Pensamentos tardios PDF Imprimir E-mail
Questões Ideológicas
Lênin   
SUN, 06 de APRIL de 2008 12:25
Chama-se compromisso em política à concessão feita em certas exigências, à renuncia de uma parte das próprias reivindicações em virtude de um acordo com outro partido.

A idéia que o vulgo tem habitualmente dos bolcheviques, sustentada pelas calúnias da imprensa, consiste em que estes nunca se prestam a compromisso algum com ninguém.

Tal idéia é auspiciosa para nós, como partido do proletariado revolucionário, pois demonstra que até nossos inimigos se vêem obrigados a reconhecer a nossa fidelidade aos princípios fundamentais do socialismo e da revolução. Mas, apesar de tudo, é preciso dizer a verdade: essa idéia não corresponde aos fatos. Engels estava certo quando em sua crítica ao manifesto dos blanquistas da Comuna (em 1873) ridicularizava a declaração deles: “Nenhum compromisso!” Isto é uma frase, dizia ele, pois os compromissos de um partido que luta são a miúdo impostos inevitavelmente pelas circunstâncias e é absurdo renunciar de uma vez por todas “a cobrar a dívida por partes”. O dever de um partido autenticamente revolucionário não consiste em proclamar a impossível renúncia a qualquer compromisso, mas em saber cumprir fielmente através de todos os compromissos ─ na medida em que sejam inevitáveis ─ com seus princípios, sua classe, sua missão revolucionária, sua obra de preparar a revolução e de educar as massas populares para triunfar na revolução.

Por exemplo: participar na III e na IV Dumas era um compromisso, uma renúncia temporária às reivindicações revolucionária. Mas era um compromisso absolutamente necessário, pois a correlação de forças descartava para nós, por um certo tempo, a luta revolucionária de massas, e para sua longa preparação era necessário saber trabalhar ainda desde dentro de um “estábulo” semelhante. A história demonstrou que tal colocação do proletariado pelos bolcheviques, como partido, era correta.

Agora, o problema imediato não é um compromisso imposto, mas um compromisso voluntário.

Nosso partido, como qualquer outro partido, aspira a conquistar o domínio político para si. Nossa meta é a ditadura do proletariado revolucionário. Seis meses de revolução confirmaram com extraordinária clareza, força e eloqüência o justo e inevitável de tal exigência, no interesse precisamente da revolução dada, pois para o povo não é possível obter de outro modo nem uma paz democrática, nem a terra para os camponeses, nem uma completa liberdade (uma república inteiramente democrática). O curso dos acontecimentos em meio ano de nossa revolução, a luta de classes e dos partidos, o desenvolvimento das crises de 20-21 de abril, de 9-10, 18-19 de junho, 3-5 de julho e 27-31 de agosto o demonstraram e revelaram assim.

Agora se produziu na revolução russa uma virada tão brusca e original que, como partido, podemos propor um compromisso voluntário, é certo que não à burguesia, nosso direto e principal inimigo de classe, mas a nossos adversários mais próximos, os partidos “principais” da democracia pequeno-burguesa, os esserristas e mencheviques.

Como uma mera exceção , unicamente forçados por uma situação especial que, evidentemente, se manterá apenas por um breve tempo, podemos propor um compromisso a esses partidos e, a meu juízo, devemos fazê-lo.

É um compromisso de por nossa parte retornar a nossa reivindicação de antes de julho: todo o poder aos Sovietes, formação de um governo de esserristas e mencheviques responsáveis perante os Soviets.

Agora, só agora, e quiçá apenas durante uns poucos dias ou por uma ou duas semanas, um governo desse tipo poderia ser criado e consolidado de um modo completamente pacífico. Poderia garantir com gigantesca probabilidade um movimento pacífico de avanço de toda a revolução russa e ofereceria extraordinárias possibilidades de que o movimento mundial avance a grandes passos para a paz e para o triunfo do socialismo.

Só em nome desse desenvolvimento pacífico da revolução, possibilidade extraordinariamente valiosa, excepcionalmente rara; só em nome dela, podem e devem, a meu juízo, os bolcheviques partidários da revolução mundial e dos métodos revolucionários aceitar tais compromissos.

