EDITORIAL: O mocinho e os bandidos PDF Imprimir E-mail
Política
Fundação Lauro Campos   
Qui, 26 de março de 2009 20:21
apoioNa quarta-feira passada (25 de março), um grupo de nove parlamentares prestou solidariedade ao delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, que vai depor na CPI das Escutas Telefônicas da Câmara dos Deputados na próxima quarta-feira (1o de abril) .  Os deputados e senadores querem garantias de que o policial não será algemado nem constrangido durante a sessão.

É de se questionar: por que esses parlamentares estão preocupados?  Poxa, até o Pedro Simon!  Não estariam imaginando coisas?  Não estão, não.

Imagine, por exemplo, um bandido de alta periculosidade dando as ordens na polícia.  É de arrepiar. Pois o delegado Álvaro Lins, ex-deputado estadual do PMDB no Rio de Janeiro, que teve o seu mandato cassado, foi condenado pela Justiça e atualmente cumpre pena, encarcerado.  Ele era o Secretário de Segurança do governador Garotinho.  Estarrecedor: durante anos, um bandido comandou a polícia no Rio de Janeiro.

Respire fundo e pense no Álvaro Lins, deputado, comandando uma CPI que investiga a investigação feita por outro delegado sobre um bandido poderoso, que tem conexões nas altas finanças e nas altas esferas do poder.  É ou não é assustador?

Quem preside a CPI na Câmara dos Deputados que investiga a investigação feita pelo delegado Protógenes sobre as tenebrosas transações do Daniel Dantas?  Outro delegado, o deputado federal Marcelo Itagiba.  Adivinhe de que partido ele é.  Se alguém disse que ele é do mesmo partido do ex-deputado Álvaro Lins e que se elegeu fazendo dobradinha com o delegado-bandido, acertou em cheio.  

Só pra ficar mais claro.  Itagiba fez campanha em parceria com Alvaro Lins, sem nenhuma preocupação com as denúncias que já planavam sobre o cenário do delegado-bandido.  E não só em comunidades dominadas pelas chamadas “milícias”, como também no evento que gerou o primeiro pedido de cassação ― aquela plenária em que os dois candidatos, mais o governador Sergio Cabral e o senador Dornelles, prometiam empregar concursados na Polícia Civil.

São muitas as perguntas sem resposta.  Por que investigar a investigação feita sobre o Daniel Dantas?  Que há de errado em um policial ir às últimas conseqüências na investigação de uma personagem que tem conexões com as altas finanças e as altas esferas do poder?  Será que há aí alguma coisa que não pode ser descoberta?  Será que os poderosos da República não resistem a uma investigação?  Se é assim, não estaríamos diante de podres poderes?

Que há de errado em que a ABIN coopere com a Polícia Federal numa investigação?  Por acaso os serviços de inteligência, sustentados pelo erário, não devem colaborar entre si no combate ao crime?  Afinal, para que servem os serviços de inteligência se não for para combater a criminalidade e as ameaças de potências estrangeiras contra a soberania nacional?

Há uma denúncia gravíssima, que talvez merecesse a atenção dos senhores deputados.  

Era uma vez uma senhora, muito pobre, que, suspeita de cumplicidade num roubo, foi presa pela Polícia Federal, no Rio Grande do Sul.  Ocorre que o crime que lhe imputavam era da alçada da Polícia Civil.  Então, por que a Polícia Federal invadiu a competência da Polícia Civil?  Seja como for, essa senhora ficou cega, segunda ela e suas filhas, em conseqüência das torturas sofridas durante o interrogatório a que foi submetida na Polícia Federal.  

Surge aí uma estranha coincidência.  Essa senhora que ficou cega era empregada doméstica da sogra do Superintende da Polícia Federal no Rio Grande do Sul.  Acontece que a sogra do Superintendente é a dona da casa assaltada.  E quem era esse Superintendente?  O delegado Luiz Fernando Corrêa.  Por acaso, ele é o atual Diretor Geral da Polícia Federal e não está sob investigação.  A revista Carta Capital denuncia a forma bizarra como o inquérito sobre o caso de tortura foi simplesmente arquivado.  Subordinado ao Diretor Geral está o delegado que comanda a investigação sobre a investigação do delegado Protógenes.   

