O presidente crupiê e o fim da festa do cassino global PDF Imprimir E-mail
Política
Paulo Henrique Costa Mattos   
Qui, 19 de março de 2009 12:20
Paulo HenriqueEm 1999 o escritor Carlos Heitor Cony escreveu um artigo intitulado “A Cruz de Ouro e os dois presidentes” em que dizia que a tendência em mais alguns anos de neoliberalismo seria uma ditadura do mercado que conduziria o mundo para um processo desastroso de concentração de riquezas nas mãos de alguns poucos conglomerados internacionais que substituiriam os Estados nacionais. E ainda segundo Cony, “nós chegaríamos limite da convivência pacífica e o modelo econômico global produziria condições explosivas que poderiam se alastrar sem possibilitar a garantia de um mínimo de governabilidade.”

Usando uma imagem lançada por Roger Garaudy, o talentoso Cony afirmava no artigo que “o neoliberalismo está crucificando o povo numa cruz de ouro, numa gigantesca cruz de ouro que gerará um enorme desgaste aos governos quando finalmente o povo perceber que fora crucificado pela ação nefasta de um Estado neoliberal que não é mais era um Estado, mas uma mesa de câmbio e investimento visando o lucro de grupos em detrimento da sociedade em geral, que precisa de saúde, educação, segurança, moradia etc.”

O aprofundamento da crise mundial, o aumento do desemprego, o desaparecimento de milhares de vagas de trabalho com carteira assinada e a retração econômica parecem de forma assustadora estar confirmando as proféticas palavras do velho e bom jornalista Cony, embora muita gente ainda continue acreditando que o Brasil está imune a crise e que Lula conseguirá manter toda a governabilidade que conseguiu até agora, afinal nunca antes um presidente alcançou na história recente do Brasil índices tão robustos de “apoio popular.”

Mas cada vez mais está evidente que a habilidade política do presidente da República parece repousar num assumido cinismo operacional. Ele sabe que o Brasil está numa rota de Titanic e que o povo mais uma vez pagará o preço da crise do capital, ele sabe que a crise econômica mundial não é nenhuma “marolinha” e sim um tsunami de grandes proporções e nos acertará sem piedade. Todavia contrariando o preceito bíblico, ele continua servindo aos dois senhores e como um Robin Hood, o príncipe dos ladrões, invertido ele continua tirando dos pobres e dando cada vez mais aos ricos. Basta ver como tem disponibilizado bilhões e bilhões para salvar grandes empresas privadas e até mesmo pagar suas dívidas contraídas no exterior. É preciso mais do que coragem para isso.

É preciso ter cara de pau e ser um grande crupiê (empregado que nos cassinos ou outros estabelecimentos de jogos de azar dirige o jogo, paga e recolhe as apostas). Todavia a sorte de nenhum jogador ou operador de mesa de jogos dura para sempre. Uma hora a onda vira. E no caso de Lula a onda vai virar quando o povo perceber que vinha sendo enganado, roubado e iludido.

A se continuar essa grande farsa e a sanha dos apetites inconfessáveis do ex-operário presidente e seus 40 ministros (incluindo aqui os ministros sem pastas como os grandes lobistas do capital que mandam no governo) o jogo que está sendo disputado será ganho mais uma vez pelos donos das grandes fortunas que mandam no Brasil.  É como aquele jogo que fez muito sucesso quando apareceu. Com nomes diferentes (“Monopólio”, “Banco Imobiliário” etc), utilizavam valores fictícios. Depois de algum tempo, concluído determinado número de lances, fatalmente um dos jogadores fica dono de tudo.

Mas o crupiê presidente Lula está tendo que cada vez mais usar discursos contraditórios para contentar aos trabalhadores e ao empresariado, pois nos pátios das empresas (como a Embraer, por exemplo) aos escritórios luxuosos da Avenida Paulista a luz vermelha e a sirene já estão ligadas, dando alerta para a chegada das primeiras ondas do tsunami neoliberal global que já afoga milhões na Europa, na Ásia e na América do Norte.

No gabinete presidencial, quando fala para empresários, banqueiros, especuladores e toda a caterva (corja, malta etc) ou quando anda pelo país inaugurando obras eleitoreiras do PAC (Programa de Alteração Cosmético) ele se mostra moderno e globalizado, atento aos movimentos da Bolsa e seguro de que o Brasil tem “fundamentos econômicos sólidos”, nos porões do Palácio do Planalto deve estar despachando galinhas pretas para as encruzilhadas mais próximas pedindo aos orixás que permita ele terminar 2010 sem ser atropelado e que o povo continue bestializados a beira do abismo. Quem sabe assim ele consiga eleger sua plastificada ministra a primeira “presidenta” do Brasil. Ledo engano!

É preciso lembrar que assim como o hábito do cachimbo entorta a boca do fumante, o hábito da mentira às vezes engana o próprio mentiroso. Aqueles que acharam ser possível governar um Estado grande, complexo, e socialmente injusto apenas com pó de arroz e cestas básicas, com bolsa cidadã e belos discursos,  desvinculados do nacionalismo e dos compromissos sociais, em breve verão que estavam tão enganados como aquela outra turma que dizia que a globalização neoliberal era um fenômeno irreversível, sólido e o final da história.   O grande erro deles foi acreditar em suas próprias mentiras, pois ficaram encantados com os impulsos eletrônicos que registram quantias astronômicas que realmente não existem. Da mesma forma como os ex-barbudos do PT se encantaram com os tapetes vermelhos do poder e as garrafas de Romaneé-Conti, o mais consagrado e mais caro vinho tinto do mundo, tão apreciado pelo chefe dos mensaleiros José Dirceu.

A lógica perversa da chamada “modernidade globalizada”, mais cedo do que pensávamos, cobrará seu alto preço e já diz que o Governo e a turma de seu cassino não deve se alegrar: a situação permanece tensa e de uma hora para outra pode começar as mobilizações populares que ainda darão muita dor de cabeça “aos responsáveis pela ordem.”


Paulo Henrique Costa Mattos
é presidente do PSOL-Tocantins.
 
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  1. Muito interessante o artigo, parabéns. E fiquei curioso para ler o artigo mencionado, Carlos Heitor Cony escreveu um artigo intitulado “A Cruz de Ouro e os dois presidentes”. Seria possivel publica-lo ou indicar um site com a publicação? Obrigado

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