| O MST fecha com o errado |
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| Sindicalismo e Movimentos Sociais |
| Escrito por Deley de Acari |
| Dom, 03 de agosto de 2008 13:28 |
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Só hoje ví no Globo, 26/07/08, matéria sobre Zé Rainha na Rocinha. O companheiro tá fechando com o "errado". Pra gente da cidade, principalmente pra gente da cidade "infurnado" na favela, Zé Rainha é do MST, Zé Rainha é o MST. No que Zé Rainha fecha com alguém na favela, pra favela e pras outras favelas, é o MST que tá fechando com a favela. Mas, quantos MSTs fecham com a favela? A gente aqui do Complexo de Acari sabe do MST que fecha com a gente. O MST que leva jovens das nossas favelas daqui pra fazer curso na Florestan, na Escola Bernardo... Quantos MSTezinhos existem dentro do MSTesão? O MST que fecha com a Rocinha é o mesmo MST que fecha com o Complexo de Acari? Qual é a linha de cada um desses MSTezinhos? linha 10 com cerol ou linha de tricô da mamãe? O jornal "diz" que o Zé Rainha tá na Rocinha há 10 anos. Verdade? O problema não é fechar com a Rocinha, o problema é com quem fechar na Rocinha, no Acari, no Alemão, na Maré. O problema é com quem tá fechando nessas quebradas! Se Zé Rainha ouvisse os conselhos do mano Marcelo Freixo não fecharia com quem tá fechando. Mano Marcelo talvez seja o compas que mais conhece cabeça de bandido neste Rio de Janeiro hoje em dia. Conhecer cabeça de bandido na favela não é mole, mas é menos duro que conhecer cabeça de bandido dentro da cadeia no meio de uma rebelião. É aí que se vê quem tem cabeça boa, quem tem cabeça ruim, quem tem equilíbrio, quem se desequilibra facil. Foi no sufoco de estar na alça de mira do Bope e do bujão de gás com maçarico aceso que mano Marcelo conseguiu conhecer bem a cabeça dos bandchefes e principalmente seus corações. E coração de bandido, ao contrário do que eles mesmos dizem, não está na sola dos pés, está no lugar do coração mesmo. Mas a cabeça nem sempre está onde deveria estar. "Não quero disputar nada com o tráfico, quero disputar, sim, os meninos que são carne barata pro trafico. esses eu quero trazer pra gente". Disse mais ou menos isso, Marcelo Freixo, num debate na Uerj. Zé devia estar lá... não estaria fechando com o errado como tá. O Trafico de Drogas, mais que nunca, mais que antes,funciona como empresa, e, como todo empresa hoje em dia, funciona pela lógica do capitalismo neoliberal. Já foi há muito tempo o tempo que o trafico de drogas era mais "economia de subsistência" que outra coisa. Bandidos como Cy de Acari, Orlando Jogador, Paulinho da Matriz, Meio Quilo do Jacarezinho ou Marcinho da Santa Marta, mesmo que de forma voluntarista e espontaneista sonhavam com um tráfico de drogas socialista... seja lá que bagulho seria isso num futuro qualquer. É porque viviam pensando assim que foram "morridos", cada qual na sua época, mas pelo mesmo motivo. Por mais bom patrão que seja, todo "dono" de boca é e pensa como patrão. Como qualquer patrão, seja da industria, seja do agrobisnes, seja do comércio, seja dos bancos... Fechar com o Ném é o mesmo que fechar com outro patrão qualquer do "asfalto" do entorno da Rocinha. Fechar com qualquer dono do Complexo de Acari é a mesmo coisa que fechar com qualquer empresário do Pólo Industrial do Complexo de Acari. Pensa só se o MST propusesse uma parceria com uma empresa de laticínios, ou com uma que enlata azeitona ou milho, ou com um grande comerciante de frutas e legumes do CEASA em vez de fechar com o LutArmada em Costa Barros ou com o Templo do Hip Hop em Acari? Ía tá fechando com "os patrão", ía não? É pura ilusão o MST fechar com quem tem fuzil e granada nas favelas! Ninguem na favela tá pronto pra luta armada de arma dessas aí. Pode tá preparado pra defender os lucros e o patrimônio do grande capital internacional, que lucra tudo e não perde nada com seu business off ou over, sei lá. Nessa linha, não tem luta armada certa, véio! Só vai dar é em mais e mais e mais luto desalmado do que já vem dando nas favelas. Num bagulho doido do jeito que tá hoje, que os inimigos entram nos computadores do GTNM e detonam tudo?... Fuzil, granada, bazuca? Valé é nada, véio! Ontem tava noutra lan hause... do meu lado quatro "menózinhos" jogando um jogo sinistro que não sei o nome. Sei que tem um cara negro, fortão, que sai dando porrada, roubando carro, moto... enquanto baixava um arquivo dei uma olhadinha na tela deles. O cara fortão tinha acabado de entrar numa casa, com um porrete na mão quebrou a mulher que tava na casa, que caiu estrebuchando, ensangüentada, esvaziou a gaveta dela, roubo tudo, saiu, roubou uma moto, depois um carro... isso tudo, véio, em menos de um minuto. Enquanto um dos menor, o mais velhinho, de seis anos "controlava" o boneco, ou outros três gritavam mata essa piranha, mata essa piranha, no cofre tem mais... Meu aquivo baixou, baixei