Dengue: perdemos a “guerra”? PDF Imprimir E-mail
Saúde
Escrito por Márcia Vieira Pacheco   
Dom, 08 de junho de 2008 12:29
Diante do quadro devastador e de maior gravidade que vivemos recentemente da epidemia de dengue no RJ, tecnicamente prevista, inclusive tendo sido citada em literatura especializada tanto por Cuba (1987) quanto por outros países da América Central (década de 90), nos resta pouco a questionar a não ser que podemos ter perdido mais uma batalha em defesa da vida e, quem sabe, já perdemos a “guerra”.

Muito é apontado pela grande mídia em todas as epidemias que o “mosquito está de volta e a população continua assistindo a uma inacreditável troca de acusações entre autoridades federais, estaduais e municipais”.

Diante disso, tecemos algumas considerações:

Primeiro: O mosquito (Aedes Aegypti), até o momento o principal vetor da doença, não está de volta, ele nunca foi embora. Vivemos num país tropical e ele sempre esteve e sempre estará, necessitando sim de controle intenso da sua proliferação.

Esse controle não é tecnicamente impossível se encararmos com seriedade, firmeza, competência e buscarmos incansavelmente propostas inovadoras e criativas para o desenvolvimento desse controle.

A importação metodológica pelo SUS do combate a endemias e epidemias da antiga Sucam (superintendência de campanhas) e Funasa (Fundação Nacional de Saúde), centrada prioritariamente no vetor, não está sendo eficaz, pois são secundarizadas questões relativas à participação cidadã,educação sanitária sistemática,defesa e discussões sobre o meio ambiente na complexa situação urbana do sec.XXI, associado ao vergonhoso cenário do precário saneamento básico, principalmente nas periferias.

Segundo: Quanto a “troca de acusações” que acontecem nesses períodos, nada de novo. Epidemias e endemias sempre serviram de arena política desde à época de Oswaldo Cruz, lembremos de citações das epidemias de varíola e febre amarela no começo do século passado.

E por falar em febre amarela, também tivemos recentemente um perfil epidemiológico que nos deixa alerta em função dos surtos de febre amarela silvestre ocorridos no centro oeste.

No caso específico da dengue, o risco sempre se fez presente desde 1992, na entrada do dengue tipo 2 no RJ e Niterói. Houve previsão do risco cada vez maior da forma hemorrágica (FHD) e óbitos por dengue.

Lá se vão 16 anos!

È realmente é incrível que essa situação vexatória, incluindo a assistência precária, permaneça até os dias de hoje, ou seja, apesar de algumas tentativas locais, pouca coisa ou quase nada mudou substancialmente na forma de fazer política, na seriedade com a aplicação da verba da saúde pública e na abordagem técnica de combate ao risco da epidemia.

Muda sim, para pior, rapidamente a cada ano, o perfil da doença e as estatísticas de casos e óbitos.

O que será que nos espera no verão de 2009 com a possibilidade de entrada do vírus tipo 4 ( dengue4)???

Rapidamente é necessário reflexão e ação de nossa parte, não somente tirando os criadouros de mosquitos de nossos lares e quintais, o que é sem dúvida super importante, mas também cobrando de todas as autoridades sanitárias, sem exceção, a responsabilidade com o que eles dizem que defendem ou deveriam defender, que é a vida!

Márcia Vieira Pacheco é médica sanitarista.