| Fidel Castro: "Sou o responsável pela perseguição que houve em Cuba aos homossexuais" |
|
|
|
| Socialismo |
| Carmen Lira Saade |
| Qua, 01 de Setembro de 2010 15:51 |
A luta, a batalha que tivemos que travar, nos levou a fazer esforços superiores aos que talvez faríamos sem bloqueio, diz o comandante da Revolução cubana, Fidel Castro, na entrevista. A imagem é do sitio da Internet Cubadebate do passado dia 17, quando encontrou-se com uma brigada médica que prestou serviços na Bolívia
Foto Ap/Cubadebate, Álex Castro
Havana. Ainda que não haja nada que denote nele mal-estar algum, creio que Fidel não gostará do que vou lhe dizer: - Comandante, todo o encanto da Revolução Cubana, o reconhecimento, a solidariedade de uma boa parte da intelectualidade universal, os grandes logros do povo frente ao bloqueio, enfim, tudo, tudo foi abaixo por causa da perseguição a homossexuais em Cuba. Fidel não foge do tema. Nem nega nem rechaça a asseveração. Só pede tempo para recordar, diz, como e quando se desatou o preconceito nas fileiras revolucionárias. Há cinco décadas, e por causa da homofobia, os homossexuais em Cuba foram marginalizados e muitos foram enviados a campos de trabalho militar-agrícola, acusados de contra-revolucionários. - Sim - recorda -, foram momentos de grande injustiça, uma grande injustiça! - repete enfático -, quem quer que seja que a tenha cometido. Sim, nós a fizemos, nós... Estou tratando de delimitar minha responsabilidade em tudo isso, porque, desde logo, pessoalmente, eu não tenho esse tipo de preconceitos. Sabe-se que entre seus melhores e mais antigos amigos há homossexuais. - Mas, então, como se conformou esse ódio ao diferente? Ele pensa que tudo se foi produzindo como uma reação espontânea nas fileiras revolucionárias, que vinha das tradições. Na Cuba anterior não só se discriminava os negros: também se discriminava as mulheres e, desde logo, os homossexuais... -Sim, sim. Mas não na Cuba da nova moral, da que tão orgulhosos estavam os revolucionários de dentro e de fora... - Quem foi, portanto, o responsável, direto ou indireto, de que não se desse um basta ao que estava acontecendo na sociedade cubana? O Partido? Porque esta é a hora em que o Partido Comunista de Cuba não explicita em seus estatutos a proibição de discriminar por orientação sexual. -Não - diz Fidel -. Se alguém é responsável, sou eu... "É certo que nesses momentos não podia me ocupar desse assunto... Encontrava-me imerso, principalmente, na Crise de Outubro, na guerra, nas questões políticas..." - Mas isso se converteu num sério e grave problema político, comandante. -Compreendo, compreendo... Nós não o soubemos valorar... sabotagens sistemáticas, ataques armados, se sucediam o tempo todo: tínhamos tantos e tão terríveis problemas, problemas de vida ou morte, sabes? que não lhe demos a atenção suficiente. -Depois de tudo aquilo, tornou-se muito difícil a defesa da Revolução no exterior... A imagem se deteriorara para sempre em alguns setores, sobretudo da Europa. -Compreendo, compreendo - repete -; era justo... - A perseguição a homossexuais podia se dar, com menor ou maior protesto, em qualquer parte. Não na Cuba revolucionária - lhe digo. -Compreendo: é como quando o santo peca, verdade?... Não é o mesmo que peque o pecador, não? Fidel esboça um tênue sorriso, para logo voltar a colocar-se sério: - Olha: pense você como eram os nossos dias naqueles primeiros meses da Revolução: a guerra com os ianques, o assunto das armas e, quase simultaneamente a isso, os planos de atentados contra minha pessoa... Fidel revela como influíram tremendamente nele e alteraram sua vida as ameaças de atentados e os próprios atentados de que foi vítima: "Não podia estar em lugar nenhum, não tinha nem onde viver..." As traições estavam na ordem do dia e ele tinha que andar escapando por toda a parte... "Escapar