro teatro trágico vivido pela sociedade brasileira. Conivência e, melhor, co-autoria e quadrilhismo são as verdadeiras contribuições dadas pelos quadros dos três poderes e das mídias. Sinceramente, não espero nada e me entristeço demais ao pensar nos rumos desse país chamado Brasil.

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