| Um novo tipo de organização |
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| História |
| Rosa Luxemburgo |
| Ter, 07 de abril de 2009 17:37 |
Rosa Luxemburgo
Assim sendo, a social democracia cria um tipo de organização totalmente diferente dos anteriores movimentos socialistas, como, por exemplo, os de tipo jacobino-blanquista. Lenin parece subestimar isso quando, no seu livro [Um passo à frente, dois passos atrás], exprime a opinião de que o revolucionário social-democrata nada mais é que “um jacobino indissoluvelmente ligado à organização do proletariado com consciência de classe”. Para Lenin, toda a diferença entre a social democracia e o blanquismo consiste na organização e na consciência de classe do proletariado, em lugar da conspiração de uma pequena minoria. Esquece que com isso produz-se uma completa reavaliação do conceito de organização, um conteúdo inteiramente novo para o conceito de centralismo, uma concepção inteiramente nova da relação recíproca entre a organização e a luta. O blanquismo não levava em consideração a ação imediata da massa operária e, portanto, também não precisava de uma organização de massa. Ao contrário, como a grande massa popular só devia aparecer no campo de batalha no momento da revolução, e a ação temporária consistia na preparação de um golpe revolucionário por uma pequena minoria, o sucesso da tarefa exigia diretamente a clara demarcação entre as pessoas encarregadas dessa ação determinada e a massa popular. Mas isso era igualmente possível e realizável porque não existia nenhuma ligação interna entre a atividade conspirativa de uma organização blanquista e a vida cotidiana da massa popular. Ao mesmo tempo, a tática, bem como as tarefas detalhadas da ação, já que sem ligação com o solo da luta de classes elementar, eram, sob a forma de um plano determinado, livremente improvisadas, elaboradas em detalhe, fixadas e prescritas de antemão. Assim, os membros ativos da organização transformavam-se naturalmente em simples órgãos executivos de uma vontade predeterminada fora de seu próprio campo de ação, em instrumentos de um comitê central. Com isso estava dado também o segundo momento do centralismo conspirador: a submissão absoluta e cega das células do partido às autoridades centrais e a extensão do poder decisivo destas últimas até a mais extrema periferia da organização partidária. Radicalmente diversas são as condições da atividade social-democrata. Esta nasce historicamente da luta de classes elementar. E move-se na contradição dialética de que só na própria luta é recrutado o exército do proletariado e que também, só na luta, as tarefas da luta se tornam claras. Organização, esclarecimento e luta não são aqui momentos separados, mecânica e temporalmente distintos, como num movimento blanquista, mas são apenas diferentes aspectos do mesmo processo. Por um lado, exceto quanto aos princípios gerais da luta, não existe um conjunto detalhado de táticas, já pronto, preestabelecido, que um comitê central possa ensinar aos membros da social democracia, como se estes fossem recrutas. Por outro lado, o processo de luta que cria a organização conduz a uma constante flutuação da esfera de influência da social democracia. Disso resulta que a centralização social-democrata não pode se fundar na obediência cega, na subordinação mecânica dos militantes a um poder central. E, por outro lado, nunca se pode erguer uma parede divisória absoluta entre o núcleo do proletariado com consciência de classe, solidamente organizado no partido, e as camadas circundantes, já atingidas pela luta de classes, que se encontram em processo de esclarecimento de classe. O estabelecimento da centralização na social democracia sobre esses dois princípios, a cega subordinação, até nos menores detalhes, da atividade de todas as organizações partidárias a um poder central que, sozinho, pensa, cria e decide por todos, assim como a rigorosa separação entre o núcleo organizado do partido e o meio revolucionário que o cerca, tal como é defendido por Lenin, parece-nos uma transposição mecânica dos princípios organizativos do movimento blanquista de círculos de conspiradores para o movimento social-democrata das massas operárias. Talvez Lenin tenha caracterizado mais penetrantemente seu ponto de vista do que qualquer dos seus adversários, ao definir seus “revolucionários social-democratas” como “jacobinos ligados à organização dos operários com consciência de classe”. Mas de fato a social democracia não está ligada à organização da classe operária, ela é o próprio movimento da classe operária. O centralismo social-democrata precisa, pois, ser de natureza essencialmente diferente do centralismo blanquista. Ele só pode ser a concentração imperiosa da vontade da vanguarda esclarecida e militante do operariado perante seus diferentes grupos e indivíduos. É, por assim dizer, um “autocentralismo” da camada dirigente do proletariado, é o domínio da minoria no interior da sua própria organização partidária. [...] A disciplina que Lenin tem em vista não é, de forma alguma, inculcada no proletariado apenas pela fábrica, mas também pela caserna e pelo moderno burocratismo. Numa palavra, por todo o mecanismo do estado burguês centralizado. É apenas fazer mau uso dessa palavra de ordem designar-se igualmente por “disciplina” dois conceitos tão opostos quanto a ausência de vontade e de pensamento numa massa de carne com muitas pernas e braços, executando movimentos mecânicos de acordo com uma batuta, e a coordenação voluntária de ações políticas conscientes de uma camada social, dois conceitos tão opostos quanto a obediência cadavérica de uma classe dominada, e a rebelião organizada de uma classe que combate pela sua libertação. Não é partindo da disciplina nela inculcada pelo Estado capitalista, com a mera transferência da batuta da mão da burguesia para a de um comitê central social-democrata, mas pela quebra, pelo extirpamento desse espírito de disciplina servil que o proletariado pode ser educado para a nova disciplina voluntária da social democracia. [Questões de organização da social democracia russa, in LUXEMBURGO, Rosa. A revolução russa. Petrópolis: Vozes, 1991, pp. 42-45]
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