É preciso desmontar a máfia do Senado PDF Imprimir E-mail
Política
José Nery Azevedo   
Qua, 24 de junho de 2009 13:12
José Nery
José Nery
A prolongada e grave crise ética do Senado é um espelho dos problemas não resolvidos pela democracia brasileira. Formalmente somos um país que exercita periodicamente a consulta ao povo para eleger seus representantes. Na verdade, o financiamento privado das campanhas eleitorais, a cultura patrimonialista enraizada na máquina estatal e a impunidade dos delitos contra o erário público dão contornos elitistas e incompletos para esta democracia. O predomínio do poder econômico nas definições políticas, seja elegendo diretamente afilhados políticos, seja por meio de eficientes lobbys, destrói a legitimidade das decisões do Parlamento brasileiro.

 

A recente crise que arrasta o Senado para o mais profundo desgaste político é fruto deste contexto. Agrega-se a isto a existência de uma azeitada máfia, incrustada nos principais setores administrativos, que cresceu com o apoio e ou omissão de seguidas mesas diretoras. A edição de atos secretos é apenas um pedaço do iceberg. Temos todos os contratos de prestação de serviços terceirizados sob suspeita e até a concessão de empréstimos consignados foram afetados pelos esquemas de corrupção.

 

Em termos gerais a crise ética precisa ser enfrentada com uma profunda reforma política que, entre outras mudanças, estabeleça o financiamento público de campanha, formas de participação direta dos cidadãos nas decisões do Parlamento e total transparência de seus atos para a sociedade.

 

É preciso reverter a cultura de impunidade, desenvolvendo uma verdadeira operação mãos limpas, começando a mandar para a cadeia os corruptos provisoriamente presos pela Polícia Federal e soltos em seguida pela Justiça. A sociedade não voltará a acreditar no Estado sem uma demonstração de que os poderosos também podem ser punidos.

 

A crise imediata do Senado passa pela saída do atual presidente da Casa, senador JOSÉ SARNEY, que não possui condições políticas para continuar dirigindo a Casa e tem vínculos estreitos com os principais acusados de pertencer a máfia ali instalada. As constantes denúncias envolvendo nomeações irregulares de familiares do presidente Sarney tornaram ingovernável a sua gestão.

 

Passa também pela instalação imediata de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a fundo, quebrar o sigilo bancário e telefônico de todos os servidores envolvidos e descobrir todos os vínculos da máfia, inclusive com senadores. O resultado dessa investigação deve orientar uma profunda reforma administrativa na Casa, além da adoção de medidas transparentes que permitam maior controle da sociedade sobre exercício da atividade parlamentar.

 

Infelizmente a trajetória anterior do Senado foi de não punir e nem de investigar a fundo. A ação que desenvolvemos para cassar os mandatos de senadores envolvidos em fatos que caracterizavam quebra de decoro parlamentar foi abortado pela cultura da impunidade.

 

Espero que a atual crise sirva de lição. O Senado Federal só tem importância para a sociedade se conseguir aproveitar a atual crise e desmontar por completo a verdadeira máfia que se instalou no seu interior. É bem provável que esta máfia tenha laços com senadores, por isso cabe apuração rigorosa de todos os fatos e punição exemplar dos envolvidos, sejam eles servidores ou parlamentares. É o mínimo que a sociedade espera.

 

[Publicado no JB, 24/06/2009]

 

José Nery Azevedo é senador (PSol-PA)


 
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2 Comments

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  1. É isso mesmo conterrâneo. Representando o PSOL e o povo brasieliro vá fundo. Pegue pesado como a gurerreira Heloísa e faça jus ao seu mandato. Honre o nosso PSOL, como está fazendo MARCELO FREIXO no Rio e trabalhe para colocar os culpados usurpadores do erário na cadeia e que devolvam tudo à União. REFORMA POLÍTICA JÁ. REFORMA DO JUDICIÁRIO JÁ. FIM DA IMPUNIDADE A ÚNICA SAÍDA PARA DIMINUIR A CORRUPÇÃO NO BRASIL. Um forte abraço e sucesso. José Carlos ROSÁRIO Fundador do Diretório do PSOL de Maricá - Rio de Janeiro
  2. Concordo com o posicionamento do Senador José Nery e penso que a partir daí ele e os demais parlamentares do PSOL na Câmara de Deputados deveriam centrar suas intervenções em demonstrar que foi o financiamento PRIVADO de campanha que criou e continua alimentando essa máfia. Sem que isso seja substituído pelo financiamento PÚBLICO de campanha, a próxima legislatura será pior ainda, quanto mais com a crise estrutural por que passa o capitalismo, em que o grande capital irá apostar, cada vez mais, suas fichas na eleição de parlamentares que lhes deem respaldo para continuar tudo como está. Demonstrar como esse mecanismo de financiamento PRIVADO impede que os problemas efetivos da maioria da população sejam objeto de preocupação, debate e busca de soluções (mesmo que ainda dentro dos marcos do capitalismo).

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