Caros generais, almirantes e brigadeiros PDF Imprimir E-mail
Segurança Pessoal e Direitos Humanos
Marcelo Rubens Paiva   
Qua, 03 de fevereiro de 2010 10:14
Marcelo Rubens Paiva
Marcelo Rubens Paiva
Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?

Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha 5 anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de 5 anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.

Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores - ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram. Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.

Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do 2º Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

Marcelo Rubens Paiva é escritor

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100130/not_imp503836,0.php

 

 
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  1. Concordo com os argumentos de Rubens Paiva, é necessário expurgar os pecados, tirar a poeira (porque não os corpos?!) debaixo do tapete, para que as Forças Armadas readquiram sua Honra, Dignidade ou qualquer outro adjetivo que o valha.
  2. Aliás, a democracia não é uma concessão de um punhado de fardados. É, de fato, uma conquista irrevogável do povo brasileiro. Ademais, os golpistas de pijama não mais encontrarão apoio do Tio Sam para os seus delírios. Parabéns!!!!
  3. Comovente o testemunho do Marcelo Rubens Paiva. Pena que tantas pessoas sem escrúpulos tomem este espaço para reproduzir argumentos absolutamente anacrônicos e fora do contexto. A democratização do país é um processo irreversível. E, mais cedo ou mais tarde, teremos, nós brasileiros, o direito de ter acesso às informações necessárias para termos consciência precisa das atrocidades cometidas ilegalmente contra os verdadeiros patriotas da nação, inclusive militares de verdade que não se curvaram ao regime ditatorial, como foi o caso dos heróis resistentes da VPR, dentre os quais o capitão Carlos Lamarca. Este, sim, deveria orgulhar os milicos de plantão, pois sua história bem expressa a tradição do tenentismo e dos bravos expedicionários que lutaram contra os nazistas. Lamarca preferiu o caminho da resistência à covardia de torturar e matar profissionais liberais e estudantes desarmados.
  4. Olá, Marcelo. Acabei lendo alguns comentários de gente "do outro lado" e, me parece que a estratégia dos (mal)ditos foi tentar levar a questão para o lado pessoal. Lendo o texto, mesmo desconhecendo a história, qualquer leitor menos ingênuo percebe que as motivações são bem mais nobres do que um "mero rancor pessoal", como alega esta pelegada. Belo texto.
  5. têm de ser preservadas e em prol disto será feito tudo que for necessário para se manter a instituição, até ameaçar a integridade da paz social, portanto pense um pouco e pese se em prol das suas verdades, novas gerações devem ter o peso da revolta para situações idênticas à sua porque alguns não souberam enterrar o passado.
  6. Seu pai foi interrogado por 18 horas seguidas no Galpão 2 da Base e veio a sofrer uma parada cardíaca após uma bateria de choques no seu corpo molhado. Seu corpo foi embarcado naquela mesma noite em um Cargueiro Búfalo e junto com outros 2 outros foi lançado a mais de 20 kms da costa do RJ. A história que lhe conto pode ser confirmada pelo livro de registro de voos do período logo após a prisão. A saída registra como voo de teste ou de lançamento de paraquedistas. Menino, sei que a sua revolta nunca se apagará, mas, creia, há historias deste tipo de ambas as partes, e o que está se preservando não é o nome de este ou aquele, o que se está preservando é uma INSTITUIÇÃO chamada Forças Armadas, que embora vc tenha um ranço de revolta contra elas,
  7. Marcelo, por motivos óbvios, não vou poder me identificar, mas vou tentar abrir um claro em algumas coisas obscuras do que você falou acima. Seu pai foi levado para o Terceiro Comar e de lá para a Base Aérea do Galeão. O Brigadeiro Hipólito da Costa e o Brigadeiro João Paulo Burnier tinham uma raiva de seu pai devido ao apoio dele ao Capitão Sergio Miranda (conhecido como Sérgio Macaco) e por causa de apoio financeiro dele a elementos que queriam se evadir do país, fugindo das buscas que eram promovidas.
  8. O Terceiro PNDH não é desastroso, como o define o Sr. Marcelo Rubens Paiva. Os pontos do atual PNDH-3 são reivindicações das lutas dos movimentos sociais. Foi discutido e elaborado pelos movimentos sociais e ongs que os apóiam. Portanto, elaborou-se de baixo para cima, pelos grupos sociais excluídos dos seus legítimos direitos. O PNDH-3 pode ter falhas de redação e até da clareza de como efetivar esses direitos. Mas é impossível que tenha falhas por um excesso de reconhecimento de direitos [não sei se é essa a origem da sua negativa exagerada], porque foi construído democraticamente pelos próprios movimentos sociais que historicamente lutam por tais avanços sociais, políticos e históricos. Portanto, PNDH-3 pode, dificilmente, conter falhas, mas desastroso ele não é. Agradeço a quem leu esse comentário. Gentilmente, Fábio.
  9. Tenho orgulho de nossas forças armadas, mas gostaria realmente que ela fosse PURGADA destes maus elementos, TRAIDORES DA PÁTRIA, que assassinaram a democracia para servirem aos interesses de OUTROS PAÍSES, comprometendo o DESENVOLVIMENTO E A I N D E P E N D Ê N C I A DO BRASIL, sujeitando-nos aos ditames de uma política imperialista totalmente contrária aos reais interesses da pátria, de nosso desenvolvimento econômico e social. Acredito que a melhor parte de nossas forças armadas, em seu íntimo, deve concordar que 1964 foi um terrível erro e que a democracia, por complexa e dispendiosa que seja, ainda é o melhor caminho, que o papel das forças armadas é defender a soberania e a honra nacionais, DENTRO DA LEI e não por cima dela.

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