da CIA, que comprava tantos traidores, às vezes entre nossa própria gente, não era coisa simples; mas, enfim, de qualquer maneira, se há responsabilidade a apurar, assumo a minha. Eu não vou jogar a culpa em cima dos outros...", sustenta o dirigente revolucionário. Só lamenta não ter corrigido então... Hoje, entretanto, o problema está sendo enfrentado: Sob o lema A homossexualidade não é um perigo, a homofobia sim, celebrou-se recentemente em muitas cidades do país a terceira Jornada Cubana pelo Dia Mundial Contra a Homofobia. Gerardo Arreola, correspondente de La Jornada em Cuba, presta conta pontualmente do debate e da luta que se leva adiante na Ilha pelo respeito aos direitos das minorias sexuais. Arreola informa que é Mariela Castro, uma socióloga de 47 anos - filha do presidente cubano Raúl Castro -, é quem lidera o Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), instituição que - diz ela - conseguiu melhorar a imagem de Cuba depois da marginalização dos anos 60. Aqui estamos as cubanas e os cubanos, para seguir lutando pela inclusão, para que esta seja a luta de todas e todos, para o bem de todas e todos, disse Mariela Castro ao inaugurar a jornada, escoltada por transexuais que sustentavam uma bandeira cubana e outra multicolor do movimento gay. Hoje em Cuba, os esforços pelos homossexuais incluem iniciativas como mudança de identidade de transexuais ou as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. Desde os anos 90, a homossexualidade na ilha está despenalizada, ainda que não acabaram totalmente os casos de assédio policial. E, desde 2008, realizam-se operações gratuitas de mudança de sexo. O bloqueio Em 1962, os Estados Unidos decretaram o bloqueio contra Cuba. Tratou-se de uma feroz tentativa de genocídio... como o chamou Gabriel García Márquez, o escritor que faz a melhor crônica do período. -Período que dura até nossos dias - me adverte Fidel. "O bloqueio está vigente hoje mais do que nunca, e com o agravante, nestes momentos, de que é lei constitucional nos Estados Unidos, pelo fato de que o vota o presidente, o vota o Senado, o vota a Câmara de Representantes..."
O mundo do futuro tem que ser comum e os direitos dos seres humanos têm que estar acima dos direitos individuais... E será um mundo rico, onde os direitos sejam iguaizinhos para todos, sustentou Fidel Castro. A imagem, durante um aparecimento do líder cubano no dia 22 na televisão. Foto Reuters/Estudos da Revolução/Cubadebate
O número de votos e sua aplicação podem aliviar consideravelmente, ou não, a situação. Mas aí está... -Sim, aí está a lei Helms-Burton, de ingerência e anexação... e a lei Torricelli, devidamente aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos. Recordo bem do senador Helms no dia de 1996 em que foi aprovada sua iniciativa. Estava exultante e repetia diante dos jornalistas o centro de suas pretensões: "Castro tem que se sair de Cuba. Não me importa como Castro deixará o país: se é de forma vertical, ou de forma horizontal, isso é assunto deles... Mas Castro deve deixar Cuba." Começa o cerco "Em 1962, quando os Estados Unidos decretaram o bloqueio, Cuba se encontrou de pronto com a evidência de que só tinha seis milhões de cubanos determinados, numa ilha luminosa e desguarnecida..." Ninguém, nenhum país, podia comercializar com Cuba; não havia ninguém com quem se pudesse comprar ou vender, ai daquele país ou empresa que não se sujeitasse ao assédio comercial decretado pelos Estados Unidos. Sempre me chamou a atenção aquele barco da CIA que patrulhou as águas territoriais até a uns poucos anos, para interceptar os barcos que levassem mercadorias à ilha. O problema maior, entretanto, foi sempre o dos medicamentos e o dos alimentos, que se mantém até nossos dias. Todavia hoje não se permite a nenhuma empresa alimentícia comercializar com Cuba, nem sequer pela