a cabeça, baixou minha esperança... que inimigo nosso vai temer os fuzis que estão nas mãos de nossos "meninos" do tráfico, se eles já têm o domínio das mentes, das almas e dos corpos de nossos jovens desde os 4 anos de idade? Grupos de jovens vistos como radicais como o lutarmada, os neguin k não se cala, o templo do hip hop e... mesmo uma meninada vista como mais moderada que atua em algumas CEBs nas favelas tão portando armas mais poderosas, a cultura, a palavra, a net mesmo. A gente conhece jovem tão capaz de fazer o que nossos inimigos fizeram com os computadores do GTNM, só que para o bem, nosso bem, claro, que claro vai ser o mal pra quem nos quer mal. O MST que a gente conhece e tem exercitado numa boa mas ainda insatisfatória aliança é o MST que tem eventualmente feito alianças e parcerias com a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e que neste pique junta a luta do campo e da cidade contra o extermínio e as chacinas, e fizemos uma grande caminhada no dia 15 de Abril de 2006 lembrando a Chacina do Borel e de Eldorado do Carajás, o MST que vem fechado com a Plenária dos Movimentos Sociais, com a Campanha Contra O Caveirão e com o Movimento Pela Vida, Contra O Extermínio, o MST que tem levado jovens lideranças culturais e comunitárias faveladas para fazer cursos na Escola Nacional Florestan Fernandes, o MST que agora cria a Escola Estadual Bernardo Marín Gómez... o que possibita um aliança e um fortalecimento mútuo mais fácil entre roça e favela e que antes de tudo tem uma dupla missão: mostrar para o favelado que o MST não é um bando de baderneiros que invade e destrói a propriedade rural dos outros, e mostrar ao povo da roça que o favelado não é aquele bando de garotos malvados e armados que dão tiro até na sombra e vendem droga até pro próprio irmão. Essa missão é antes de tudo desfazer tudo que a burguesia, com o uso principalmente de suas grandes mídias, nos fez acreditar que éramos um pro outro, campo e cidade. Um problema desse MST com o qual temos dialogado é que várias vezes ele fecha com o certo de um jeito errado. Tenta chegar ao favelado através dos movimentos sociais de esquerda e de seus partidos políticos como se na favela não houvesse com quem dialogar e fechar diretamente. Se por um lado, o movimento favelado organizado esta totalmente esfacelado, enfraquecido e "em'direitado" nas favelas ainda há e cada vez mais surgem grupos e movimentos como o hip hop, com as que já existem de há muito CEBs, igrejas protestantes progressistas que até já conhecem o MST um pouco, e este pouco que conhecemos é o bastante pra termos uma idéia mais real e não preconceituosa dele, e que podemos ser o vínculo direto entre campo e favela. Não que descartemos os movimentos sociais de esquerda, suas entidades, seus partidos políticos. Muito pelo contrário: nós da favela, precisamos dele, tanto quanto precisamos do MST. Precisamos e temos tido o apoio, a aliança e a cumplicidade deles. Sem o Movimento Social de Esquerda, com certeza, a nossa luta nas favelas contra a política de extermínio físico, social e cultural de nosso povo favelado já estaria quase perdida. Mas, se algum dia a gente já precisou da tutela e da condução política dos e das camaradas do asfalto, bem ou mal essa tutela e essa condução nos ensinou a caminharmos com nossas próprias pernas e cabeças, não mais "puxados" e "apadrianhados" mas lado a lado, irmãs/os com irmãs/o. O sol e a chuva, os vendavais e as brisas nos amadureceram, mesmo que poucos ainda nas favelas, para continuarmos e conversarmos e lutarmos ombro a ombro, lado a lado com o movimento social de esquerda e com o MST. Entendendo que as alianças e parcerias e cumplicidades com o povo da roça é necessariamente diferente da com o povo da cidade. Mas que é a mesma luta, o mesmo caminho, a mesma direção. Qual?... É irresistível não citar o poeta: Copañero, no hay camino, el camino se hace al andar. Mas, camaradas, companheiras/os, irmãos ,irmãs, seja qual for o caminho que juntos fizermos caminhando favela&roça&cidade, não será o caminho errado que o MST de Zé Rainha escolheu nas favelas via Rocinha. A gente nem acredita que o MST do Zé Rainha é o MST de verdade. A gente pode até fechar com o certo de um jeito errado. Mas jamais vamos fechar com o errado do jeito certo. E principalmente jamais vamos fechar errado ou certo com o errado. É isso aí, gente, como temos feito até agora, na pedreira/largartixa com o LutArmada, no Complexo de Acari com o Templo do Hip Hop na Penha com Neguin K Não se Kala, na Maré/Timbau com o CEASM, no geral das favelas com a REDE... Vamos estar sempre juntos... FECHANDO CERTO COM O CERTO. Nunca fechando com o errado e não deixando o que vem da roça ou do asfalto, o certo que vem na favela, cheio de boa intenção e vontade política, ficar de bucha e fechar com o errado da favela. Deley de Acari é poeta e animador cultural. |


