Ciro Correa defende sindicalismo independente e pautado pelas decisões da base PDF Imprimir E-mail
Sindicalismo e Movimentos Sociais
Escrito por Najla Passos   
Sex, 14 de março de 2008 18:17

ciro correiaQuando cursava geologia na UNESP de Rio Claro, onde se formou em 1979, Ciro Correia foi presidente do Centro Acadêmico de Geologia e representante discente no primeiro conselho universitário da recém-criada universidade estadual. Em 1980, foi cursar pós-graduação na USP e, dois anos depois, foi admitido como professor do então Departamento de Mineralogia e Petrologia da instituição.

Na universidade, imediatamente se filiou à ADUSP e começou a atuar no movimento docente, intercalando momentos de militância mais aguerrida com períodos de maior dedicação às atividades acadêmicas.

Em 1984, foi eleito representante do Instituto de Geociências no Conselho de Representantes da ADUSP. Nos dois anos seguintes, intercalou a representação docente com o mestrado em mineralogia e petrologia. Em 1988, durante a histórica greve das estaduais paulistas, teve atuação destacada.

De 1991 a 1993, foi o 2º tesoureiro da ADUSP. Prosseguiu seus estudos e pesquisas nas áreas de mineralogia, petrologia, geotectônica e geoquímica isotópica, que lhe permitiram concluir o doutorado em 1994, feito, como o mestrado, em parte na Itália. Em 2001, concluiu a livre docência a partir dos resultados do pós-doutorado realizado na Austrália.

De 2001 a 2003, foi presidente da ADUSP. Ao retomar suas funções no agora Departamento de Mineralogia e Geotectônica, foi eleito para o cargo de Chefe do Departamento por dois mandatos (2003-2005 e 2005-2007).

Informandes - Sua atuação à frente da ADUSP foi muito marcada pelas denúncias sobre as fundações privadas. Esse trabalho também tem sido uma das prioridades do ANDES-SN. Fale um pouco sobre essa experiência e sua expectativa de continuá-lo à frente do Sindicato Nacional.

Ciro Correia – Justamente no período em que fui presidente da ADUSP, culminou o processo, deflagrado antes da minha gestão, de levantamento de dados que possibilitaram o combate às fundações privadas ditas “de apoio”. Foi quando nós publicamos na Revista ADUSP o primeiro bloco do Dossiê Fundações, que repercutiu no país inteiro.

Essa questão das fundações ditas de apoio é muito séria e precisa ser enfrentada com maturidade pelo movimento docente. Eu participei dos grupos de trabalho - GT Jurídico e GT Fundações da ADUSP, o que muito nos ajudou a compreender o processo de implementação dessas fundações. Posteriormente, participei da criação do GT Fundações do ANDES-SN e também auxiliei no processo de articulação das assessorias jurídicas da ADUSP e do ANDES-SN, no sentido de sintonizar nossa luta. O Sindicato Nacional desenvolve uma ação mais ampla em relação aos problemas relacionados às fundações de apoio desde a gestão da Profa. Marina Barbosa, com a continuidade, agora, na gestão do Prof. Paulo Rizzo. Nessa luta, tem sido de grande valia toda a experiência administrativa e empenho do Prof. Schuch (secretário-geral) e dos demais membros do GT Fundações do ANDES-SN, que permitiram grande avanço do trabalho de levantamento de informações, divulgação e denúncia durante a atual gestão. Isso só aumenta a nossa responsabilidade à frente do Sindicato Nacional, quanto a este e aos demais temas de nossa pauta.

Informandes - Quais outras experiências você pretende trazer da sua gestão na ADUSP para o ANDES-SN?

Ciro Correia – Três ações marcaram nossa gestão na ADUSP. O combate às fundações privadas foi o que mais se destacou externamente. Internamente, entretanto, foram também importantes o combate às políticas e ações produtivistas implementadas pela administração superior da USP e pelas agências de fomento e, ainda, a luta contra a reforma da previdência pautada pelo governo federal com desdobramentos também no governo paulista. Pelo visto, são embates que continuam entre as prioridades do movimento docente e que vêm sendo enfrentados pelo ANDES-SN: o combate ao produtivismo acadêmico, à privatização da universidade pública e à retirada de direitos dos trabalhadores. Para enfrentar esse quadro, será preciso ampliar nossa articulação no âmbito do Sindicato Nacional e fortalecer nossos laços com os demais setores da sociedade que também trabalham na perspectiva da defesa da universidade pública e das conquistas sociais.