Num estado de direito democrático, não caberia cidadãos acima de qualquer suspeita.  Se todos são iguais perante a lei, ninguém é intocável.  Será que, em vez de investigar a investigação do delegado Protógenes, não seria o caso de uma CPI para investigar o eventual uso da tortura como método de interrogatório na Polícia Federal? 

Incriminar o delegado Protógenes nesse processo kafkiano de inversão de sujeitos, causa espanto.  Arma-se, evidentemente, uma perseguição, injusta, contra o mocinho, enquanto os bandidos que ele prendeu são soltos e circulam alegremente por aí.  E mais: será que não são os bandidos que estão julgando o mocinho?

 
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9 Comments

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  1. Caros amigos, quando os litígios envolvem peixes graúdos, o Tribunal sempre fez seu papel, E qual é ele senão transformar em legal aquilo que de princípio era ilegal. “A Justiça nada mais é do que inútil quando nos servimos dela e útil quando não nos servimos”. E é assim que vive a Direita cagada, ops, Direita Togada de Gilmar Mendes .
  2. È assustador o que estão fazendo com o Delegado Protósgenes! E é por isso que temos que cada vez mais elegermos políticos engajados com causas e valores éticos como é o caso do PSOL, que está apoiando o pobre delegado vítima dos poderosos bandidos. E aí vai o recado a todos que se preocupam com isso: caso aconteça o pior com o delegado, devemos elege-lo já nas próximas eleições para um cargo político em Brasília!!! Caro Delegado Protósgenes, tamos juntos nesta luta! Minha sincera admiração!
  3. Tanto já se comentou sobre isso. É a inversão de valores e prioridades,em nome de interesses mútuos . Que chegue logo dia 08... dia do depoimento dele na CPI das Escutas. O Brasil estará atento.
  4. É estarrecedor! É muita podridão! Enquanto a população brasileira, emburrecida, ficar preocupada com o tal do "Big Bode" e com a novela idiota das oito, é isso aí. Tenha misericórdia de nós Senhor!!!
  5. É UMA VERGONHA REALMENTE. A COISA É SÉRIA, PRECISAMOS SAIR DESSA INÉRCIA E NO MINIMO DESPERTAR NOSSO SENTIMENTO COLETIVO DE REPUGNÂNCIA FRENTE A ESSA BANDIDAGEM POLÍTICA. ABR. SERGIO BRITO
  6. O Brasil é um país que não tem conserto... Somos governados por canalhas porque os eleitores são culturalmente analfabetos... e este circulo jamais será salvo... Quem manda no Brasil é o crime organizado... E o crime organizado são os políticos que estão no Congresso Nacional. É de lá que partem as ordens e as negociatas. E o homem que cuida das finanças de toda essa pouca vergonha é o canalha maior Daniel Dantas... E o nosso Presidente da República não passa de um Maria vai com as outras...
  7. Esquisito é que o Senador pela Bahia, Antonio Carlos Magalhães ( ACM ) e a Secretária Alves da SSP da Bahia promoveram um festival de grampos ilegais e o Congresso Nacional não se estarreceu com isso. Além disso o PT e o Dep. Nelson Pellegrino, uma das vitimas dos grampos, fizeram acordo para livrar ACM da cassação. Inacreditável? Pois isso realmente aconteceu.
  8. Talvez a nossa capacidade de nos indignarmos tenha sido induzida pela mídia a penetrar num típico estado de letargia. As aberrações que testemunhamos nestes tempos são tantas que não causa mais espanto um ex-líder sindical agir como um singular capacho dos patrões. Não causa qualquer estranheza um magistrado da suprema corte rasgar o código de ética da magistratura e vir a público criminalizar os movimentos sociais e sair em defesa de um criminoso de altíssima periculosidade. É até tolerável que congressistas corruptos recebam propinas milionárias e com isso tornem-se presidentes das mais importantes comissões do Congresso Nacional.
  9. Fazer hoje um comentário sobre o crime organizado, que se encontra instituido em todo o país, é muito complicado. Pois os tentáculos da maldade do imaginário humano estão instalados em todas as instituições, haja vista que o descrédito destas estão em cotação bem alta no cenário da sociedade. Creio que este sentimento de impunidade e da subversão da ordem já faz parte da cultura da esperteza do povo brasileiro. Ou mudamos nossas atitudes participando mais das resoluções que se fazem necessárias, fiscalizando, cobrando transparência e justiça. A Democracia serve não só para tirar proveito próprio, deve servir também para fazer cumprir nossa parte, dando o direito aos outros.

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