Alcançar o impostergável PDF Imprimir E-mail
Questões Sociais
Ernesto Montero Acuña   
Ter, 26 de maio de 2009 22:11
alimentosRedação Central (PL) Junto com as crises ecológica, energética e econômica, a situação alimentar mundial é um dos quatro problemas mais graves que a humanidade enfrenta hoje, devido à acumulação de recursos em limitados polos sociais e territoriais.


Jacques Diouf, diretor da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), anunciou em 6 de maio último em Paris que a fome afetará 104 milhões a mais em 2009, como consequência da crise econômica, e elevará o "total de pessoas desnutridas a quase um bilhão".

Em 2008, agregaram-se 40 milhões a essa condição, como consequência do aumento dos preços dos alimentos, adicionalmente aos 75 milhões incrementados em 2007.

Hoje, o mundo deve duplicar a produção de víveres e 32 países requerem "ajuda urgente".

Tal situação afeta principalmente nações do Terceiro Mundo, mas não deixa de incluir a mais de 32,5 milhões de estadunidenses ─ um número maior que a população dos estados de Michigan e Texas juntos ─, os quais requerem vales alimentação para subsistir.

Despachos de imprensa de 5 de maio informavam que se trata do terceiro recorde mesal consecutivo registrado pelo Ministério da Agricultura da União, que controla a distribuição dos bonos concedidos pelo governo aos mais necessitados.

O informe reflete que a crise econômica impulsiona a mais de 10% dos estadunidenses a inscrever-se no Programa de Assistência Nutricional Suplementar, um plano federal equivalente a 112,82 dólares mensais per capita, concedido a quem tenha recursos muito limitados para o padrão estadunidense.

Dias antes, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) havia anunciado que a economia latino-americana decresceria em 2009, seu primeiro retrocesso em seis anos, ao passo que a taxa de desemprego aumentaria em níveis próximos ao nove por cento, quase 2,5 a mais do que em 2008.

A Secretária Executiva da CEPAL Alicia Bárcena augurou durante o Latin América Emerging Markets Forum 2009, em Bogotá, que "os efeitos da crise internacional se farão sentir com força na região este ano ".

Os países más afetados, disse, serão México (com -2,0% de crescimento), Brasil (-1,0), Costa Rica (-0,5) e Paraguai (-0,5); enquanto que Panamá, Peru, Cuba e Bolívia manterão um índice igual ou superior a 3,0%; e Equador e Chile não aumentarão seu Produto Interno Bruto (PIB).

As estatísticas refletem também efeitos negativos no comércio internacional e nos preços dos bens primários, devido ao qual os termos de intercambio para a região, em conjunto, cairão em 15%, o que incide de igual modo na capacidade aquisitiva e elevará novamente os preços de alimentos primários.

Observar-se-á também uma forte diminuição das exportações ─ principalmente em economias abertas como as centro-americanas e a do México ─, redução das remessas familiares, rendas menores do turismo e investimento estrangeiro direto inferior.

Sobre os efeitos da atual situação econômica na América Latino, Bárcena sustentara em Madrid que em "2008 sim houve um impacto na pobreza devido ao aumento de preços dos alimentos básicos, que foi o primeiro efeito detectado nesta crise".

A isso se acrescentam as consequências do aumento de infectados com o virus influenza A (H1N1), que afeta os mexicanos de maneira crescente, com uma consequência econômica negativa de 0,5% estimado para este ano e que, segundo o Banco do México, elevará a contração previsível a 5,3% do PIB em 2009, superior ao estimado antes pela CEPAL.

Também reforçará as consequências da crise econômica nos Estados Unidos, no Canadá e em várias dezenas de nações no resto do mundo.

Tudo isso se acrescenta como condição nova num contexto mundial em crise durante as últimas três décadas e meia, ao menos, e que fez a explosão alimentar e econômica de 2008, o que se considera inconcebível num mundo "civilizado e tecnologicamente avançado".

Desde março de 2007, no mesmo de 2008, numerosos alimentos elevaram seus preços, entre eles o milho em 31%, o arroz em 74, a soja em 87 e o trigo em 130, todos de enorme demanda, principalmente entre os setores populares de países subdesenvolvidos.

Nações Unidas atribuiu tal efeito ao fato de Estados Unidos e Europa haverem provocado a subida ao destinar grandes porcentagens de sus colheitas de cereais à fabricação de agro-combustíveis, com a justificativa de reduzir a mudança climática, mas condenando à fome a milhões de pessoas no Terceiro Mundo.

Estimou-se em mais de 100 milhões os pobres afetados por essa política e BBC Mundo publicou então que "o mais injusto de tudo isso é que os países menos contaminadores, os menos desenvolvidos e, portanto, os menos responsáveis pela mudança climática, sejam os que tenham que pagar as consequências da atividade de países mais contaminadores, como Estados Unidos".

Acrescentava que as ajudas não serão suficientes para paliar uma situação qualificada como "extremamente grave" pelas agências da ONU, entre elas a UNICEF, que manifestou preocupação porque a cada ano morrem 3,5 milhões de crianças por desnutrição, algo que poderia agravar-se significativamente.

Isso, apesar de que o crescimento da produção alimentar global e per capita vem crescendo mais de pressa e sustentavelmente que a população, ao menos nos últimos 50 anos.

A respeito, a FAO considerou que a maioria do incremento no consumo se realizou nos países desenvolvidos, em grande parte como produtos elaborados.

As rações animais e os agrocombustíveis se encontram em maior medida entre os produtos não diretamente destinados à alimentação humana, uma utilização que, se considera, contribuiu para os aumentos de preços no mercado mundial.

O presidente democrata Barack Obama aspira a que seu país produza ao menos 60 bilhões de galões de etanol celulósico, por ano, para 2030 e dois bilhões para 2013; e impulsiona, por outro lado, reduzir o consumo de hidrocarburos em automóveis.

Mas isso requer uma profunda mudança na concepção precedente, impulsionada por seu antecessor republicano George W. Bush.

Pela anterior conjunção de fatores, não se pode augurar hoje que a crise alimentar seja um problema com solução previsível e, sem embargo, resolvê-la resulta impostergável.


Ernesto Montero Acuña é especialista em temas globais e de integração

 

Fonte: Prensa Latina

 
1 Vote

0 Comments

Add Comment

Avalie este artigo

1 Vote

Itens relacionados