Informandes - Como essas ações produtivistas afetavam a rotina dos docentes?

Ciro Correia – Naquela época, mesmo na USP, havia muitos professores trabalhando de forma precária, À revelia da legislação vigente. Não eram concursados e também não eram contratados pela CLT. Eu mesmo ingressei na USP e trabalhei com contrato precário por 16 anos. E essa precariedade favorecia a pressão do governo e da reitoria sobre os professores. O número de precários atingia algo próximo de 50% do total do corpo docente da USP, que hoje é de cerca de 5 mil professores. Na verdade, a USP tinha 5,4 mil docentes na década de 1980. Na década seguinte, esse número caiu para 4,1 mil, após um bárbaro enxugamento promovido a partir do governo Quércia. Hoje, temos conseguido ampliar o quadro. Face à nossa ação contra essas políticas, com destaque para o compromisso obtido da reitoria de só passar a fazer novas contratações via concursos públicos, o número de precários caiu para cerca de 800 docentes, com a perspectiva de redução para cerca de uma centena durante 2008, em conseqüência da implementação de um programa para abertura de concursos para efetivação. Isso foi resultado da luta que travamos via ADUSP.

Informandes – Essas ações produtivistas a que o senhor se refere são parecidas com o que hoje é o REUNI, em âmbito nacional?

Ciro Correia – Exatamente. No entanto, o REUNI traz elementos de maior gravidade por buscar atingir todas as universidades federais e reestruturá-las numa perspectiva não apenas produtivista, mas de ataque frontal à perspectiva de que mantenham um padrão unitário de qualidade, que tenham como finalidade o ensino, a pesquisa e as atividades de extensão, que tenham professores em número suficiente, com adequadas condições de trabalho, de carreira e em regime preferencial de dedicação exclusiva. No que diz respeito aos alunos, o REUNI tem a perspectiva da formação aligeirada e do ensino desvinculado da pesquisa e da extensão. É enfim um frontal ataque à autonomia de gestão administrativa e financeira que o governo deveria garantir às universidades e pela qual continuaremos a lutar. Nesse contexto, as políticas produtivistas cumprem o papel de sobrecarregar os docentes, sem respeitar o devido tempo para pesquisa acadêmica e crítica social. Isso torna mais difícil e sacrificante a mobilização dos colegas contra essas políticas e programas para o sistema como um todo. No entanto, confiamos na capacidade de análise e de luta da categoria, para enfrentar e reverter esse quadro adverso.

Informandes – E quanto à reforma da previdência? O governo federal também tem planos para implantar um projeto prejudicial aos trabalhadores brasileiros em geral e aos servidores públicos em particular...

Ciro Correia – Bem, no primeiro governo Lula, lutamos pela não-aprovação da, na verdade, contra-reforma da previdência, uma vez que ela pretendia, por um lado, retirar direitos dos servidores públicos e, por outro lado, entregar ao sistema financeiro os recursos previdenciários até então sob controle do Estado, como defendemos que permaneçam. Para que seus muitos malefícios não se completem, lutamos agora pela não-aprovação do PLP 92/2007, que visa à regulamentação da previdência complementar conforme prevê a Emenda Constitucional nº 41/2003, que implementou a contra-reforma. Não satisfeito, o governo agora investe também contra o regime geral da previdência visando ao aumento da idade para a aposentadoria, à igualação de critérios para homens e mulheres e para trabalhadores urbanos e rurais, à desoneração dos empregadores e à redução de pensões, etc. Todas essas medidas prejudicam todos os trabalhadores e, também, por conta delas, é preciso investir no esclarecer toda a sociedade quanto a seus malefícios e buscar articulação conjunta dos trabalhadores do setor público e privado, no sentido de barrá-las.

Informandes – Como a sua gestão pretende atuar na formação de novos quadros e no fortalecimento do Sindicato Nacional?

Ciro Correia – A precarização do trabalho nas universidades tem dificultado que os professores, completamente assoberbados pelas exigências produtivistas, tenham tempo para militar com mais engajamento no movimento docente. Temos sido alvos de uma exploração muito grande, em um quadro adverso, e, apenas com muita determinação, conseguimos encontrar forças para nos engajar na luta. Mesmo por isso, acredito que o modo que temos para ir conquistando cada vez mais essa militância não pode diferir da forma com que o ANDES-SN sempre conduziu seus trabalhos, com a organização pela base, a promoção de discussões públicas sobre todos os temas, com amplo direito de todos os sindicalizados participarem. Precisamos é fortalecer cada vez mais esses trabalhos, inclusive dando mais agilidade às instâncias democráticas do nosso sindicato, como é o caso dos congressos.

