Ordem sem choque PDF Imprimir E-mail
Questões Sociais
Eliomar Coelho   
Sáb, 07 de março de 2009 22:33
EliomarUm dos significados da palavra choque é a sensação produzida por uma carga elétrica. Antigamente, o choque era utilizado nos tratamentos de doentes mentais, mas atualmente com o desenvolvimento da Medicina, esse método como procedimento de cura foi abolido e totalmente condenado pela ineficácia comprovada na sua aplicação.

A palavra choque também significa querela violenta, conflito.

Ao implantar, nos primeiros dias de sua gestão, o que chamou de “choque de ordem”, o Prefeito da cidade do Rio de Janeiro Eduardo Paes certamente adotou este último significado para o vocábulo choque.

Colocando em prática essa medida, cujo objetivo é realizar ações contra vendedores ambulantes, flanelinhas, moradores de rua, construções irregulares e publicidade não autorizada, tem no comando das ações nas ruas o seu Secretário Especial de Ordem Pública Rodrigo Bethlem, que mobiliza uma equipe de cerca de 2.000 servidores do Município, formada de guardas municipais, PM’s, fiscais e operários.

Em relação aos alvos definidos para cada operação, nota-se uma diferença no modo de conduzir cada uma delas. Quando se trata de construções irregulares e de publicidade não autorizada, primeiramente os responsáveis são notificados, depois multados e finalmente, em algumas situações, demolida ou removida o que a Prefeitura considera ilegal. Quando se trata dos moradores de rua, localizados dormindo à noite debaixo das marquises, os menores são recolhidos para abrigos e os adultos poderão ir para os abrigos, se desejarem, caso contrário não poderão ficar no local onde dormiam, terão que ficar circulando.

Existe, sem dúvida, uma grande diferença no choque aplicado no primeiro e no segundo caso. Vale ressaltar que, segundo levantamento da Secretaria de Assistência Social, se estima existirem na cidade cerca de 2.500 moradores de rua e muitos deles com atividade remunerada; é claro, mal remunerada, não permitindo o pagamento de passagens, de ida e volta, para suas casas.

Tratamento igual é dado para a mendicância, os sem-teto, os sem emprego, enfim os desafortunados da vida, que, muitas vezes, se encontram nessa situação com suas famílias devido à ausência e/ou ineficácia de políticas públicas que visem à correção da injustiça social, gritante em nossa sociedade. Também os vendedores do comércio ambulante estão relacionados para serem retirados das ruas a fim de limpar a cidade, eliminando transtornos, que porventura causem, aos residentes de suas áreas nobres. Estes ambulantes exercem atividade de subsistência, obrigados a essa condição pelo desemprego, agravado atualmente pela crise mundial.

Todas as ações realizadas, devido ao grande aparato empregado, possui o formato de espetáculo, recebendo por isso ampla cobertura da mídia, além dos aplausos de parte da população, por terem se livrado do “incômodo das calçadas tomadas pelas quinquilharias postas à venda pelos camelôs”.

Devido ao reflexo dessas ações na mídia e à aceitação de uma parcela insensível e individualista de parte da população, o emprego dessas medidas é visto como sucesso e a Prefeitura resolve ampliar o elenco delas para as ciclovias, para a beira-mar, para os blocos carnavalescos, para as favelas , para os espaços de concentração de jovens, como a Lapa, hoje transformada no maior espaço de entretenimento a céu aberto da cidade.

Essa ampliação é preocupante, principalmente quando se vê que, em certos casos da aplicação do “choque de ordem”, a intenção nos parece ser a limpeza da pobreza e da miséria existentes, sem atentar para a situação dramática do ser humano, objeto da ação, o que resulta num tratamento cruel àqueles socialmente mais carentes. Este tipo de procedimento nos permite admitir que esse alargamento tenha como real propósito provocar a desocupação de áreas nobres onde moram populações de baixa renda, porque são áreas desejadas e permanentemente ameaçadas de expulsão pelos prepostos dos especuladores e incorporadores imobiliários.   

É claro que nós, cidadãos(ãs) cariocas temos assistido com tristeza ao caos urbano que brutaliza a vida no Rio de Janeiro e clama por uma administração comprometida com a reversão dessa tendência perversa de se fazer a cidade. E isto terá de ser feito com ordem, mas acima de tudo com critério, pensando na qualidade de vida que todos os moradores devam ter, sem nenhuma exceção.

Queremos uma cidade com cara de gente: humana, fraterna, solidária e acima de tudo com justiça social.

Jamais desejaremos uma cidade-mercadoria conforme dita o receituário neoliberal, que considera tudo o que existe na cidade como produtos vendáveis, e que, portanto, devem ser bem tratados e embalados em belos pacotes para tornarem-se atrativos aos possíveis e futuros investidores-compradores.

Este risco nós corremos, com a promessa dos pregoeiros do neoliberalismo de que as partes da cidade vendidas oferecem como contrapartida uma vida paradisíaca para todos. Infelizmente, em nosso país ainda existem governantes totalmente embalados nesta euforia globalizante, sem perceber os fracassos do anabolizado capitalismo.

Por tudo que está dito acima, desejamos que a nova administração da cidade do Rio de Janeiro trabalhe a cidade de modo ordenado, sim, mas de forma criteriosa, garantindo para as gerações de agora e futuras a dignidade cidadã que o carioca merece.

O tratamento de choque há muito que está na contra-mão da afirmação, que acreditamos e sonhamos, de que “Outro Mundo é Possível” .


Eliomar Coelho é vereador do PSOL na cidade do Rio de Janeiro

 
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1 Comment

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  1. As acões realizadas pela prefeitura estão longe de resolver os problemas que elas enfrentam. Não adianta mandar o "mendigo" sair daquele local, pois ele vai se deitar 2 quarteirões depois. Não adianta reprimir o camelô e tomar a sua mercadoria se ele logo depois volta ao depósito, se reabastece e volta para as ruas.O problema é muito mais complexo, mas e aí, que faremos? Nada? Isso não ajuda, já vimos na administração anterior. Acho que podemos aproveitar essa onda e cobrar uma ação mais abrangente e duradoura por parte das autoridades, como ampliação e reforma nos albergues públicos, no atendimento médico e psiquiátrico à população de rua, investir em qualificação dessas pessoas que trabalham com a camelotagem. Já que existe uma ação em sentido de mexer nas questões, direcionar e dar continuidade é mais fácil.

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