O compromisso consistiria em que os bolcheviques, sem pretender uma participação no governo (impossível para o internacionalista, se não se realizam efetivamente as condições da ditadura do proletariado e dos camponeses pobres), renunciariam a exigir de imediato a passagem do poder ao proletariado e aos camponeses pobres e aos métodos revolucionários de luta por essa reivindicação. A condição, de por si evidente e que não representaria novidade alguma para os esserristas e mencheviques, seria a plena liberdade de agitação e a convocação da Assembéia Constituinte, sem novas dilatações e inclusive em um prazo mais breve.

Os mencheviques e os esserristas, como bloco governamental, consentiriam (no suposto de que se chegasse ao compromisso) em formar um governo, íntegra e exclusivamente responsável perante os Sovietes, passando à mãos destes todo o poder também nas províncias. Nisso consistiria a “nova” condição. Penso que os bolcheviques não proporiam outras condições, confiando em que uma verdadeira e completa liberdade de agitação e a imediata aplicação de novos princípios democráticos na composição dos Sovietes (novas eleições) e em seu funcionamento, garaqntiriam de por si um desenvolvimento pacífico da revolução e poriam fim pacificamente às lutas de partido no seio dos Sovietes.

Quiçá isso já seja impossível? Quiçá. Mas se existe, ainda que só seja uma possibilidade em cem, valeria a pena tentar.

Que ganhariam ambas as partes “contratantes”, quer dizer, os bolcheviques, por uma parte, e o bloco dos esserristas e mencheviques, por outra, com esse “compromisso”? Se nenhuma das duas partes nada ganhasse, seria necessário reconhecer a impossibilidade do compromisso e então não haveria para que falar dele. Por difícil que esteja agora (depois de julho e agosto, dois meses que equivalem a duas décadas de época “pacífica” e sonolenta) esse compromisso, me parece que existe uma pequena probabilidade de levá-lo a cabo, e essa probabilidade está dada pela decisão dos esserristas e mencheviques de não entrar num governo do qual façam parte os democratas constitucionalistas.

Os bolcheviquies sairiam ganhando, pois obteriam a possibilidade de realizar, com inteira liberdade, a propaganda de suas opiniões e, em condições efetivas e inteiramente democráticas, procurar influenciar nos Sovietes. De palavra, “todos” reconhecem hoje essa liberdade aos bolcheviques. Mas, na prática, é impossível com um governo burguês ou com participação da burguesia, com um governo que não seja soviético. Com um governo soviético essa liberdade seria possível (não dizemos: garantida com segurança, mas, contudo, possível). Por essa possibilidade, num momento tão difícil, haveria que se decidir a um compromisso com a maioria atual dos Sovietes. Com uma verdadeira democracia, nós nada temos que temer, posto que a vida está conosco e ainda a forma em que se desenvolvem as correntes dentro dos partidos dos esserristas e mencheviques, hostis a nós, confirma que estamos certos.

Os mencheviques e esserristas ganhariam ao receber de imediato a plena possibilidade de realizar o programa do seu bloco, apoiando-se sabidamente na maioria enorme do povo e assegurando-se a utilização “pacífica” de sua maioria nos Sovietes.

Por certo que desde esse bloco, heterogêneo por ser bloco, como também porque a democracia peno-burguesa é sempre menos homogênea que a burguesia e que o proletariado, desde esse bloco se levantariam provavelmente duas vozes.

Uma voz diria: nosso caminho não coincide de jeito nenhum com o dos bolcheviques, com o do proletariado revolucionário. Este, de qualquer maneira, exigirá mais da conta e arrastará demagogicamente os camponeses pobres. Exigirá a paz e a ruptura com os aliados. Isso é impossível. Estamos mais próximos e mais seguros com a burguesia., pois não nos separamos dela, senão que ralhamos com ela por um breve tempo e tão só pelo incidente de Kornilov. Ralhamos, mas já nos reconciliaremos. Ademais, os bolcheviques não nos fazem nenhuma “concessão”, posto que os intentos de insurreição de sua parte estão, de todo modo, condenados à derrota como a Comuna de 1871.

Outra voz diria: referir-se à Comuna é muito superficial e até bobo, pois, em primeiro lugar, algo aprenderam os bolcheviques desde 1871, e agora não deixariam de se apoderar dos bancos e não vacilariam em marchar sobre Versalhes; e em tais condições até a Comuna poderia ter triunfado. Ademais, a Comuna não podia oferecer ao povo em seguida tudo o que poderiam oferecer-lhe os bolcheviques se obtêm o poder, a saber: a terra aos camponeses, a proposta imediata de paz, um controle verdadeiro sobre a produção, uma paz honesta com os ucranianos, com os filandeses, etc. Falando em termos vulgares, os bolcheviques têm dez vezes mais “cartas de trunfo” em suas mãos que a Comuna. Em segundo lugar, a comuna significa , de qualquer maneira, uma penosa guerra civil, um longo estancamento do desenvolvimento cultural pacífico depois dela, facilita as operações e as manobras de todos os Mac-Mahon e Kornilov e tais operações ameaçam a toda a nossa sociedade burguesa. É sensato correr o risco da Comuna?

