| Classes sociais necessárias e supérfluas |
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| Questões Sociais |
| Friedrich Engels |
| Qua, 17 de dezembro de 2008 16:13 |
Freqüentemente, perguntam-nos em que medida as diferentes classes da sociedade são úteis, quase indispensáveis. A resposta, naturalmente, varia para cada período histórico. É indubitável que houve um tempo em que a aristocracia agrária foi um elemento inevitável e necessário da sociedade. Porém, isto aconteceu há muito tempo. Depois, houve um tempo em que a classe capitalista – a bourgeoisie, com chamam os franceses – surgiu como uma necessidade também inevitável: lutou contra a aristocracia agrária, quebrou seu poder político e conquistou, por sua vez, a hegemonia econômica e política. Entretanto, desde que apareceram as classes, não houve nenhuma época em que a sociedade tenha prescindido da classe trabalhadora. O nome e o nível social desta classe mudou: o servo substituiu o escravo até que o trabalhador livre tomou seu lugar. Por trabalhador livre devemos entender o trabalhador liberado da servidão, assim como de toda a propriedade além de sua força de trabalho. Uma coisa está clara: quaisquer que sejam as mudanças que se produzam nas camadas superiores não produtivas da sociedade nenhuma sociedade pôde viver jamais sem uma classe de produtores. Portanto, essa classe é necessária em todas as circunstâncias, ainda que deva chegar um tempo no qual já não existirá sob a forma de classe, mas sim que se estenderá por toda a sociedade. No entanto, em que medida é necessária, hoje, a existência de cada uma destas três classes? É um eufemismo dizer que, na Inglaterra, a aristocracia agrária é uma classe inútil no plano econômico, mas na Irlanda e Escócia converteu-se em um câncer que as corrói ao despovoar a terra. O único mérito que podem reivindicar os latifundiários da Irlanda e da Escócia é o de provocar as fomes extremas que arremessam os expropriados do outro lado do Atlântico, para substituí-los por carneiros e animais para caça. E tão logo aumente a disputa pelos alimentos vegetais ou animais, a aristocracia dos latifundiários da Inglaterra seguirá o mesmo caminho, ao menos a fração que se apóia na grande propriedade imóvel das cidades. Além disso, logo teremos a concorrência americana nos alimentos. E não nos queixaremos, porque sua ação política tanto na Câmara dos Comuns como na dos Lordes é uma verdadeira praga para a nação. Mas o que será da classe capitalista, desta classe iluminada e liberada que fundou o Império Colonial britânico e criou a liberdade britânica? Da classe que reformulou o Parlamento em 1831, aboliu as leis cerealistas e baixou as taxas alfandegárias, uma depois da outra? Desta classe que deu vida a gigantescas empresas industriais, a uma imensa frota comercial e a uma rede ferroviária cada vez mais extensa e que segue dirigindo tudo isto na Inglaterra? Esta classe ao menos é tão necessária como a classe operária, à qual dirige e à qual sobrecarrega de progresso em progresso. A função econômica da classe capitalista era, com efeito, a de criar o sistema moderno das indústrias movidas a vapor e eliminar os obstáculos econômicos e políticos que freavam ou travavam o desenvolvimento desse sistema. Enquanto a classe capitalista cumpria esta função, sem dúvida, era uma classe necessária, dadas as circunstâncias mencionadas. Mas o problema é saber se ainda hoje ela é necessária. Segue cumprindo sua função específica, que é a de dirigir e ampliar a produção social em proveito de toda a sociedade? Vejamos: Consideremos em princípio os meios de comunicação, que representam a infra-estrutura do modo de produção capitalista. Comprovamos que o telégrafo está nas mãos do governo, Também as ferrovias, assim como grande parte dos transportes marítimos não estão nas mãos de capitalistas individuais, dirigentes de suas próprias empresas, mas de sociedades anônimas, cuja direção se confia a empregados assalariados, funcionários ocupando a mesma posição que os trabalhadores mais altos e melhores pagos entre os operários. No que se refere aos diretores e acionistas, sabem muito bem que o truste funciona muito melhor se os primeiros não se imiscuem na direção da empresa e os segundos não se misturam no controle dos negócios. De fato, um controle muito fraco e na maioria dos casos, superficial, é a única função que resta aos proprietários da empresa. Portanto, vemos que os