importância dos volumes que a ilha adquiriria ou porque está sempre obrigada a pagar adiantado. Condenados a morrer de fome, os cubanos tiveram que inventar a vida outra vez desde o principio, diz García Márquez. Desenvolveram uma tecnologia da necessidade e uma economia da escassez, relata: toda uma cultura da solidão. Não há gesto de pesar, menos de amargura, quando Fidel Castro admite o abandono em que grande parte do mundo deixou a Ilha. Ao contrário... - A luta, a batalha que tivemos que travar nos levou a fazer esforços superiores aos que talvez teríamos feito sem bloqueio - diz Fidel. Recorda com uma espécie de orgulho, por exemplo, a gigantesca operação de massas que cinco milhões de pessoas levaram adiante, agrupadas nos CDR. Apenas numa jornada de oito horas logrou uma vacinação maciça em todo o país, como a que erradicou doenças como a pólio ou o impaludismo. Ou quando mais de um quarto de milhão de alfabetizadores - cem mil deles crianças - se lançou à alfabetização da maior parte da população adulta do país, que não sabia ler nem escrever. Mas o grande salto se dá, sem dúvida, na medicina e na biotecnologia: - Fala-se que o próprio Fidel mandou formar na Finlândia uma equipe de cientistas e médicos que teriam que se encarregar da produção de medicamentos. - O inimigo usou contra nós a guerra bacteriológica. "Trouxe aqui o vírus II da Dengue. Na Cuba pré- revolucionária não se conhecia nem o I. Aqui nos apareceu o II, que é muito mais perigoso, porque produz uma dengue hemorrágica, que ataca sobretudo as crianças. "Entrou por Boyeros. Trouxeram-no os contra-revolucionários, esses mesmos que andavam com Posada Carriles, esses mesmos que Bush indultou, esses mesmos que deram lugar á sabotagem do avião de Barbados... Essa mesma gente recebeu a tarefa de introduzir o vírus", denuncia Fidel. -Culpavam a Cuba porque, diziam, havia muito mosquito na Ilha - lhe digo. - Como não haveria se para combatê-los é preciso o abate, e o abate não o podíamos obter: só o produziam nos Estados Unidos? - revela. O rosto do comandante se ensombrece: Começaram a morrer as crianças, recorda. "Não tínhamos com o que atacar a doença. Ninguém queria nos vender os remédios e os equipamentos com os quais se erradica o vírus. Cento e cinquenta pessoas morreram vítimas da doença. Quase todas eram crianças... Tivemos que acudir às compras por contrabando, ainda que fosse caríssimo. Em toda a parte proibiram de trazê-los. Uma vez, por misericórdia, deixaram trazer um pouco. Por misericórdia, disse o homem forte da Revolução. Confesso minha perturbação... Não precisamente por misericórdia, mas por solidariedade, acudiram alguns amigos de Cuba. Fidel menciona, pelo México, os Echeverría: Luis e María Esther que, ainda que já não estivessem no governo, conseguiram alguns equipamentos que permitiram paliar de alguma forma a epidemia. -Não os esqueceremos nunca - diz comovido. - Já vê? - lhe digo. Nem tudo foram más ou desafortunadas relações com personagens do poder mexicano... -Desde logo que não - diz antes que concluíssemos a conversa/entrevista e passássemos ao almoço que compartimos com sua esposa, Dalia Soto del Valle. Desde esse terraço sideral de onde se coloca para olhar e analisar o mundo, a vida... Fidel faz um brinde para que no mundo do futuro tenhamos uma única Pátria. " Que é isso de que uns sejam espanhóis, outros ingleses, outros africanos? E que uns tenham mais que outros...? "O mundo do futuro tem que ser comum e os direitos dos seres humanos têm que estar acima dos direitos individuais... E será um mundo rico, onde os direitos sejam iguaizinhos para todos..." - Como se conseguirá isso, comandante? -Educando... educando e criando amor e confiança. [Jornal La Jornada, terça-feira, 31 de agosto de 2010, p. 26] Fonte: La Jornada Tradução: Sergio Granja Revisão: Silvia Mundstock
|



0 Comentários