Precisamos também nos engajar nas lutas que são de todos os trabalhadores, firmando a consciência de que as organizações sindicais devem ser suprapartidárias, para não vivenciarmos novamente aquilo que foi a cooptação da CUT para funcionar como braço do governo. Precisamos estar atentos para construir uma história diferente dessa, seja a partir da CONLUTAS, na qual agora nos encontramos, seja em conjunto com outras entidades que também tenham consciência da verdadeira traição política que o governo Lula perpetrou contra a classe trabalhadora, ao assumir a agenda neoliberal dos governos que o precederam, e dos descaminhos da CUT, ao se colocar como uma central sindical a serviço deste governo.

Informandes – A chapa possui uma estratégia para enfrentar o Proifes?

Ciro Correia – Nesse terreno, o foco de enfrentamento deve ser com o governo e seus agentes que desrespeitam as normas mais elementares de convivência republicana, ao chamar para a mesa de negociação uma entidade sem legitimidade política ou jurídica, que aparece justamente para procurar cumprir o papel de fragmentar nossa articulação nacional, pela importância da oposição que O ANDES-SN faz às políticas desastrosas que esse mesmo governo propõe implementar, e as ações da central sindical que lhe é atrelada. É a irresponsabilidade do atual governo que abriu espaço para o oportunismo daqueles que, não conseguindo no voto conquistar a direção do nosso sindicato no passado recente, optaram pelo divisionismo e esquecimento dos princípios que até há pouco também diziam defender.

Manter e intensificar nossas ações, fortalecer e agilizar nossas instâncias de deliberação, permanecer atentos ao número cada vez maior de desafios e exigências que são colocados para a nossa base, buscando sempre aperfeiçoar as formas de interlocução com todos os setores que também se colocam na defesa do sindicalismo independente, organizado pela base, onde a direção se coloque no papel de dar cumprimento às deliberações de instâncias democráticas, me parece que sempre será o melhor caminho para defender nossa organização, princípios e causas.

Informandes – O fato de você sair de uma universidade estadual fortalece a luta desse setor, especificamente?

Ciro Correia – Nossa chapa já teve sua primeira reunião de trabalho para traçar as diretrizes de atuação. É uma chapa que sai com muita representatividade e fortalecida porque traz diversidade de posicionamentos e de propostas quanto a estratégia de luta. O fato de o candidato a presidente do ANDES-SN circunstancialmente vir de uma estadual apenas reflete o tipo de organização que defendemos e conseguimos criar: um Sindicato Nacional que agrega os três setores, estadual, federal e particular, e que se organiza a partir destes setores. O ANDES-SN sempre defendeu o princípio da educação como direito e que as universidades, respeitadas as diferenças de práticas e culturas regionais e locais, devem ter um padrão único de qualidade, sejam elas federais, estaduais ou privadas.

Educação não é negócio. Não queremos centros de excelência isolados, mas um sistema de ensino superior que funcione com o mesmo padrão de qualidade, que contemple na prática a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Essa luta precisa ser levada em conjunto. Não será lutando apenas em trincheiras limitadas a cada um dos setores que conseguiremos vitórias.

Minha candidatura demonstra que somos um sindicato nacional em defesa das instituições de ensino superior. O questionamento plantado a respeito de onde vem o presidente do Andes se coloca a serviço dos que tentam criar uma entidade representativa apenas das universidades federais. Isso vem no sentido de atender aos interesses do governo, não dos docentes.

Informandes – Mas é fato que as universidades estaduais apresentam alguns problemas específicos...

Ciro Correia – Sim. É natural que cada setor contemple especificidades, sejam elas positivas ou negativas. A exemplo, nas estaduais, há padrões absolutamente discrepantes entre diferentes estados, e mesmo entre as diferentes universidades de um mesmo estado no que diz respeito à infra-estrutura física, recursos humanos, salários, planos de carreiras, formas de financiamento, grau de respeito dos governos pela autonomia universitária, existência ou não de mecanismos que garantam a gratuidade ativa, ou seja, as condições para que os estudantes permaneçam na universidade. Superar esses problemas implica em ampliar nossa organização em cada Estado e dentro de cada universidade estadual. Avançar na conquista das condições de financiamento para cada uma delas e do respeito à autonomia é uma luta que necessita continuar sendo feita em conjunto com os demais setores.

Fonte: ANDES.