Mas a Comuna será inevitável na Rússia se não tomamos o poder, se as coisas seguem na mesma situação difícil em que estiveram desde 6 de maio até 31 de agosto. Todo operário e soldado revolucionário pensará inevitavelmente na Comuna, terá fé nela, intentará inevitavelmente levá-la a cabo, raciocinando assim: o povo perece, a guerra, a fome e a ruína prosseguem sua marcha. Só na Comuna está a salvação. Pereceremos, morreremos todos, mas tornaremos realidade a Comuna. Tais pensamentos são inelutáveis nos operários e agora não se logrará vencer a Comuna tão facilmente como em 1871. A Comuna russa terá em todo o mundo aliados cem vezes mais fortes que em 1871... É sensato que corramos o risco da Comuna? Tampouco posso estar de acordo com que os bolcheviques, no fundo, não nos concedem nada com seu compromisso. Pois em todos os países civilizados, os ministros inteligentes atribuem um grande valor a qualquer acordo, por pequeno que seja, com o proletariado durante a guerra. Reconhecem-lhe um valor muito, muito grande. Trata-se de gente prática, de autênticos ministros. Os bolcheviques se fortalecem com bastante rapidez, apesar das repressões, apesar da debilidade de sua imprensa... É sensato que corramos o risco da Comuna?

Temos uma maioria assegurada, ainda não está tão próximo o despertar do campesinato pobre; temos tempo suficiente. Não creio que a maioria siga os extremistas num país essencialmente camponês. E contra uma maioria segura, em uma república verdadeiramente demmocrática, a insurreição é impossível. Assim falaria a segunda voz.

Quiçá se encontre uma terceira voz, entre alguns partidários de Martov ou de Spiridonova que diga: Me indigna, “camaradas”, que ambos, ao raciocinar acerca da Comuna e da possibilidade de sua existência, os coloqueis sem vacilar ao lado de seus adversários, um de uma forma, o outro de outra, mas ambos estais da parte dos que esmagaram a Comuna. Não farei agitação pela Comuna, não posso de antemão prometer que combaterei em suas fileiras como o fará todo bolchevique, mas devo dizer, contudo, que se a Comuna surge apesar de meus esforços, antes ajudarei a seus defensores que a seus adversários...

A discordância no bloco é grande e inevitável, pois na democracia pequeno-burguesa está representado um mundo de matizes, desde o completo burguês plenamente ministeriável até um semimendigo, não de todo apto ainda para adotar o ponto de vista do proletariado. E ninguém sabe qual vai ser em cada momento dado a realidade dessa discordância.

 



As linhas precedente foram escritas na sexta-feira, 1º de setembro, e, devido a circunstâncias casuais (a história dirá que sob Kerenski nem todos os bolcheviques gozavam do direito de fixar livremente a sua residência), não chegaram à Redação nesse mesmo dia. E depois de haver lido os jornais de sábado e os de hoje, me digo: quiçá seja demasiado tarde para propor um compromisso. Quiçá tenham passado também os poucos dias em que era possível ainda um desenvolvimento pacífico. Sim, tudo indica que já passaram. Kerenski se apartará, de um modo ou de outro, do partido esserrista e dos esserristas e se garantirá com a ajuda dos burgueses sem os esserristas, graças à inação destes... Sim, tudo indica que já passaram os dias em que se havia tornado ocasionalmente possível o caminho do desenvolvimento pacífico. Só me resta enviar estas notas à Redação, rogando-lhe que as encabece assim: Pensamentos tardios... Às vezes, quiçá, pode ser de certo interesse conhecer alguns pensamentos tardios.

3 de setembro de 1917.


Lênin, pseudônimo de Vladimir Ilich Ulianov (1870-1924), o líder dos bolcheviques e da revolução dos soviétes na Rússia de 1917, escreveu este artigo um mês e pouco antes da vitoriosa insurreição de 25 de outubro (7 de novembro, pelo calendário gregoriano).