proprietários capitalistas dessas empresas gigantescas não cumprem nenhuma outra função a não ser de embolsar os dividendos a cada semestre. A função social do capitalista passou às mãos de agentes remunerados apesar de o capitalista continuar embolsando, sob a forma de dividendos, as remunerações por funções que deixou de exercer há bastante tempo. Mas o capitalista, a quem o desenvolvimento das grandes empresas forçou a “se retirar” de sua direção, conserva, entretanto, outra função: a de especular na bolsa com suas ações. À falta de uma ocupação melhor, nossos capitalistas “afastados” – ou mais exatamente supérfluos – especulam à vontade nesse tempo de Mamón. A ele se dirigem com a intenção deliberada de fazer dinheiro e justificam assim o dinheiro que embolsam. Apesar disso, afirmam que o trabalho e a poupança são a origem da propriedade, origem talvez, mas seguramente não o seu fim. Que hipocrisia fechar pela força algumas pequenas casas de jogo, quando a sociedade capitalista não pode prescindir de uma gigantesca casa de jogo, na qual se ganham e perdem milhões e que representam seu mais importante centro! Mas a existência do capitalista “afastado”, que é o proprietário das ações, não só é supérflua como também nociva. O que é verdade para as ferrovias e para a navegação, o é cada dia mais para todas as grandes empresas industriais e comerciais. A transformação das grandes empresas privadas em sociedades por ações tem sido a diretriz do momento durante estes últimos dez anos e continua sendo. Desde as grandes casas da City Manchester até as grandes empresas siderúrgicas e minas de carvão de Gales e do norte da Inglaterra, assim como as fábricas de Lancashire, tudo é ou era objeto de grandes negócios. Apenas resta uma fábrica de tecidos de algodão em todo Oldham que está em mãos privadas. No mais, o comércio privado é substituído cada vez mais por cooperativas, a maioria das quais só tem de cooperativas o nome, porém, logo voltaremos a este tema. Tudo isso nos mostra que precisamente o desenvolvimento do sistema de produção capitalista é o que faz com que o capitalista seja tão desnecessário, como o tecelão, com a diferença de que este está condenado à morte lenta por fome e o capitalista, que é supérfluo, agora está condenado a morrer lentamente por superalimentação. Só têm uma coisa em comum: nem um, nem outro sabem no que vão se transformar. De qualquer maneira, o resultado é o seguinte: o desenvolvimento econômico da sociedade moderna tende a uma concentração cada vez mais forte a uma socialização da produção, sob a forma de empresas gigantescas que já não podem ser dirigidas por capitalistas privados. Todas as charlatanices em torno da perspicácia do patrão e dos milagres que realiza se convertem num absurdo quando a empresa alcança certa amplitude. Imaginemos essa perspicácia em uma empresa ferroviária de Londres e do noroeste! Mas o que o dono não pode fazer, os trabalhadores e os empregados assalariados da Companhia podem fazê-lo e com êxito. Assim pois, no futuro, o capitalista já não poderá justificar seu lucro como “salário de direção e de controle”, porque já não dirige nem controla nada. Recordemos tudo isso quando os defensores do capital nos martelarem com essa frase vazia! Em outro artigo, já nos esforçamos por mostrar que a classe capitalista é incapaz, além disso, de dirigir o imenso sistema produtivo de nosso país: por um lado, a produção alcançou tal extensão, que todos os mercados estão periodicamente abarrotados de mercadorias; por outro lado, tem-se mostrado cada vez mais inapta, para fazer frente à concorrência estrangeira. Em resumo, consideramos que não só estamos em condições de dirigir a grande industria do país sem a burguesia, como também que sua intervenção provoca prejuízos crescentes. De novo, dizemo-lhes: saiam! Dêem à classe operária a ocasião de mostrar do que ela é capaz! Artigo publicado originalmente em The Labour Standard em 6 de agosto de 1881. [MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Sindicalismo. São Paulo: Ched Editor]
Fonte: Arquivo Marxista na Internet |



Freqüentemente, perguntam-nos em que medida as diferentes classes da sociedade são úteis, quase indispensáveis. A resposta, naturalmente, varia para cada período histórico. É indubitável que houve um tempo em que a aristocracia agrária foi um elemento inevitável e necessário da sociedade.
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