Gripe suína PDF Imprimir E-mail
Saúde
José Saramago   
Sex, 08 de maio de 2009 12:19

Uma praça no México
Uma praça no México
1.


Não sei nada do assunto e a experiência directa de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor. Há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vector da mutação gripal: tanto da "deriva" estacional como do episódico "intercâmbio" genómico. Há já seis anos que a revista Science publicava um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe. Nas últimas décadas, o sector pecuário transformou-se em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica quinta familiar que os livros de texto na escola se comprazem em descrever...

 

Em 1966, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um milhão de granjas. Actualmente, 65 milhões de porcos concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar das antigas pocilgas aos ciclópicos infernos fecais de hoje, nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos para intercambiar agente patogénicos à velocidade do raio, se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que debilitados sistemas imunitários.

 

Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada. Voltarei ao assunto.

 

2.

 

Continuemos. No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a "produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos". A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas - mais barato que em ambientes humanos - estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).

 

Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.

 

Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?

 

José Saramago

 


07/05/09 - Nota: Na semana passada José Saramago escreveu sobre a gripe, então chamada suína. O seu texto, baseado em "alguma leitura providencial", segundo se diz logo ao princípio, deveria ter levado aspas nas transcrições feitas e a citação concreta da fonte donde procediam. Igualmente, a fotografia que acompanhava o texto deveria ter uma legenda que tão-pouco apareceu.

Estas faltas, devidas a um problema de conversão, em nada atribuíveis a José Saramago, tiveram lugar no processo de divisão e reenvío do texto. Fique agora claro que Saramago citava um artigo de Mike Davis (cujo link deveria ter aparecido), publicado na revista digital "Sin permiso" e intitulado "La gripe porcina y el monstruoso poder de la gran industria pecuaria" no qual se informa que a industria pecuária poderia estar criando bases para possíveis pandemias. Mike Davis é autor do livro"El monstruo llama a nuestra puerta" publicado em Espanha por Ediciones El Viejo Topo e traduzido por María Julia Bertomeu, em que se alertava para a gripe aviar. Quanto à fotografia do grupo escultórico com máscara na boca, e publicada pelo portal Yahoo México, mencionava-se que recorda uma cena de "Ensaio sobre a cegueira" quando a mulher do médico entra numa igreja e vê que as imagens têm os olhos tapados. Fernando Meirelles, no seu filme, recolhe essa imagem.

Lamentamos que este problema técnico tenha dado lugar a mal-entendidos e, sobretudo, que não tivesse ficado convenientemente reconhecido o trabalho de Mike Davis. Como quer que seja, José Saramago está consciente de que deve desculpas a Mike Davis. Espera que elas lhe sejam aceites.


Fonte:  http://caderno.josesaramago.org/

 

 
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7 Comments

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  1. Adorei.
  2. Quero pesquisar sobre a gripe suína.
  3. Isso vem trazendo coisas muito importantes da gripe suína nos seres humanos que temos que ficar sabendo de uma maneira clara para enxergar cara a cara a realidade que está acontecendo e melhorar o mundo todo.
  4. Tô com medo.
  5. Legal. O texto é bem interessante!! Parabéns!!!
  6. O tamanho da gravidade da gripe "suína" ainda é cedo para saber. Porém ela também pode ser usada para desviar a atenção nesse ano, que, segundo as previções feitas no fim do ano passado, será de grande desemprego no mundo: "fique em casa, não se reúna em multidões para evitar o contágio..." Claro, prevenção nunca é demais. Atenciosamente, Sandro
  7. Só faltava mais uma gripe, já existia a bicharada todinha. Salvo preconceitos com os adoráveis animais aos quais muito estimo. Realmente só sendo uma pandemia. Olha lá a responsabilidade civil e pública com as inovações tecnológicas para com centros de potência de pesquisa e laboratório, como exemplo a UFC, bem como outros no Brasil.

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